COMPORTAMENTO SUICIDA: DA COMPREENSÃO FUNCIONAL AOS CAMINHOS TERAPÊUTICOS

COMPORTAMENTO SUICIDA: DA COMPREENSÃO FUNCIONAL AOS CAMINHOS TERAPÊUTICOS

Adriano Nicolau da Silva

O comportamento suicida constitui um fenômeno complexo, influenciado por diferentes condições biológicas, psicológicas, sociais e históricas. Sua compreensão exige considerar a singularidade da história de aprendizagem de cada pessoa e as relações estabelecidas entre seu comportamento e o ambiente. Na perspectiva da Análise do Comportamento, compreender uma crise suicida não significa apenas identificar sintomas ou atribuir o comportamento a uma categoria diagnóstica, mas investigar as contingências relacionadas à construção e à manutenção dos repertórios apresentados pelo indivíduo e as condições nas quais determinadas respostas passam a ocorrer com maior probabilidade.

Essa perspectiva permite compreender o sofrimento sem reduzi-lo a uma única explicação e, ao mesmo tempo, pensar em caminhos de intervenção que favoreçam a ampliação das alternativas comportamentais disponíveis. Skinner (1953, 1974) compreende o comportamento humano a partir da interação entre as histórias filogenética, ontogenética e cultural. O indivíduo desenvolve repertórios ao longo de uma história de interação com diferentes ambientes. Experiências de rejeição, perdas, fracassos, conflitos interpessoais, exposição prolongada a situações aversivas ou redução de oportunidades de reforçamento positivo podem adquirir diferentes funções ao longo dessa história. Entretanto, nenhuma dessas condições deve ser considerada, isoladamente, causa suficiente para o comportamento suicida. Sua relevância depende das relações funcionais estabelecidas em cada contexto.

A análise funcional constitui uma ferramenta fundamental para essa compreensão. Em vez de perguntar apenas “qual é o problema dessa pessoa? ”, a investigação comportamental procura compreender o que acontece antes e depois de determinada resposta, quais condições aumentam sua probabilidade e quais consequências podem contribuir para sua manutenção.

Considere-se, por exemplo, uma pessoa que, após sucessivos conflitos no trabalho e em casa, passa a evitar contatos sociais, abandona atividades que anteriormente lhe proporcionavam satisfação e permanece longos períodos isolada. O afastamento pode produzir redução do contato com situações aversivas, fortalecendo a esquiva por reforçamento negativo. Ao mesmo tempo, a redução das atividades e interações pode diminuir o acesso a consequências reforçadoras positivas, contribuindo para o estreitamento progressivo das alternativas comportamentais.

Um princípio fundamental é que a função não deve ser presumida a partir da forma do comportamento. Sidman (1989) destacou a importância das relações de coerção, especialmente quando punição e reforçamento negativo passam a organizar grande parte das interações do indivíduo com o ambiente. Em uma história marcada predominantemente pela tentativa de evitar consequências aversivas, comportamentos de fuga e esquiva podem tornar-se cada vez mais prováveis. Isso, contudo, não significa afirmar que o comportamento suicida tenha necessariamente função de fuga ou esquiva. A função precisa ser investigada em cada caso.

Essa distinção também é importante diante da ideação suicida. Pensamentos relacionados à morte são eventos privados e podem apresentar diferentes relações funcionais. Em determinadas circunstâncias, podem estar associados à tentativa de interromper uma experiência percebida como insuportável; em outras, podem relacionar-se à desesperança, à comunicação de sofrimento ou a diferentes processos que precisam ser investigados clinicamente. A análise comportamental, portanto, não deve presumir a função a partir da forma do comportamento.

A linguagem exerce papel importante nesse processo. Para Skinner (1957), o comportamento verbal é estabelecido e mantido pelas práticas da comunidade verbal. Expressões como “não consigo”, “nada vai mudar” ou “não existe outra saída” podem fazer parte de repertórios verbais que restringem a percepção de alternativas comportamentais. Isso não significa que tais pensamentos sejam causas internas do comportamento, mas que eventos privados e comportamento público podem participar das mesmas contingências.

