Alterações nas relações funcionais do comportamento verbal: a psicose como fenômeno de desvinculação contextual

A psicose permanece um fenômeno clínico complexo para a Psicologia. Delírios, alucinações e fala desorganizada são usualmente descritos como sintomas de transtornos psicóticos. Para a Análise do Comportamento, porém, descrever uma forma de comportamento não significa explicar suas condições de ocorrência. O interesse está nas relações entre comportamento, ambiente e história de interação.

Essa perspectiva possui uma tradição própria. Skinner, Solomon e Lindsley publicaram, em 1954, um método para a análise experimental do comportamento de pacientes psicóticos. Lindsley (1956) posteriormente descreveu a aplicação de métodos de condicionamento operante à pesquisa com pessoas diagnosticadas com esquizofrenia crônica. Skinner (1956), por sua vez, discutiu diretamente o comportamento psicótico como objeto possível de uma ciência natural do comportamento.

A produção posterior mostrou que verbalizações classificadas como psicóticas podem apresentar relações sistemáticas com condições ambientais. Mace et al. (1988), ao analisarem a fala bizarra de uma mulher diagnosticada com esquizofrenia, encontraram diferenças na frequência das verbalizações em diferentes condições e desenvolveram uma intervenção a partir da análise funcional. Wilder et al. (2001) identificaram função relacionada à atenção em vocalizações bizarras de um adulto com esquizofrenia e obtiveram redução dessas respostas mediante procedimentos comportamentais. No Brasil, Britto et al. (2010) também encontraram diferenças nas verbalizações de um participante diagnosticado com esquizofrenia quando submetido a condições experimentais distintas.

Esses resultados são coerentes com a análise funcional do comportamento verbal proposta por Skinner (1957). Uma emissão verbal não é explicada simplesmente por sua forma nem por uma entidade interna que supostamente a produziria. Sua análise requer investigação das condições antecedentes, das consequências e da história de interação que participam de sua ocorrência. Delírios e alucinações também foram discutidos nessa perspectiva por Britto (2004) e Bueno e Britto (2011).

Uma revisão de Santos, Santos e Aureliano (2013) identificou 25 estudos sobre comportamento psicótico publicados no Journal of the Experimental Analysis of Behavior e no Journal of Applied Behavior Analysis, destacando o comportamento verbal entre os principais alvos investigados. Mais recentemente, Froján-Parga et al. (2019) reuniram 23 estudos envolvendo 24 adultos em uma revisão e meta-análise de intervenções baseadas em avaliação funcional para delírios, alucinações e fala desorganizada, operacionalizados nos estudos como vocalizações atípicas. A redução média global estimada foi de 72%, embora os autores tenham apontado limitações metodológicas e restrições quanto à manutenção e generalização dos efeitos.

Esses dados tornam inadequado afirmar que a psicose nunca tenha sido investigada pela Análise do Comportamento. Ela foi. A questão que proponho é outra.

Duas observações clínicas realizadas pelo autor deram origem à pergunta que orienta este artigo. Em ambos os episódios observados, o comportamento verbal apresentava, antes da alteração clínica, relativa correspondência com os estímulos e acontecimentos presentes na interação. Durante o episódio psicótico, observaram-se emissões cuja relação funcional com as condições imediatamente presentes se tornou menos evidente. Essas observações não são apresentadas como evidência da hipótese aqui proposta, mas como ponto de partida para uma questão que precisa ser investigada sistematicamente.

A partir delas, proponho a seguinte hipótese: determinados episódios da psicose podem envolver alterações nas relações funcionais que organizam parte do comportamento verbal, tornando menos evidente, em determinados momentos, sua relação com os estímulos e contingências presentes no contexto imediato.

A expressão perda do contexto não é utilizada como propriedade definidora da psicose. Trata-se de uma descrição inicial que precisa ser operacionalizada. O que clinicamente pode parecer uma fala fora de contexto deve ser transformado em variáveis observáveis: relação entre estímulo antecedente e resposta verbal, correspondência temática, interlocutor, consequências sociais, frequência, duração, latência, persistência, mudança de tópico, solicitação de atenção, esquiva e sensibilidade às alterações ambientais.

A pergunta central, portanto, deixa de ser apenas qual é a função desta verbalização? E passa a ser: como as relações funcionais do comportamento verbal se modificam durante a transição entre condições de relativa estabilidade, episódio psicótico, estabilização e recuperação?

