Pragmatismo e Pragmática

Para compreender satisfatoriamente a filosofia behaviorista radical, é importante distinguir entre:

  1. o pragmatismo como teoria da verdade e
  2. a pragmática como compreensão da linguagem como ação.

Essas duas ideias se relacionam intimamente no Behaviorismo Radical, mas é importante distingui-las. No texto anterior, expus de maneira sucinta a teoria da verdade pragmatista e procurei apontar alguns problemas a ela inerentes. Agora, pretendo apresentar a pragmática da linguagem como uma concepção independente, que pode ou não ser atrelada àquela teoria da verdade. Uma forma didática de perceber a distinção entre essas concepções é analisar comparativamente um conjunto de autores e observar como seus pensamentos se assemelham e se distanciam ao abordar essas diferentes questões.

Recentemente, faleceu um nome importante para esta discussão: Jünger Habermas, um dos mais proeminentes pensadores contemporâneos. Essa notícia me trouxe à mente inúmeras recordações dos tempos do mestrado, em que tive o privilégio de estudar com Manfredo Oliveira, um dos maiores conhecedores da obra do filósofo alemão. Em suas aulas, o egrégio professor frequentemente relatava diálogos, ouvidos em primeira mão, entre Habermas e outros filósofos célebres, como Richard Rorty, o principal nome do neopragmatismo.

A teoria da verdade de Rorty aproxima-se significativamente da behaviorista radical, pois ambos procuram substituir a concepção de verdade tradicional, baseada na ideia de representação, pela compreensão da verdade como utilidade dos enunciados, condicionada a finalidades específicas (Rocha & Dittrich, 2021; Tourinho, 1996). Habermas, por sua vez, era um ferrenho crítico desse modo de caracterizar o conceito de verdade, apesar de tampouco aderir de forma ingênua à ideia de representação. Reduzir a validade de um enunciado à sua eficácia prática ou ao êxito em atingir objetivos específicos, segundo Habermas, mergulha a filosofia em um relativismo perigoso. Nesse cenário, o “verdadeiro” reduz-se àquilo que é conveniente ou reforçado por uma comunidade verbal específica. Contra essa fragmentação, Habermas insistia que o conceito de verdade exige uma dimensão de validade que transcende contextos locais; ou seja, um critério que não se submete à utilidade do momento, mas que busca apoio em uma fundamentação racional capaz de ser reconhecida universalmente.

É importante ressaltar que, até aqui, comparamos esses três autores apenas quanto à primeira concepção, a teoria da verdade, mas nada dissemos sobre a segunda, a pragmática da linguagem. Em relação a esse segundo aspecto existem similaridades consideráveis entre todos eles. Habermas, assim como Rorty, foi profundamente influenciado pelo Wittgenstein tardio e pela teoria dos atos de fala de Austin e Searle, que defendiam que só é possível compreender a linguagem atentando às ações desempenhadas por seus usuários.

É na própria pragmática da linguagem que Habermas encontra o que procurava; para ele, a própria ação de falar com alguém já traz regras embutidas que nos obrigam a buscar o entendimento. Assim, a universalidade que Habermas defende não vem de uma verdade absoluta e transcendente, mas das próprias regras do jogo da conversa. Ao falar de forma significativa, já aceitamos, sem perceber, o compromisso de sermos verdadeiros e coerentes. Assim, para Habermas, o universal está escondido no cotidiano da nossa fala e não em algum plano abstrato e exterior à linguagem.

Habermas sempre foi particularmente sensível à dimensão prática e histórica dos usos da linguagem, recusando a ideia de que palavras possam ser compreendidas de forma neutra, como meros rótulos desprovidos de implicações normativas. Essa sensibilidade aparece de forma vívida em um episódio que ocorreu durante sua visita ao Brasil:

“Habermas foi levado por um grupo de professores para almoçar no restaurante Senzala (no início dos anos 1990, se não me engano) e enquanto se faziam os pedidos, perguntou a um dos presentes o que significava a palavra “senzala”. Ao ser informado de que a senzala era o lugar de dormida dos africanos escravizados no Brasil, pediu a todos para ir embora. Dizem que não estava bravo, nem irritado, mas que, com autoridade paroquial, perguntou aos colegas se gostariam de ser levados a almoçar, na Alemanha, em um restaurante chamado Auschwitz. A cena foi constrangedora, dizem. Mas ele se manteve firme” (Leite, 2026).

Esse causo evidencia como, para Habermas, compreender a linguagem exige ir além de seus significados formais e considerar aquilo que fazemos ao falar. Os usos linguísticos estão inseparavelmente ligados a práticas sociais e a compromissos normativos que se atualizam em cada situação concreta. Nomear um restaurante dessa forma, portanto, não é um gesto neutro: é uma ação que mobiliza sentidos historicamente sedimentados e que, por isso, pode — e deve — ser objeto de crítica. A linguagem, nesse sentido, não se limita a descrever o mundo, mas constitui uma forma de agir nele.

