A relação terapêutica como um eixo central no manejo do Transtorno Bipolar

O manejo clínico do Transtorno Bipolar impõe desafios que, frequentemente, envolvem oscilações de humor, impulsividade e baixa percepção de doença em episódios de mania ou hipomania. Tais variáveis tensionam a aliança terapêutica, tornando a adesão ao tratamento um fenômeno eminentemente relacional e comportamental [5].

Para investigar as competências que sustentam esse processo, realizei entrevistas com terapeutas comportamentais. Os achados revelam que nenhuma habilidade produz efeitos consistentes sem a capacidade do terapeuta de estabelecer uma relação sólida e sensível às particularidades do paciente [6]. Abaixo, discuto como a relação terapêutica atua como base para as demais intervenções.

1. A relação como ambiente de segurança (audiência não punitiva)

Técnicas de validação e manejo de crise perdem potência quando utilizadas de maneira descontextualizada. Antes de delinear o manejo prático no Transtorno Bipolar, é fundamental estabelecer o conceito de audiência não punitiva: trata-se de uma interação na qual o comportamento do indivíduo é analisado sem julgamentos, censuras ou a apresentação de consequências aversivas [7].

Dito isso, no Transtorno Bipolar, a relação deve se consolidar como tal ambiente seguro. Quando o paciente discrimina o terapeuta como uma audiência não punitiva, a probabilidade de relatos honestos sobre ideação suicida ou comportamentos impulsivos aumenta significativamente  [2]. Ao eliminar o caráter punitivo da interação, o clínico enfraquece as respostas de vergonha e ansiedade, abrindo espaço para a vulnerabilidade e para a expressão livre de conteúdos clinicamente relevantes.

Por exemplo, após um episódio de mania ou hipomania, o paciente pode relatar gastos excessivos ou comportamentos de risco carregados de forte autocrítica e vergonha. Se o terapeuta valida a experiência emocional (“entendo como aquela sensação de poder fez com que essas decisões parecessem certas naquela hora”) antes de analisar as consequências funcionais dos atos, ele mantém o canal aberto para a intervenção, em vez de gerar uma resposta defensiva de esquiva ou omissão de dados.


2. Psicoeducação e o significado da medicação

A adesão medicamentosa não é apenas informativa, mas também funcional. Muitos pacientes relutam em tratar episódios de mania ou hipomania por recearem perder a produtividade. Neste caso, a habilidade do terapeuta é entender o significado que o paciente atribui à medicação [4].

Ao usar analogias, como a de que a medicação é como um “par de óculos” que permite enxergar o mundo com mais clareza e nitidez, o psicoterapeuta integra a visão do paciente ao manejo, em vez de impô-lo.

3. A relação como laboratório clínico (FAP)

Sob a ótica da Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), a sessão terapêutica é um espelho da vida cotidiana do paciente [3]. As interações ao vivo e a cores servem como um laboratório para identificar e modelar os chamados Comportamentos Clinicamente Relevantes (CRBs), categorizados em três instâncias fundamentais:

  • CRB1 (Problemas em sessão): São as esquivas, déficits e padrões disfuncionais que o paciente manifesta na própria relação com o terapeuta e que reproduzem suas dificuldades externas. No Transtorno Bipolar, rupturas no vínculo (como faltas frequentes sem justificativa, desmarcações em momentos de crise, isolamento ou ataques verbais à figura do terapeuta) configuram CRB1s que precisam ser manejados com contingências de reforçamento diferenciadas. 
  • CRB2 (Melhoras em sessão): Representam os comportamentos de progresso emitidos diretamente no ambiente terapêutico. 
  • CRB3 (Interpretações sobre o comportamento): Envolvem a capacidade do paciente de observar, descrever e analisar funcionalmente as variáveis que controlam suas próprias ações

Considerando essa dinâmica, o estabelecimento de limites deve ocorrer sem rigidez. Retomar o contrato terapêutico quando há atrasos constantes ou oscilações graves no cumprimento do combinado, por exemplo, auxilia na previsibilidade do processo e permite observar, manejar e generalizar esses CRBs para as relações também fora da sessão.

4. O impacto no terapeuta e o reconhecimento de limites

Da parte do terapeuta, o manejo do Transtorno Bipolar exige um alto nível de monitoramento clínico. Devido à complexidade e imprevisibilidade das crises, é comum que o profissional enfrente desafios emocionais em sua prática [1]. Por isso, discriminar a função das próprias respostas em sessão é uma habilidade fundamental.

O terapeuta pode, por exemplo, adotar uma postura “salvadora”. Isso ocorre quando ele emite comportamentos hiperdiretivos e estabelece regras rígidas na tentativa de controlar os riscos, agindo sob o controle da sua própria ansiedade. Por outro lado, a resposta pode ser defensiva, caracterizada por um distanciamento ou pela aplicação mecânica de técnicas. Essa topografia funciona como uma esquiva do profissional diante das dificuldades do processo terapêutico.

Buscar supervisão garante que o psicólogo analise funcionalmente suas reações. Assim, ele assegura o manejo ético do caso, mantendo-se como uma base estável e acolhedora para o paciente em qualquer momento do tratamento.

Considerações Finais

O sucesso clínico no manejo do Transtorno Bipolar não depende de uma única variável, mas os relatos dos terapeutas entrevistados deixam claro que a relação terapêutica é um eixo indispensável para o tratamento, permitindo ao paciente a segurança necessária para discriminar suas oscilações e aderir ao manejo de longo prazo.

Referências Bibliográficas

[1] BANACO, R. A. A relação terapêutica. In: BANACO, R. A. (Org.). Sobre comportamento e cognição. Santo André: ESETec, 1993. p. 170-182.

[2] KNAPP, P.; ISOLAN, L. Abordagens psicoterápicas no transtorno bipolar. Revista de Psiquiatria Clínica, v. 32, supl. 1, p. 98-104, 2005.

[3] KOHLENBERG, R. J.; TSAI, M.; HOLMAN, G.; LOUDON, J. Aperfeiçoando a Psicoterapia Analítica Funcional (FAP). Porto Alegre: Artmed, 2022.

[4] MIKLOWITZ, D. J. O transtorno bipolar: guia para pacientes e familiares. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

[5] MORAES, A. B. A.; ROLIM, G. S.; COSTA JÚNIOR, A. L. O processo de adesão numa perspectiva analítico-comportamental. RBTCC, v. 11, n. 2, p. 329-345, 2009.

[6] PIRES, Camila de Oliveira. Habilidades terapêuticas necessárias ao tratamento de pacientes com transtorno bipolar e transtorno de personalidade borderline. 2018. 146 f. TCC (Graduação em Psicologia) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2018.

[7] SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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Escrito por camilapires

Camila de Oliveira Pires é psicóloga (CRP 06/150047), com licenciatura pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais e Contextuais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Neurologia Clínica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e em Psicologia Baseada em Evidências. Atua em consultório particular, dedicando-se ao acompanhamento de adultos e ao desenvolvimento de intervenções fundamentadas em evidências científicas. Também atua como supervisora clínica e produtora de conteúdo em Psicologia baseada em evidências.
Contato: @psi.camilapires

Sobre o livro “Eu não nasci mãe”, de Lua Barros