Essa questão pode orientar estudos longitudinais de caso único ou séries de casos, sem provocar episódios psicóticos e sempre sob condições éticas e clínicas adequadas. O mesmo conjunto de categorias comportamentais poderia ser registrado durante diferentes períodos, permitindo comparar antecedentes, respostas e consequências. O objetivo não seria classificar previamente a fala como com sentido ou sem sentido, mas verificar empiricamente sua sensibilidade às condições ambientais.

Uma verbalização poderia aumentar diante de atenção, diminuir diante de determinada condição, permanecer relativamente estável diante de mudanças contextuais ou apresentar funções diferentes em momentos distintos. Cada possibilidade constitui um resultado possível, e não uma conclusão previamente estabelecida. Essa abertura é essencial para que a proposta permaneça científica.

Variáveis clínicas e farmacológicas também deveriam ser registradas. Isso não significa substituir a análise comportamental por uma explicação exclusivamente médica. Significa reconhecer que condições biológicas, alterações clínicas e tratamentos podem modificar as condições nas quais o comportamento ocorre e, portanto, devem ser consideradas na descrição funcional da psicose. A complementaridade entre níveis de análise não implica identidade entre explicações.

O interesse dessa proposta está justamente em investigar a mudança, e não apenas a presença de determinada resposta. Se determinadas verbalizações permanecerem sensíveis às contingências sociais durante um episódio psicótico, esse será um resultado relevante. Se sua sensibilidade se modificar, também será. Se relações funcionais observáveis antes do episódio se tornarem menos evidentes e posteriormente voltarem a aparecer durante a recuperação, teremos outra possibilidade empiricamente verificável.

A história da Análise do Comportamento demonstra que a psicose pode ser observada, mensurada e analisada funcionalmente. Os estudos de. Mace et al. (1988), Wilder et al. (2001), Britto et al. (2010) e Froján-Parga et al. (2019) sustentam essa possibilidade. O passo seguinte pode ser investigar de maneira longitudinal como as relações funcionais do comportamento verbal se organizam e se transformam ao longo de um episódio.

Não se trata de afirmar que a psicose seja simplesmente comportamento, nem de negar sua complexidade clínica e biológica. Trata-se de perguntar, com maior precisão, o que acontece com o comportamento verbal quando aquilo que anteriormente apresentava relação observável com o contexto deixa, em determinado momento, de apresentar a mesma organização funcional.

As duas observações clínicas que deram origem a este trabalho não demonstram uma teoria. Elas produziram uma pergunta sobre a psicose. A tarefa científica é transformar essa pergunta em variáveis observáveis, delineamentos adequados e dados replicáveis. É nesse movimento que a Análise do Comportamento pode contribuir: não procurando uma entidade escondida atrás do comportamento, mas investigando as relações entre comportamento, ambiente e história de interação que podem ser demonstradas empiricamente.

Reconheço, contudo, que há muito mais a descobrir do que já foi estabelecido. Por isso, penso ser especialmente importante o despertar de novos pesquisadores para o campo do comportamento psicótico. O tema é urgente e profundamente relevante — não apenas para a ciência, mas sobretudo para as famílias que acompanham, com carinho e preocupação, o percurso de seus entes queridos, e para as próprias pessoas que, em algum momento, veem sua relação com o mundo e com a própria fala transformada de maneira que lhes escapa ao controle. Cada avanço na compreensão desses processos é também um passo em direção a mais acolhimento, mais precisão e mais esperança para quem convive com essa realidade.

Que novas gerações de investigadores possam fazer dessa temática um espaço de escuta rigorosa, criatividade metodológica e compromisso ético com aqueles que mais precisam. A psicose não é um enigma fechado — é um fenômeno vivo, em movimento, e merece toda a atenção que a ciência, com humildade e perseverança, pode oferecer.

Referências

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Escrito por adrianonicolau

Adriano Nicolau da Silva (CRP: 11855) é psicólogo, psicoterapeuta, professor e pesquisador, com atuação desde a década de 1990. Na psicoterapia, atua clinicamente desde 1993 com base no Behaviorismo Radical e na Análise do Comportamento, acumulando experiência e publicações em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental focadas em ansiedade, depressão e pânico. Como professor, possui trajetória no ensino superior, laboratório de Psicologia Experimental do Comportamento e atuado como supervisor clínico, professor e integra o Núcleo de Apoio Psicopedagógico. Sua formação educacional e clínica reúne formações em Psicologia, Filosofia e Pedagogia, além de especializações voltadas à análise do comportamento, neuropsicologia e educação.
CRP: 11855 - Psicoterapeuta no atendimento adulto - adrins@terra.com.br
Lattes: 5871570596934799
ORCID: 0009-0004-9721-3965
Nome para citações: SILVA, A. N.

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