O Laboratório que ficou em mim: Memórias de uma vida ensinando behaviorismo.
Adriano Nicolau da Silva
Foi em 1994 que assumi a cadeira de Psicologia Comportamental para ministrar aulas na universidade. Quando olho para trás, percebo o quanto aquele cenário era diferente daquele que encontramos hoje. Não havia a realidade digital que atravessa a formação universitária contemporânea. Os registros eram feitos manualmente, os cálculos exigiam atenção paciente e boa parte da aprendizagem acontecia diante dos equipamentos do laboratório, das folhas de registro e da observação direta do comportamento.
Mas a minha relação com aquela disciplina havia começado antes. No final da década de 1980, quando ainda cursava o bacharelado em Psicologia, eu já percebia certa resistência em relação ao Behaviorismo e à Análise Experimental do Comportamento. Para alguns colegas, tratava-se de uma disciplina excessivamente difícil. Quando assumi posteriormente a responsabilidade de ensiná-la, ouvi mais de uma vez comentários semelhantes: “Nossa, que matéria difícil você assumiu para ensinar”. Havia, por vezes, olhares de estranhamento diante de uma área que exigia precisão conceitual, observação sistemática, domínio metodológico e disposição para abandonar explicações fáceis sobre o comportamento.
No laboratório, entretanto, eu encontrava outra realidade. Os estudantes chegavam com curiosidade e ansiedade. Os experimentos com ratos da linhagem Wistar, tradicionalmente utilizados em atividades experimentais e pesquisas, constituíam, para muitos, o primeiro contato direto com a lógica experimental que sustenta a Análise do Comportamento. Antes mesmo de compreenderem plenamente os conceitos, precisavam lidar com as próprias respostas diante daquele ambiente: o desconforto inicial com o cheiro do biotério, o medo de tocar no animal e, em alguns casos, até mesmo o mal-estar físico.
Com o tempo, porém, algo interessante acontecia. Muitos estudantes começavam a desenvolver maior familiaridade com o ambiente e com os animais. Aquilo que inicialmente produzia esquiva podia, gradualmente, deixar de exercer a mesma função. A aproximação cuidadosa, a repetição das atividades e a experiência direta modificavam o repertório dos alunos. Essa transformação é compatível com a compreensão analítico-comportamental de que a história de interação do organismo com o ambiente participa da aquisição, manutenção e transformação de repertórios comportamentais (MOREIRA; MEDEIROS, 2019).
Havia também situações que, hoje, recordo com humor. Bastava um descuido ao colocar ou retirar o rato da caixa experimental para que ele eventualmente escapasse. O pequeno animal correndo pelo laboratório podia produzir uma reação coletiva desproporcional ao seu tamanho: gritos, alunos subindo em cadeiras e pessoas tentando manter distância. Para alguém que chegasse à porta naquele momento, talvez fosse difícil saber quem estava mais assustado: os estudantes ou o rato. Para mim, porém, mesmo essas situações acabavam se transformando em oportunidades de ensino. Ali estavam respostas de fuga e esquiva ocorrendo diante de determinadas condições, lembrando-nos de que os princípios estudados em sala podiam ser observados nas próprias interações cotidianas.
As perguntas dos estudantes também eram recorrentes. “Professor, vamos realizar todos aqueles experimentos que o senhor passou por escrito?” E então vinham os procedimentos: nível operante, treino ao bebedouro, modelagem do comportamento no treino à barra, extinção de uma resposta operante, esquemas de reforçamento, discriminação e generalização de estímulos. Quando eu confirmava que sim, surgia outra pergunta: “Depois teremos de fazer um relatório científico com todos os dados e ainda apresentar gráficos de frequência simples e frequência acumulada?” A reação quase sempre era acompanhada de alguma expressão de espanto: “Muito difícil, professor”.
Era justamente nesse ponto que eu acreditava estar uma das maiores contribuições da disciplina. O objetivo não era apenas fazer um rato pressionar uma barra ou produzir gráficos. O laboratório ensinava uma forma de olhar. O estudante aprendia que uma investigação científica do comportamento exige definir o que será observado, estabelecer procedimentos, registrar eventos, identificar relações entre variáveis e discutir os dados a partir de conceitos claramente estabelecidos. A tradição experimental da Análise do Comportamento consolidou esse compromisso com a observação sistemática e com a investigação das relações funcionais entre comportamento e ambiente (CATANIA, 2013).
