Por que a Psicologia precisa dar mais atenção à imagem corporal?

As relações que os indivíduos estabelecem com o próprio corpo e com a aparência física acompanham a humanidade ao longo de sua história. Embora os padrões de beleza tenham se transformado de acordo com diferentes contextos históricos e culturais, o corpo e a aparência têm ocupado um lugar central nas relações sociais e na forma como as pessoas interagem com o mundo. Essa importância se reflete na literatura científica, que aponta a insatisfação corporal como um elemento que impacta diretamente a qualidade de vida e bem-estar dos indivíduos (Griffiths et al., 2016; Xiao et al., 2026). Basta acessarmos qualquer dispositivo conectado às mídias digitais para nos depararmos com conteúdos que difundem ideais de aparência específicos e que podem favorecer processos de comparação social e autocrítica. Diante disso, faço um convite ao leitor: quando foi a última vez que você ouviu alguém fazer um comentário nocivo sobre o próprio corpo ou sobre um corpo alheio? 

Cotidianamente, encontramos pessoas que demonstram intenso descontentamento com sua imagem e que recorrem a diferentes estratégias para modificar a própria aparência. Dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS, 2025) apontam que o número de procedimentos estéticos realizados no mundo aumentou em mais de 40% entre os anos de 2020 e 2024, sendo o Brasil o país que lidera o número de cirurgias plásticas atualmente. Paralelamente, o desenvolvimento e a crescente popularização de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, erroneamente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, têm ampliado as possibilidades de tratamento da obesidade, mas também levantado preocupações quanto ao seu uso para fins predominantemente estéticos, especialmente quando realizado sem indicação ou acompanhamento adequado. Esses fenômenos ilustram como a busca pela modificação da aparência pode, em diferentes contextos, tornar-se uma estratégia para lidar com o sofrimento relacionado ao corpo, inclusive envolvendo práticas potencialmente prejudiciais à saúde. Nesse cenário, torna-se imprescindível que profissionais de saúde estejam preparados para reconhecer e acolher a dimensão da imagem corporal no cuidado clínico. 

Compreendendo a imagem corporal

Todos nós desenvolvemos maneiras particulares de nos relacionarmos com o corpo, e essa relação influencia, de forma direta ou indireta, diferentes aspectos da vida cotidiana. Tradicionalmente a literatura define imagem corporal como um construto multidimensional que engloba diferentes aspectos da forma como percebemos, pensamos, sentimos e agimos em relação ao próprio corpo (Grogan, 2021). Entretanto, podemos ampliar essa compreensão ao considerar a imagem corporal como um conjunto de padrões funcionais de interação entre o indivíduo e o próprio corpo, construídos ao longo da história de aprendizagem e continuamente modulados por contingências sociais e práticas verbais culturalmente compartilhadas. Ou seja, mais do que uma percepção estável dentro do indivíduo, podemos olhar para a imagem corporal como um repertório comportamental: como a pessoa observa, descreve, avalia e age em relação ao próprio corpo, que é aprendido e mantido em interação com o ambiente.

Essa relação com o corpo pode ser compreendida considerando diferentes níveis de seleção do comportamento. Do ponto de vista filogenético, podemos, por exemplo, compreender que predisposições relacionadas à sensibilidade a sinais de status, pertencimento e atratividade influenciam a maneira como características físicas adquirem relevância social (Goss & Kelly, 2024). No nível ontogenético, a história de aprendizagem de cada indivíduo, incluindo as contingências às quais foi exposto, as mensagens recebidas sobre aparência e as relações verbais construídas ao longo da vida, contribui para o desenvolvimento de formas particulares de responder ao próprio corpo (Pearson, 2010). E é na dimensão cultural que muitos dos critérios usados para avaliar corpos são estabelecidos, transmitidos e continuamente reforçados por práticas sociais, funcionando, na prática, como regras verbais amplamente compartilhadas sobre o que é um corpo ideal.