A Teoria das Molduras Relacionais, sistematizada por Hayes, Barnes-Holmes e Roche (2001), contribuiu para a investigação dos processos relacionados à linguagem e à cognição. A partir dessa abordagem, relações estabelecidas entre eventos podem transformar suas funções comportamentais. Uma experiência de fracasso, por exemplo, pode adquirir novas funções quando relacionada verbalmente a experiências de rejeição ou inadequação.

Nesse contexto, a redução da variabilidade comportamental merece atenção. Quando uma pessoa dispõe de poucas respostas para lidar com situações aversivas, seu repertório tende a oferecer menos alternativas diante de novos problemas. Solicitar ajuda, estabelecer limites, resolver problemas, permanecer em contato com pessoas significativas ou retomar atividades anteriormente reforçadoras são comportamentos que podem apresentar baixa frequência quando foram pouco reforçados ou quando o indivíduo está submetido a condições ambientais altamente aversivas.

A disponibilidade de reforçadores positivos também precisa ser investigada. Uma rotina marcada por afastamento social, abandono de atividades, dificuldades profissionais e redução de experiências prazerosas pode diminuir as oportunidades de contato com consequências reforçadoras. A análise, portanto, não se limita ao que ocorre “dentro” do indivíduo, mas considera também as contingências presentes em seu ambiente e as possibilidades de modificá-las.

A partir dessa formulação, os caminhos terapêuticos podem ser pensados de maneira coerente com as contingências identificadas. A intervenção pode buscar ampliar o repertório comportamental e aumentar as oportunidades de contato com consequências reforçadoras. Procedimentos como modelagem, reforçamento diferencial, treino de habilidades sociais, resolução de problemas e organização gradual de atividades pode ser empregada de acordo com a formulação funcional (De-Farias, 2010). Pequenas mudanças podem ter relevância clínica quando aumentam a probabilidade de respostas alternativas. Uma pessoa que anteriormente permanecia isolada diante de uma situação difícil pode, por exemplo, aprender gradualmente a comunicar sua necessidade, procurar uma pessoa de confiança ou retomar uma atividade significativa.

As terapias comportamentais contextuais também apresentam contribuições relevantes. A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), fundamentada na tradição comportamental, enfatiza processos relacionados à flexibilidade psicológica, aceitação e ação orientada por valores. Estudos recentes apresentam resultados promissores para desfechos relacionados ao autoextermínio, embora a literatura ainda apresente limitações metodológicas importantes.

Tak et al. (2025), em uma revisão sistemática e meta-análise, encontraram resultados favoráveis da ACT sobre a ideação suicida. Entretanto, os oito estudos incluídos foram avaliados como apresentando alto risco de viés, indicando que os resultados devem ser interpretados com cautela e que são necessários estudos metodologicamente mais rigorosos.

Zhang et al. (2026), em outra revisão sistemática e meta-análise, encontraram resultados favoráveis da ACT para diferentes desfechos relacionados a suicídio e autolesão. Os autores, contudo, também destacam a necessidade de pesquisas futuras para ampliar a qualidade e a robustez das evidências disponíveis. Assim, a literatura atual permite considerar a ACT uma abordagem promissora, mas não autoriza afirmar que seus efeitos estejam definitivamente estabelecidos para todos os indivíduos ou situações de risco.

Essa cautela também é coerente com Tighe et al. (2018), que identificaram número reduzido de estudos e limitações metodológicas importantes ao analisar a eficácia da ACT para ideação suicida e autolesão. Ainda assim, estudos clínicos específicos, como o ensaio conduzido por Ducasse et al. (2018), encontraram resultados favoráveis na redução da ideação suicida.

Em uma crise suicida, a relação terapêutica também possui importância clínica. Escuta qualificada, comunicação não punitiva, respeito e disponibilidade podem favorecer a expressão de experiências que muitas vezes permanecem ocultas. Entretanto, acolher não significa deixar de avaliar o risco. A identificação de ideação, histórico de tentativas, comportamentos autolesivos, fatores de vulnerabilidade, fatores de proteção e condições ambientais deve fazer parte da avaliação profissional. A segurança da pessoa atendida deve permanecer como prioridade.

