Ansiedade e o ciclo da esquiva: quando evitar mantém o sofrimento

A ansiedade costuma ser apresentada como um problema que está dentro da pessoa. É comum ouvir que alguém “tem ansiedade”, “não consegue controlar os pensamentos” ou “precisa aprender a ficar mais calmo”. Essas explicações fazem parte da linguagem cotidiana, mas pouco ajudam quando queremos compreender por que determinados comportamentos ansiosos aparecem, em quais situações se mantêm e o que pode ser feito para modificá-los. A Análise do Comportamento oferece outra possibilidade: olhar para aquilo que a pessoa faz, para as situações em que esse comportamento ocorre e para as consequências que contribuem para sua manutenção.

Isso não significa negar a ansiedade ou reduzir uma experiência complexa a uma simples relação entre estímulo e resposta. O Behaviorismo Radical considera sentimentos e eventos privados como parte do comportamento humano. O problema está em tratá-los como causas finais e independentes daquilo que acontece na história de interação do indivíduo com seu ambiente. Skinner (1953, 1974) propôs compreender o comportamento a partir das relações que estabelece com as condições ambientais e com sua história de aprendizagem. Nessa perspectiva, falar em ansiedade não encerra a análise. É preciso perguntar: em que situações ela aparece? O que a pessoa faz quando se sente ansiosa? O que acontece imediatamente depois?

Essas perguntas modificam a forma de compreender o problema. Coêlho e Tourinho (2008) destacam que o conceito de ansiedade pode ser analisado comportamentalmente a partir das relações entre condições antecedentes, respostas e consequências. Friman, Hayes e Wilson (1998), por sua vez, mostram que emoções como a ansiedade não devem ser afastadas do campo de investigação da Análise do Comportamento. Ao contrário, podem ser compreendidas quando examinamos as contingências nas quais os comportamentos relacionados a elas são estabelecidos e mantidos.

Um exemplo simples ajuda a visualizar essa questão. Imagine uma pessoa que precisa apresentar um trabalho diante de uma turma. Antes da apresentação, sente taquicardia, tensão muscular, preocupação e medo de ser avaliada negativamente. Diante disso, decide não comparecer. No momento em que percebe que não precisará enfrentar a situação, sente alívio. O alívio é importante para compreender o que aconteceu. A fuga produziu uma consequência imediata que reduziu uma condição aversiva. Se situações semelhantes ocorrerem novamente e a pessoa continuar evitando apresentações, a esquiva poderá tornar-se cada vez mais provável.

O problema é que o comportamento que produz alívio imediato pode produzir dificuldades posteriormente. A pessoa deixa de descobrir que poderia realizar a apresentação, talvez aprender a lidar com o desconforto e até obter consequências positivas. A curto prazo, evitar funciona. A longo prazo, porém, a própria esquiva pode contribuir para a manutenção do medo e para a redução das oportunidades de contato com situações importantes da vida.

Esse raciocínio também ajuda a compreender comportamentos mais discretos. Uma pessoa pode evitar conversar sobre determinados assuntos, deixar de frequentar lugares, cancelar compromissos, procurar repetidamente garantias de que tudo ficará bem, consultar excessivamente outras pessoas ou abandonar atividades diante do primeiro sinal de desconforto. Cada comportamento precisa ser analisado em seu contexto. Não existe uma resposta que seja “ansiosa” por natureza. Seu significado funcional depende das relações estabelecidas com o ambiente.

Matos (1999) ressalta a importância da análise funcional para compreender o comportamento em suas relações com o contexto. Hanley, Iwata e McCord (2003) também demonstraram a relevância da análise funcional para identificar variáveis relacionadas à ocorrência e à manutenção de comportamentos-problema. Embora grande parte dessa literatura esteja relacionada a outros comportamentos clinicamente relevantes, seu princípio é fundamental para a prática clínica: não basta identificar o comportamento; é necessário investigar sua função.

Essa forma de análise muda também a intervenção. Se a esquiva contribui para a manutenção do problema, simplesmente dizer ao paciente para “não pensar nisso” ou “ficar tranquilo” pouco acrescenta. O objetivo passa a ser construir novas relações com as situações anteriormente evitadas. Isso pode envolver exposição planejada, redução gradual de respostas de esquiva, fortalecimento de repertórios alternativos e ampliação das atividades que produzem consequências reforçadoras.

A exposição, nesse contexto, não deve ser compreendida como uma técnica aplicada mecanicamente. É necessário considerar a história individual, as características da situação, os repertórios disponíveis e as consequências envolvidas. O trabalho clínico consiste em produzir condições para que o indivíduo entre em contato com situações relevantes sem depender exclusivamente da fuga ou da esquiva para lidar com o desconforto.

Resultados recentes também mostram a importância das intervenções comportamentais para transtornos de ansiedade. Berg et al. (2023), em um ensaio clínico randomizado com adultos com transtorno de ansiedade generalizada, investigaram intervenções envolvendo ativação comportamental e terapia baseada em exposição. Esses dados reforçam a relevância de procedimentos que aumentam o contato com situações e atividades significativas, em vez de organizar toda a vida do indivíduo em torno da redução imediata do desconforto.

