O apito final: Aceitação Radical na eliminação da seleção

A Seleção acabou de ser eliminada da Copa do Mundo. O apito final soou, o placar não vai mudar, e o país inteiro sente, ao mesmo tempo e de formas distintas, uma mistura de decepção, raiva e luto. Não há nada de patológico nisso: é a resposta esperada diante de uma perda coletiva e simbólica, à qual investimos meses de expectativa e identificação.

A cultura de torcer pela seleção nacional durante a Copa do Mundo é um dos maiores exemplos da força e da função das nossas emoções operando em escala global. Na psicologia contextual, entendemos que as emoções não são processos passivos; elas evoluíram para nos motivar, preparar o nosso organismo para agir rapidamente diante de obstáculos e comunicar nosso estado aos outros. No esporte, o fervor dos torcedores se converte em uma energia vibrante de apoio que é captada até mesmo pelos atletas, impulsionando a motivação e a ação física no campo.

Contudo, quando o apito final decreta a eliminação do país, essa gigantesca ativação emocional colide abruptamente com uma realidade dolorosa e frustrante.

Tristeza e raiva: para que servem

As duas emoções que dominam a noite têm motivações distintas. A tristeza surge quando perdemos algo de forma irreparável, quando as coisas não aconteceram como esperávamos; é ela que nos convida a desacelerar e elaborar a perda. Já a raiva aparece quando uma meta importante é bloqueada ou quando sentimos que o status do nosso grupo foi ameaçado ou ofendido, daí o impulso imediato de culpar o árbitro, o técnico ou um jogador específico. Ambas preparam o corpo para agir, mas o problema é que não há mais ação possível sobre o jogo que terminou; a energia mobilizada precisa de outro destino.

A equação: Sofrimento = Dor + Não aceitação

A eliminação em si é dor. O sofrimento é a camada que se acrescenta quando nos recusamos a aceitar o que já aconteceu: na ruminação sobre o lance que mudou tudo, na hostilidade prolongada contra quem consideramos culpado. Neste momento, é essa recusa (não a derrota em si) que decide se a noite vira tristeza passageira ou amargura prolongada. A verdade é que nem na copa, nem na vida, ganhamos sempre todas as partidas.

Aceitar não é aprovar

Aceitar radicalmente a eliminação não significa concordar com a arbitragem, gostar do resultado ou parar de amar a seleção. É como receber uma mão ruim numa partida de cartas: pode-se achar injusto e ainda assim jogar as cartas que restaram. Aceitar é reconhecer que o placar nasceu de uma cadeia de causas que já se consolidou. A aceitação radical é a abertura completa e total aos fatos e à realidade exatamente como eles são, envolvendo a mente, o coração e o corpo, sem lutar contra o momento presente, julgá-lo ou tentar modificá-lo.

O que fazer nas próximas horas

Redirecionar a mente: perceber o instante em que o pensamento vira “isso não pode ter acontecido” ou “não é justo”, e comprometer-se, repetidamente, a voltar à aceitação (que, repito, não é aprovação ou gostar) do fato consumado.

Envolver o corpo: meio sorriso e mãos dispostas, com as palmas relaxadas para cima, sinalizando ao sistema nervoso abertura em vez de combate, mesmo em meio à fúria.

Observar a emoção como onda: em vez de suprimir a tristeza ou amplificá-la com ruminação, deixá-la surgir e passar como uma onda no mar, permitindo o luto pela perda de um sonho coletivo sem pressa de resolvê-lo agora.

Respiração compassada e distração também podem ajudar, caso a emoção fique intensa demais a ponto de poder nos impulsionar a fazer algo que possa piorar as coisas, como quebrar o aparelho televisor ou faltar o trabalho.

Nenhum desses movimentos apaga a eliminação, nem deveria. O que eles oferecem é a possibilidade de atravessar esta derrota sem transformar uma dor real em um sofrimento evitável e prolongado, e de voltar a torcer, na próxima partida ou na próxima Copa, com o coração inteiro (se isso for valoroso pra você). Se possível refletir, o que podemos aprender com essa derrota? Como fazer limonada deste limão?

O luto pela perda de um sonho coletivo é válido e humano. Cada brasileiro(a)(e) hoje tem algo em comum: estamos processando o resultado indesejado. Juntos. No fim das contas, a Aceitação Radical nos resgata do esgotamento emocional porque nos ensina que, mesmo diante de decepções e da perda de um campeonato muito aguardado, a realidade segue seu curso e a vida continua valendo a pena ser vivida.

Referências Bibliográficas

Linehan, M. M. (1993). Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. New York: Guilford Press.

Linehan, M. M. (2018). Treinamento de habilidades em DBT: manual de terapia comportamental dialética para o paciente (2ª ed.) (D. Bueno, Trad.). Porto Alegre: Artmed.

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Escrito por Andressa Quednau

Psicóloga clínica graduada pela Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Possui formação Btech em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e atuação como treinadora de habilidades DBT e líder do programa Family Connections.
Realizou treinamentos internacionais de referência na área de trauma e regulação emocional: DBT-PE com Melanie Harned (PhD), DBT-PTSD com Martin Bohus (MD, PhD), TCC para Comportamento Suicida (TCC-B) com Craig Bryan (PsyD) e Justin Baker (PhD), Terapia de Processamento Cognitivo (CPT) com Kathleen Chard (PhD) e Emotion Efficacy Therapy (EET) com Aprilia West. Possui formação em EMDR, formação em terapia de casal e capacitações especializadas no atendimento a mulheres e a adultos com TDAH e TEA.
Atua como supervisora clínica e mentora de psicólogos em formação e em prática clínica.
Sua atuação é voltada ao cuidado de pessoas sensíveis e de alta intensidade emocional, com histórias de sofrimento complexo ou vínculos desafiadores, integrando rigor científico e escuta clínica aprofundada na construção de uma vida emocionalmente sustentável.

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