A análise funcional não substitui a avaliação clínica do risco, mas pode contribuir para identificar condições ambientais e comportamentais relevantes para o planejamento da intervenção e das medidas necessárias para a proteção da pessoa.

Sob a perspectiva da Análise do Comportamento, trabalhar com comportamento suicida significa compreender as contingências que restringem o repertório do indivíduo e criar condições para que novas respostas possam ser aprendidas e fortalecidas. A finalidade não é simplesmente eliminar pensamentos relacionados à morte, mas favorecer alternativas comportamentais diante do sofrimento, aumentar o acesso a fontes de reforçamento e fortalecer relações sociais que possam funcionar como importantes contextos de proteção.

A esperança, nessa perspectiva, pode ser compreendida de forma concreta: como a possibilidade de construção de novas alternativas de ação. Quando uma pessoa passa a identificar possibilidades de comportamento, solicitar ajuda, reconstruir vínculos, retomar atividades e experimentar consequências diferentes das que predominavam anteriormente, novas contingências começam a participar de sua vida.

A contribuição da Análise do Comportamento está em investigar essas relações de maneira sistemática. Ao considerar a história de aprendizagem, as contingências atuais, o comportamento verbal, o controle aversivo, o reforçamento positivo e a ampliação do repertório, torna-se possível compreender a crise suicida sem reduzi-la a uma explicação única.

Em uma perspectiva de prevenção e cuidado, essa compreensão permite deslocar o olhar de uma pergunta centrada apenas em “como eliminar o comportamento? ” Para outra: quais condições podem ser construídas para que a pessoa tenha mais possibilidades de agir, pedir ajuda, permanecer em contato com pessoas significativas e encontrar alternativas diante do sofrimento?

            É justamente nesse espaço entre a compreensão funcional e a construção de novas possibilidades que a Análise do Comportamento se insere no cuidado diante da crise suicida. Assim, a esperança deixa de ser um conceito abstrato e passa a concretizar-se no fluxo dos comportamentos operantes e respondentes, manifestando-se no autorreforço positivo que floresce mesmo em meio às maiores adversidades da existência.

Referências

De-Farias, A. K. C. R. (Ed.). (2010). Análise comportamental clínica: Aspectos teóricos e estudos de caso. Artmed.

Ducasse, D., René, E., Beziat, S., Guillaume, S., Courtet, P., & Olié, E. (2018). Acceptance and commitment therapy for the management of suicidal patients: A randomized controlled trial. Psychotherapy and Psychosomatics, 87(4), 211–222. https://doi.org/10.1159/000488715

Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (Eds.). (2001). Relational frame theory: A post-Skinnerian account of human language and cognition. Plenum Press. https://doi.org/10.1007/b108413

Sidman, M. (1989). Coercion and its fallout. Authors Cooperative.

Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. Macmillan.

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1974). About behaviorism. Alfred A. Knopf.

Tak, J. H., Cho, S.-E., Cho, S.-J., Kang, S.-G., Bae, S. M., & Na, K.-S. (2025). Effectiveness of acceptance and commitment therapy for suicidality: A systematic review and meta-analysis. Acta Neuropsychiatrica, 37, e66. https://doi.org/10.1017/neu.2025.18

Tighe, J., Nicholas, J., Shand, F., & Christensen, H. (2018). Efficacy of acceptance and commitment therapy in reducing suicidal ideation and deliberate self-harm: Systematic review. JMIR Mental Health, 5(2), e10732. https://doi.org/10.2196/10732

Zhang, T., Hui, B. P. H., Ducasse, D., Li, Y., Wang, Y., Hu, J., Tang, W. C. S., & Ke, Y. (2026). Efficacy of acceptance and commitment therapy for suicide and self-harm: A systematic review and meta-analysis. Psychotherapy and Psychosomatics, 95(3), 193–213. https://doi.org/10.1159/000548398

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Escrito por adrianonicolau

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