É nesse ponto que a análise funcional se aproxima da vida cotidiana. Uma pessoa pode afirmar que quer voltar a sair de casa, encontrar amigos, estudar, trabalhar, viajar ou estabelecer relacionamentos, mas continuar organizando seu comportamento para evitar qualquer situação que produza ansiedade. Nesse caso, a pergunta clínica não deveria ser apenas “como eliminar a ansiedade? ”, mas também o que a pessoa deixou de fazer para não sentir ansiedade? ”.

Essa mudança de pergunta é pequena, mas suas consequências podem ser grandes. O objetivo da terapia não precisa ser produzir uma vida completamente livre de ansiedade. Em muitos momentos da vida, sentimentos desagradáveis fazem parte do contato com situações novas, importantes ou difíceis. O objetivo pode ser ampliar a capacidade de agir de acordo com contingências relevantes, mesmo quando eventos privados desagradáveis estão presentes.

Baum (2017) destaca que o comportamento deve ser compreendido em relação ao ambiente e à história de seleção. Skinner (1981), ao discutir a seleção por consequências, oferece uma base importante para compreender por que determinados padrões comportamentais permanecem ao longo do tempo. Na clínica, isso significa observar não apenas o que o indivíduo faz, mas também quais consequências tornam provável que continue fazendo.

Essa perspectiva é particularmente importante porque alguns comportamentos podem ser reforçados sem que produzam resultados favoráveis a longo prazo. Evitar uma apresentação pode reduzir a ansiedade naquele momento. Não entrar em um elevador pode produzir alívio. Cancelar um encontro pode diminuir a tensão. Pedir repetidamente confirmação de que “está tudo bem” pode reduzir temporariamente a incerteza. Em todos esses casos, a consequência imediata pode aumentar a probabilidade de que o comportamento volte a ocorrer em circunstâncias semelhantes.

O trabalho clínico, portanto, não consiste simplesmente em retirar comportamentos, mas em construir alternativas. É necessário fortalecer repertórios que permitam ao indivíduo aproximar-se das situações, permanecer nelas por períodos progressivamente maiores, discriminar diferentes condições ambientais e produzir novas consequências. A análise funcional oferece justamente esse caminho: compreender o comportamento para intervir sobre as relações que o mantêm.

Minha experiência com a prática clínica também me ensinou que compreender o comportamento dessa maneira modifica a própria relação terapêutica. O paciente deixa de ser visto como alguém que “não consegue controlar a ansiedade” e passa a ser compreendido como alguém que desenvolveu determinadas formas de responder às condições de sua história. Isso não elimina sua responsabilidade pelas escolhas atuais, mas permite uma compreensão menos moralizante e mais funcional do problema.

Nesse sentidoa Análise do Comportamento não precisa competir com outras formas de psicoterapia para demonstrar sua utilidade. Seu diferencial está na possibilidade de investigar funcionalmente aquilo que ocorre na vida do indivíduo e transformar essa investigação em intervenção. Procedimentos comportamentais podem dialogar com diferentes recursos clínicos, desde que suas funções e fundamentos sejam claramente compreendidos.

A ansiedade, portanto, não precisa ser tratada apenas como um inimigo que deve desaparecer. Pode ser compreendida como parte de uma relação comportamental mais ampla. Quando a pessoa aprende que fugir ou evitar é a única maneira de obter alívio, sua vida pode progressivamente ficar menor. Quando novas formas de responder são construídas e reforçadas, novas possibilidades de contato com o mundo podem surgir.

É essa passagem que considero central na prática clínica: sair da pergunta sobre como fazer a ansiedade desaparecer e investigar como ajudar a pessoa a viver de maneira mais ampla, mesmo quando a ansiedade aparece. A análise funcional não promete uma vida sem desconforto. Ela oferece algo mais concreto: compreender as contingências que participam da manutenção do comportamento e criar condições para que novos repertórios possam ser aprendidos e fortalecidos.

Referências

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Escrito por adrianonicolau

Adriano Nicolau da Silva (CRP: 11855) é psicólogo, psicoterapeuta, professor e pesquisador, com atuação desde a década de 1990. Na psicoterapia, atua clinicamente desde 1993 com base no Behaviorismo Radical e na Análise do Comportamento, acumulando experiência e publicações em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental focadas em ansiedade, depressão e pânico. Como professor, possui trajetória no ensino superior, laboratório de Psicologia Experimental do Comportamento e atuado como supervisor clínico, professor e integra o Núcleo de Apoio Psicopedagógico. Sua formação educacional e clínica reúne formações em Psicologia, Filosofia e Pedagogia, além de especializações voltadas à análise do comportamento, neuropsicologia e educação.
CRP: 11855 - Psicoterapeuta no atendimento adulto - adrins@terra.com.br
Lattes: 5871570596934799
ORCID: 0009-0004-9721-3965
Nome para citações: SILVA, A. N.

Comportamento na era Algorítmica Quântica