Mais do que ensinar procedimentos, o laboratório colocava o estudante diante de uma exigência intelectual: substituir explicações intuitivas por perguntas que pudessem ser investigadas. O comportamento deixava de ser apenas algo que “acontecia” diante dos nossos olhos e passava a ser objeto de observação, mensuração e análise. Frequências, curvas acumuladas, contingências e esquemas de reforçamento deixavam de representar apenas conteúdos de uma disciplina e passavam a constituir instrumentos para pensar cientificamente sobre o comportamento.
Posteriormente, surgia uma pergunta ainda mais importante: “E quando vamos utilizar tudo isso para compreender o Behaviorismo Metodológico de Watson e o Behaviorismo Radical de Skinner na Psicologia Escolar e na Clínica?” Essa pergunta, para mim, sempre representou a passagem mais importante do laboratório para a formação profissional.
Watson teve papel decisivo na defesa de uma Psicologia orientada para o estudo científico do comportamento e na crítica à dependência da introspecção como método privilegiado da Psicologia (WATSON, 1913). Skinner, por sua vez, desenvolveu o Behaviorismo Radical como uma filosofia da ciência do comportamento que não exclui os eventos privados do campo psicológico. Pensamentos e sentimentos são reconhecidos como fenômenos comportamentais, embora não sejam tratados como causas autônomas e independentes das relações históricas e ambientais nas quais o comportamento se estabelece (SKINNER, 2003; SKINNER, 2006).
A Análise Experimental do Comportamento ensinada no laboratório não era, portanto, uma curiosidade acadêmica distante da vida humana. O laboratório constituía um contexto controlado no qual relações comportamentais podiam ser investigadas com maior precisão. Seus princípios e conceitos poderiam, posteriormente, ser utilizados na compreensão e na intervenção sobre comportamentos socialmente relevantes, desde que fossem respeitadas as características próprias de cada contexto. Essa tradição contribuiu para o desenvolvimento de uma prática aplicada preocupada com a definição objetiva dos comportamentos, a identificação das variáveis relevantes e a avaliação dos efeitos das intervenções (COOPER; HERON; HEWARD, 2020).
Na clínica, essa formação permite ao psicólogo formular perguntas mais precisas, investigando antecedentes, consequências e alternativas comportamentais em vez de se limitar a rótulos ou descrições gerais. Um comportamento que, à primeira vista, pode ser descrito apenas como sintoma ou dificuldade pode ser investigado em relação às condições nas quais ocorre, à história de aprendizagem que participa de sua constituição e às consequências que contribuem para sua manutenção. A análise funcional permite, assim, transformar descrições amplas em perguntas específicas sobre as relações que tornam determinado comportamento mais provável e sobre as condições que podem favorecer a construção de repertórios alternativos.
Essa perspectiva não reduz a complexidade humana. Ao contrário, procura compreendê-la a partir da história singular de interação do indivíduo com contingências sociais, culturais e biológicas. O comportamento humano ocorre em contextos históricos concretos, e sua análise exige considerar as relações entre organismo e ambiente sem transformar qualquer um desses elementos em explicação isolada.
A articulação contemporânea com conhecimentos provenientes das Neurociências e da Neuropsicologia também pode ser promissora quando compreendida como diálogo entre níveis complementares de investigação. Processos neurais podem ampliar a compreensão do funcionamento humano, mas não substituem a análise das contingências e da história de interação do organismo com o ambiente. Explicações biológicas, tomadas isoladamente, não esgotam os fenômenos psicológicos; do mesmo modo, uma ciência do comportamento pode dialogar com outros campos sem abandonar seu objeto, seus conceitos e suas formas próprias de análise.
Ao longo dos anos, acompanhei mudanças profundas na Psicologia. Surgiram novas tecnologias, instrumentos de avaliação, recursos digitais e possibilidades de pesquisa que seriam difíceis de imaginar quando comecei a lecionar em 1994. Entretanto, uma das lições fundamentais que aprendi naquele laboratório continua atual: não há ciência sem disposição para confrontar nossas explicações com aquilo que pode ser observado, investigado e discutido criticamente.