Imagem corporal, cultura e saúde

Quando refletimos sobre as regras acerca da aparência, a magreza aparece como uma das principais características idealizadas. Termos como “cultura da dieta” são encontrados na literatura para descrever um conjunto de regras socioculturais que valorizam a magreza e estabelecem o corpo magro como referência normativa (Jovanovski & Jaeger, 2022). Essa lógica pode colocar as pessoas em constante vigilância em relação ao peso e à alimentação, favorecendo a construção de normas implícitas que classificam determinados alimentos ou grupos alimentares como “proibidos”. Nesse contexto, quando esses alimentos são consumidos, podem surgir experiências de culpa, vergonha e autocriticismo, acompanhadas da necessidade de compensar o que foi ingerido. Um exemplo cotidiano pode ser observado após períodos festivos, como a Páscoa: diante do consumo de uma quantidade maior de chocolate, muitas pessoas recorrem ao exercício físico com o objetivo de “eliminar” as calorias ingeridas. Assim, uma experiência alimentar pontual passa a ser algo que precisa ser corrigido ou compensado.

Uma das pressões contemporâneas relacionadas à imagem corporal reside na forma como o discurso da saúde, em determinados contextos, parece funcionar como um veículo para a propagação de ideais de aparência. Esse fenômeno pode ser observado, por exemplo, em parte dos conteúdos compartilhados nas redes sociais. Páginas chamadas “fitispiration”, inicialmente apresentadas como fontes de inspiração para um estilo de vida saudável, frequentemente enfatizam corpos magros, musculosos e altamente definidos como representações de saúde e sucesso. A literatura tem demonstrado que a exposição recorrente a esse tipo de conteúdo está associada ao aumento da comparação social, da insatisfação corporal e do autocriticismo, dificultando o desenvolvimento de uma relação mais flexível com o próprio corpo (Barron et al., 2021). Quando a proposta é saúde, mas a entrega é aparência, corremos o risco de transformar o cuidado com o corpo em mais uma fonte de sofrimento. Paradoxalmente, essa busca por uma suposta vida saudável pode favorecer o engajamento em comportamentos potencialmente prejudiciais, como dietas excessivamente restritivas, prática compulsiva de exercícios físicos e o uso indiscriminado de medicamentos sem prescrição médica.

Implicações para a Psicologia clínica

Um desafio frequente na prática clínica consiste justamente em superar a compreensão de que a insatisfação corporal precisa ser eliminada para que o tratamento seja considerado bem-sucedido. Cabe questionar até que ponto esse objetivo é realista quando os clientes permanecem inseridos em contextos que favorecem processos de comparação social e continuamente reforçam regras sobre aparência. Nesses casos, esperar a ausência de insatisfação pode significar estabelecer uma meta pouco factível e, por vezes, incompatível com a realidade em que a pessoa vive. Assim, o foco clínico se desloca da tentativa de eliminar a insatisfação corporal, para a compreensão funcional dos comportamentos relacionados ao corpo, e para o desenvolvimento de maior flexibilidade psicológica na forma como o indivíduo responde às próprias experiências corporais.

Sob a perspectiva da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), por exemplo, muitos comportamentos relacionadas à imagem corporal podem ser compreendidos como tentativas persistentes de controlar experiências privadas aversivas (Griffiths et al., 2018; Pearson et al., 2010). Podemos pensar sobre uma série de experiências de rejeição, vergonha e insegurança em relação à aparência. Estratégias como monitorar constantemente o corpo, evitar determinadas roupas ou restringir a alimentação podem produzir alívio imediato, mas tendem a fortalecer o controle que essas experiências exercem sobre o comportamento, restringindo a vida da pessoa e ampliando a centralidade da aparência na definição de sua identidade. Dessa forma, a proposta aqui não consiste necessariamente em ensinar o indivíduo a gostar do próprio corpo ou a eliminar pensamentos negativos sobre sua aparência, mas em favorecer uma relação mais flexível com essas experiências, reduzindo seu poder de restringir comportamentos importantes e ampliando o engajamento em ações orientadas por valores.

