Sobre o livro “Eu não nasci mãe”, de Lua Barros

A maior parte dos livros sobre parentalidade parte de um mesmo ponto de partida: a criança e aquilo que ela faz, pensa e sente. O livro Eu não nasci mãe, de Lua Barros, muda a perspectiva ao se voltar para os pais, compreendendo que não existe um “lidar com a criança” sem, ao mesmo tempo, um “lidar consigo”. Para a autora, filhos são espelhos; não por serem simplesmente reflexos, mas por revelarem quem nós somos.

Para a Análise do Comportamento, essa noção não é apenas uma boa metáfora. O repertório com que um organismo opera sobre seu ambiente é construído ao longo de sua história ontogenética, modelado pelas contingências das relações mais precoces e continuamente suscetível a novas aprendizagens. Skinner (1953) apontou que o comportamento social é adquirido e mantido pelas consequências que a comunidade verbal provê, e a família é a primeira e mais influente dessas comunidades. As formas como um adulto responde à criança também foram modeladas pelas pessoas que responderam ao seu choro, estabeleceram limites e validaram ou puniram aquilo que sentia. Quando um adulto reage com impaciência diante de uma criança, o que se observa não é apenas uma resposta à situação presente, mas a resultante de uma história de contingências que, frequentemente, não é discriminada.

Por esse motivo, examinar a origem, a história e a função de nossos repertórios é condição necessária para que a parentalidade seja um contexto de contato do adulto com o próprio comportamento. Esse contato, contudo, não é neutro; ao discriminar padrões, especialmente aqueles que produzem sofrimento, o adulto se depara com as falhas, as faltas, os seus sentimentos de inadequação. É na disposição de sustentar esse contato que se dão as possibilidades de variabilidade e mudança.

A disposição para contatar estímulos aversivos é crítica quando diz respeito aos nossos erros. E aqui cabe a distinção entre culpa e responsabilidade feita por Lua Barros. A culpa é ruidosa e aponta para o erro; a responsabilidade, mais silenciosa, é orientada para a solução. Do ponto de vista comportamental, essa distinção tem implicações importantes: a culpa tende a se organizar como respostas de esquiva: evita-se o conflito, justifica-se o erro, vitimiza-se; a responsabilidade, por sua vez, é a discriminação do próprio comportamento e de suas consequências, o que torna a reparação possível. A culpa paralisa, favorecendo a fusão cognitiva e a esquiva comportamental e experiencial; a responsabilidade mobiliza, requerendo aceitação e orientação para a ação.

O mesmo padrão – esquiva ou contato com as contingências de que o comportamento é função – direciona o adulto ao estabelecer limites. Lua Barros observa que o limite pode ser percebido como uma ameaça por confrontar desejos de expansão e autonomia. Na criança, isso aparece de forma explícita, pelo choro, pelo grito e pela oposição. No adulto, aparece de forma mais sofisticada, pela ironia, pelo silêncio e pelo afastamento, o que a autora descreve como uma espécie de “birra adulta”. Funcionalmente, trata-se também de contra-controle. De fato, limites associados a punições, como ignorar, rejeitar ou isolar a criança, estão a serviço de interromper comportamento, não de informar sobre contingências e, por isso, evocam respostas de esquiva ou contra-controle. Estabelecer limites é sinalizar contingências de forma objetiva e previsível, e não suprimir comportamentos pela força ou pelo medo. A literatura sobre práticas parentais na Análise do Comportamento é consistente nesse ponto: pais que experienciaram contingências punitivas e pouco responsivas em sua própria criação tendem a reproduzi-las, ou a oscilar para o extremo oposto na tentativa de reparar o que viveram (Bolsoni-Silva & Marturano, 2002). Em ambos os casos, o que está em questão é um repertório empobrecido de habilidades sociais educativas: dificuldade de expressar sentimentos, de estabelecer limites com objetividade, de responder de forma contingente às necessidades da criança. A falta desse repertório pode levar à evitação, quando o adulto cede para interromper o próprio incômodo, ou à imposição, quando responde sob controle da irritação ou da exaustão.

Assim como os analistas do comportamento, Lua Barros propõe mudar as perguntas para entender o comportamento das crianças. Em vez de “o que fazer quando meu filho está mordendo?”, perguntar-se “por que ele está mordendo?”, substituindo uma descrição topográfica pela busca de relações funcionais que inclui os pais na interação, sustentando o contato com a experiência e ampliando as possibilidades de ação.

Eu não nasci mãe é uma obra que se centra no relacionamento parental como contexto de desenvolvimento, tanto da criança quanto do adulto. A relação de parentalidade não é um meio para a mudança, mas a própria experiência de mudança. O adulto que se dispõe a examinar seu próprio repertório – suas histórias de reforçamento, suas esquivas – encontra na parentalidade não apenas um desafio, mas uma oportunidade genuína de transformação.

Barros, L. (2023). Eu não nasci mãe. Editora Planeta.
Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan.
Bolsoni-Silva, A. T. & Marturano, E. M. (2002). Práticas educativas e problemas de comportamento: Uma análise à luz das habilidades sociais. Estudos de Psicologia (Natal), 7, 227-235.

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Escrito por Francine Fernandes

Formada em Psicologia pela UFSCar e especialista em Clínica Analítico-Comportamental, atua como psicoterapeuta e supervisora clínica.

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