Cara(o) psi, não caia na falácia de que somente a abordagem é o suficiente na clínica.
Você já alguma vez pensou aí algo como: “Mas que desnecessário eu estar aqui numa aula de Psicologia Social! Eu quero clínica, do que me adianta isso? Tô perdendo tempo!”? Tente não focar no conteúdo em si — até porque podem ter sido ou serem variações disso —, mas talvez variações que carreguem um fator comum: o de não ver sentido em estar estudando algo que não seja sobre clínica? Ou sobre a abordagem que você quer, talvez?
Se você respondeu sim, sinto lhe informar que você pode ter caído na falácia. Isso porque, ao estudar Psicologia Social, Psicologia do Desenvolvimento e outras áreas da Psicologia, você está estudando clínica. Vou além: ao estudar campos como História, Sociologia, Ciências Sociais e outros campos de saber, você também está… adivinha: estudando Psicologia Clínica.
E sabe por quê? Porque, ao atendermos uma pessoa, estamos lidando, por exemplo, com um indivíduo em desenvolvimento, que está inserido em um contexto social, que faz parte de uma comunidade, que trabalha em uma instituição, dentro de um dado momento sócio-histórico. Para uma ampla compreensão desses e de outros fatores, precisaremos, sim, recorrer não só a diferentes campos dentro da Psicologia, como a outras áreas.
Vamos a um exemplo prático disso a partir de um caso fictício?
Uma paciente busca a clínica com um quadro grave de ansiedade, hipervigilância, isolamento e baixa autoestima. Relata que “tudo na sua vida dá errado por falha sua” e que tem sido “muito instável e reativa” em casa. O parceiro frequentemente a acusa de ser “louca”, desvaloriza seu trabalho e controla suas finanças sob a justificativa de “cuidar do orçamento do casal”. Camila chega à sessão querendo entender o que há de errado com ela própria e como pode “mudar seu comportamento para parar de arrumar confusão no relacionamento”
Esse é um exemplo claro de como uma prática clínica que se limita à relação terapêutica, ao funcionamento individual da paciente e aos componentes intrapsíquicos corre o risco ético gravíssimo de revitimização e culpabilização — tratando a ansiedade e a culpa sem reconhecer a espiral de violência psicológica e o controle coercitivo nos quais ela está imersa.
Sem o suporte da Psicologia Social, do Direito e da perspectiva de gênero, por exemplo, uma clínica focada exclusivamente em “técnicas de abordagem” poderia inadvertidamente orientar a paciente a “treinar comunicação assertiva com o agressor” — uma conduta que pode ser extremamente inadequada ao aumentar o risco de escalonamento da violência, resultando em um episódio de violência física, por exemplo.
Assim como, em um caso como esse, não dialogar com a legislação (como a Lei Maria da Penha) e com a rede intersetorial, socioassistencial e jurídica — que abarca o Centro de Referência da Mulher, a Defensoria Pública, a OAB e outras frentes — pode fazer com que essa mulher tenha mais dificuldade em conseguir se proteger da violência patrimonial, aumentando o cenário de dependência financeira, um fator central na perpetuação da violência. Essa articulação, que é chamada de advocacy, só é viável ao conhecermos dispositivos ligados à rede intersetorial e socioassistencial, acessada por meio de disciplinas ligadas à Saúde Coletiva e Saúde Mental, nas quais o mapeamento de dispositivos como CRAS, CREAS e outros é ensinado.
Nesse cenário, ao invés de focar apenas no “gerenciamento da ansiedade”, a intervenção clínica auxilia a paciente a nomear as dinâmicas de violência e seus fatores individuais, relacionais, comunitários e societais. A ansiedade e a hipervigilância deixam de ser vistas como “desregulação individual” e passam a ser compreendidas como respostas adaptativas de sobrevivência a um ambiente de ameaça contínua. Tudo isso é visto dentro de um contexto maior que articula várias frentes e áreas do conhecimento, de dentro e de fora da Psicologia, auxiliando-a a ampliar repertório a partir de fontes que extrapolam a psicologia clínica — uma prática que, quando olhada apenas pela lente de uma única abordagem, por mais completa que se proponha a ser, sempre terá suas limitações.
Afinal, como poderia uma única abordagem dar conta dessas e de tantas outras dimensões que compõem o ser humano? Indo além: como poderia só um saber, a Psicologia, dar conta de algo tão multifatorial e multidirecional quanto o indivíduo? Esse ser que é composto por tantas partes que vêm de diversos campos do conhecimento, de dentro e de fora da nossa profissão.
Uma clínica que ignora outras frentes, como fatores sociais, históricos, comunitários e políticos — estudados em grande parte por áreas dentro da Psicologia, como a Psicologia Social e a Psicologia Comunitária, e por campos do saber como as Ciências Sociais, a História, Filosofia e afins —, é uma clínica que ignora a/o paciente, pois invisibiliza aspectos que são vivenciados cotidianamente por cada um de nós. É uma clínica que contribui para a produção e manutenção do sofrimento ao se alinhar a um discurso individualizante que não dialoga com os fatores contextuais nem os conecta aos fatores de adoecimento.
Reduzir a prática clínica a uma simples técnica ou abordagem teórica é ignorar tanto o Código de Ética da Psicologia quanto as Diretrizes importantes como as “Diretrizes Multiculturais da APA (2017)”. A Psicologia Clínica vai além de modelos conceituais: pauta-se no respeito à dignidade, liberdade e direitos humanos, voltado à promoção da saúde e à eliminação de todas as formas de opressão e violência. Além disso, requer compromisso social, análise crítica da realidade e aprimoramento contínuo para o desenvolvimento científico da profissão. O exercício ético da Psicologia exige também a universalização do acesso aos seus serviços e conhecimentos, o zelo pela dignidade da profissão e a leitura crítica das relações de poder presentes nos diferentes contextos de atuação
Além de incorporar diretrizes centrais da APA. Primeiramente, exige reconhecer a interseccionalidade e a fluidez, compreendendo que as identidades culturais são complexas, dinâmicas e moldadas por múltiplos contextos (Diretriz 1). Em segundo lugar, demanda uma postura crítica e autoconhecimento para identificar os próprios vieses, crenças e privilégios, evitando que o diagnóstico seja limitado a suposições simplistas (Diretriz 2). Além disso, envolve a ampliação da compreensão do contexto ao avaliar o impacto das forças sociais, históricas e políticas no bem-estar psicológico do indivíduo (Diretriz 4). Por fim, estabelece a necessidade de adaptação e abrangência prática, o que inclui o desenvolvimento de intervenções culturalmente relevantes (Diretriz 6) e a atuação com sensibilidade ética em pesquisas, diagnósticos e ensino, considerando o Modelo Ecológico em Camadas (Diretriz 9).
Em suma, a atuação ético-clínica exige autorreflexão contínua, compromisso com a justiça social e a desconstrução permanente de nossos próprios preconceitos (APA, 2017) e todos esses conhecimentos são obtidos nesse grande encontro de saberes, de diversos campos que fazem uma boa clínica.
Referências bibliográficas:
Conselho Federal de Psicologia. (2005). Código de ética profissional do psicólogo. https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf
American Psychological Association. (2017). Multicultural guidelines: An ecological approach to context, identity, and intersectionality. http://www.apa.org/about/policy/multicultural-guidelines.pdf