É justamente aí que reside um dos grandes desafios da prática clínica. A psicoterapia constitui um contexto de aprendizagem no qual novos repertórios podem ser desenvolvidos, mas esses repertórios serão continuamente colocados à prova em ambientes que reforçam regras rígidas sobre aparência, magreza e valor pessoal. Comentários sobre o corpo durante encontros familiares, mensagens veiculadas pela mídia e até mesmo práticas de profissionais da saúde marcadas pelo estigma do peso podem enfraquecer ou competir com as mudanças construídas em terapia. Por isso, trabalhar com imagem corporal exige sensibilidade para compreender o contexto em que essas experiências são produzidas e compromisso em ajudar as pessoas a desenvolverem maior flexibilidade, ampliando a possibilidade de viver uma vida significativa que não seja definida exclusivamente pela aparência.

Se a imagem corporal é, como proposto aqui, um padrão aprendido e continuamente mantido pelo contexto, então a resposta à pergunta que abre este texto começa a se desenhar: a Psicologia precisa dar mais atenção à relação das pessoas com seus corpos porque a imagem corporal está implicada em diferentes dificuldades com a saúde mental e essa relação não se transforma apenas dentro do consultório. Ela é construída e pode ser transformada no mundo lá fora, nas mesmas contingências sociais e culturais em que é mantida. E é sobre essas contingências que a clínica também precisa atuar.

Referências

Barron, A. M., Krumrei-Mancuso, E. J., & Harriger, J. A. (2021). The effects of fitspiration and self-compassion Instagram posts on body image and self-compassion in men and women. Body image, 37, 14-27.

Goss, K., & Kelly, A. (2024). Os papéis da vergonha, do autocriticismo e da terapia focada na compaixão nos transtornos alimentares. In P. Gilbert & G. Simos (Orgs.), Terapia focada na compaixão: Aplicações e prática clínica. Artmed.

Griffiths, S., Hay, P., Mitchison, D., Mond, J. M., McLean, S. A., Rodgers, B., … & Paxton, S. J. (2016). Sex differences in the relationships between body dissatisfaction, quality of life and psychological distress. Australian and New Zealand Journal of Public Health, 40(6), 518-522.

Griffiths, C., Williamson, H., Zucchelli, F., Paraskeva, N., & Moss, T. (2018). A systematic review of the effectiveness of acceptance and commitment therapy (ACT) for body image dissatisfaction and weight self-stigma in adults. Journal of contemporary psychotherapy, 48(4), 189-204.

International Society of Aesthetic Plastic Surgery. (2025). ISAPS International Survey on Aesthetic/Cosmetic Procedures Performed in 2024. https://www.isaps.org/discover/about-isaps/global-statistics/global-survey-2024-full-report-and-press-releases/

Jovanovski, N., & Jaeger, T. (2022). Demystifying ‘diet culture’: Exploring the meaning of diet culture in online ‘anti-diet’feminist, fat activist, and health professional communities. In Women’s studies international Forum (Vol. 90, p. 102558). Pergamon.

Pearson, A. N., Heffner, M., & Follette, V. M. (2010). Acceptance and commitment therapy for body image dissatisfaction: A practitioner’s guide to using mindfulness, acceptance, and values-based behavior change strategies. New Harbinger Publications.

Xiao, Y., Barnhart, W. R., Wang, P., Sahlan, R. N., Huang, Z., Cui, T., … & He, J. (2026). The association between body dissatisfaction and life satisfaction: A preregistered meta-analysis of 30 years of research. Clinical Psychology Review, 102724.

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Escrito por Bolivar Cibils Filho

Psicólogo, Mestre e Doutorando em Psicologia Clínica pela PUCRS. Especialista em Terapias Cognitivas e Comportamentais. Possui treinamento em Terapia Focada na Compaixão pela Compassionate Mind Foundation, formação em Terapia Comportamental Dialética e aprimoramento no tratamento de transtornos alimentares pelo AMBULIM (IPq/FMUSP). Professor e supervisor clínico em cursos de pós-graduação, com ênfase em terapias comportamentais contextuais. Pesquisador colaborador do LaEIC (UFMG). Desenvolve pesquisas nas áreas de imagem corporal, autocompaixão e transtornos alimentares.

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