Na prática clínica, essa preocupação continua sendo necessária. Pessoas que procuram atendimento psicológico desejam compreender seu sofrimento e, sobretudo, encontrar possibilidades reais de mudança. Por isso, considero fundamental que as intervenções estejam comprometidas com formulações conceituais claras, avaliação cuidadosa e procedimentos que possam ser permanentemente examinados à luz do conhecimento científico. A preocupação com evidências não elimina a dimensão humana da clínica; ao contrário, aumenta a responsabilidade ética e profissional diante do sofrimento de quem procura ajuda.
Hoje, quando recordo os estudantes assustados diante de um rato que escapava da caixa experimental, as primeiras anotações de frequência e as dificuldades para elaborar relatórios científicos, percebo que aqueles momentos tinham um significado maior do que imaginávamos. Estávamos aprendendo a observar antes de explicar, a registrar antes de concluir e a reconhecer que o comportamento humano não pode ser compreendido apenas por meio de rótulos.
Talvez seja justamente essa a maior herança daquele laboratório. Eu entrei nele para ensinar uma disciplina, mas, olhando retrospectivamente, percebo que também fui transformado por aquilo que ensinava. A prática de observar, registrar, comparar e questionar foi progressivamente deixando de ser apenas uma exigência acadêmica e passou a constituir uma maneira de olhar para o comportamento humano. O laboratório terminou há muitos anos, mas sua lógica permaneceu comigo.
O Behaviorismo, especialmente em sua formulação radical e em seus desdobramentos contemporâneos, não permaneceu no passado. Ele continua oferecendo conceitos, métodos e perguntas capazes de dialogar com problemas atuais. Em um período marcado por desafios importantes relacionados à saúde mental, acredito que novas gerações de pesquisadores e profissionais têm diante de si uma responsabilidade igualmente importante: produzir conhecimento cada vez mais rigoroso e desenvolver práticas capazes de contribuir, de maneira efetiva e responsável, para a redução do sofrimento humano.
Por isso, ao encerrar estas lembranças, expresso também um desejo pessoal. Gostaria que outros estudantes se aproximassem do Behaviorismo com a mesma curiosidade que vi nascer naqueles laboratórios, mesmo quando acompanhada de medo, insegurança ou da impressão inicial de que se tratava de uma disciplina difícil. Espero que novos estudantes descubram, nos princípios da Análise do Comportamento, não apenas conceitos e procedimentos experimentais, mas uma forma rigorosa e humana de compreender as pessoas.
Que continuem estudando, pesquisando e aperfeiçoando suas práticas, levando esse conhecimento para as escolas, para a clínica, para as universidades e para os diferentes espaços sociais. Se o estudo científico do comportamento puder ajudar profissionais a compreender melhor as contingências que produzem sofrimento e a construir condições mais favoráveis para a mudança, então o esforço daqueles antigos laboratórios continuará fazendo sentido. Meu desejo é que novas gerações sigam interessadas pelo Behaviorismo e continuem ajudando pessoas, com ciência, responsabilidade e compromisso humano.
Talvez seja essa a principal lembrança que carrego daqueles anos de laboratório. Entre o medo inicial, o desconforto, a curiosidade, os gráficos e os experimentos, aprendíamos que compreender o comportamento exige método. E, mais de três décadas depois de assumir aquela cadeira universitária, continuo acreditando que essa lição permanece viva: antes de explicarmos o ser humano, precisamos aprender, com rigor e humildade científica, a observá-lo.
REFERÊNCIAS
Catania, A. C. (2013). Learning (5th ed.). Sloan Publishing.
Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied behavior analysis (3rd ed.). Pearson.
Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. de (2019). Princípios básicos de análise do comportamento (2ª ed.). Artmed.
Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano (J. C. Todorov & R. Azzi, Trad.). Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1953).
Skinner, B. F. (2006). Sobre o behaviorismo (M. da P. Villalobos, Trad.). Cultrix. (Trabalho original publicado em 1974).
Watson, J. B. (1913). Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, 20(2), 158–177. https://doi.org/10.1037/h0074428

O Laboratório que ficou