Podemos dizer, então, que apesar de Skinner e Rorty adotarem teorias da verdade (pragmatismo) nitidamente destoantes da adotada por Habermas, é possível encontrar, na valorização dos aspectos pragmáticos da linguagem, um importante ponto de convergência entre eles. Isso endossa minha afirmação inicial de que o pragmatismo enquanto teoria da verdade e a pragmática da linguagem são concepções independentes, apesar de se relacionarem de forma complexa.

Feita a distinção entre essas duas concepções, é pertinente perguntar:

  • Qual delas seria mais fundamental para o Behaviorismo Radical?

Uma rápida — e pouco rigorosa — maneira de responder a essa questão é proceder a um exercício de imaginação. Seria possível conceber a teoria behaviorista radical sem o critério de verdade pragmatista? Para mim, pelo menos, é relativamente fácil conceber a maior parte da teorização de Skinner articulada a outro modo de caracterizar a noção de verdade. No lugar da ideia de verdade como efetividade, por exemplo, poderia figurar uma compreensão performativa e deflacionista da verdade, como a proposta por P. F. Strawson (1949). Nessa perspectiva, dizer que algo é “verdadeiro” não consiste em atribuir a esse enunciado uma propriedade especial, tampouco em descrever sua utilidade, mas em realizar um ato de concordância ou endosso — algo próximo de dizer “estou de acordo” ou “é assim mesmo”. Seria possível adotar essa concepção deflacionista e, sem qualquer prejuízo, continuar interpretando comportamentos públicos e privados de forma contextualista, através do uso de conceitos analítico-comportamentais, como reforço, punição, esquemas de reforçamento e outros. Sob esse prisma, a teoria da verdade pragmatista pode ser vista como uma entre outras possibilidades conceituais disponíveis, sem comprometer o núcleo teórico do Behaviorismo Radical.

No caso da compreensão pragmática da linguagem, entretanto, a situação é diferente. Quando tentamos imaginar uma teoria que não adote essa concepção, imaginamos algo distinto, não o Behaviorismo Radical. Isso ocorre porque a ênfase nas relações entre as ações dos sujeitos e os contextos em que ocorrem, típica da análise pragmática, não constitui um aspecto periférico, mas um traço essencial da própria teoria. Abandonar essa perspectiva implicaria descaracterizar profundamente o modo como o Behaviorismo Radical compreende seu objeto de estudo.

Se essa análise estiver correta, a distinção proposta ao longo do texto ganha um peso adicional: embora pragmatismo e pragmática possam aparecer historicamente entrelaçados, é a segunda que parece desempenhar um papel mais fundamental no Behaviorismo Radical. A teoria da verdade pode variar; a ênfase na relação entre ação e contexto, não.

O uso indiscriminado do rótulo “pragmático” pode ser fonte de equívocos, ao sugerir uma unidade conceitual onde há, na verdade, diferentes campos de discussão. Distinguir esses níveis não apenas evita confusões terminológicas, mas também permite uma compreensão mais precisa das bases filosóficas do Behaviorismo Radical.

Referências

Habermas, J. (2012). Teoria do agir comunicativo: Sobre a crítica da razão funcionalista. WMF Martins Fontes.

Leite, J.G.P. (2026, 14 de março). Por que Habermas morre ‘em baixa’. Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/opiniao/por-que-habermas-morre-em-baixa/

Rocha, C. A. A., & Dittrich, A (2021). Afinidades e divergências epistemológicas, éticas e políticas entre R. Rorty e BF Skinner. Revista Brasileira de Análise do Comportamento17(2).

Rorty, R. (1980) Philosophy and the mirror of nature. 3 ed. New Jersey: Princeton University Press.

Strawson, P. F. Truth. Analysis, vol. 9, n. 6, p. 83-97, 1949. Tourinho, E. Z. (1996). Behaviorismo radical, representacionismo e pragmatismo. Temas em Psicologia4(2), 41-56.

0 0 votes
Classificação do artigo
Thiago Magalhães

Escrito por Tiago Magalhaes

Tiago Magalhães é psicólogo (CRP 11/06798), especialista em Terapia de Aceitação e Compromisso pelo Ceconte, mestre doutor em filosofia (UFC), diretor de Gente e Gestão na Moldsoft Tecnologia e professor da Uniguaçu. Atua e pesquisa em criatividade, percepção, psicologia organizacional, filosofia da ação, contextualismo funcional e inteligência artificial.

O Declínio das Habilidades Sociais nas Relações Humanas

Por que alguns clientes travam quando falamos de valores