
Quem começa a estudar Terapia Baseada em Processos (PBT) logo se depara com o Metamodelo Evolucionário Estendido (EEMM). Ele é representado por essa figura aí, que você pode ver logo acima. E ela não é nada intuitiva! Para piorar a história, materiais clássicos da PBT (e.g. Hofmann, Hayes & Lorscheid, 2021) parecem complicar demais a sua aprendizagem. Pelo menos foi isso que eu senti quando ainda estava aprendendo. E julgo que essa seja a dificuldade da maioria das pessoas que estão começando seus estudos em PBT.
Por isso, decidi escrever esse artigo para facilitar a sua vida! Eu prometo que ao final dele você vai estar entendendo tudo, ou quase tudo, sobre o EEMM. E não vai precisar fazer o caminho das pedras que eu tive que fazer um dia.
Por que um metamodelo?
Hayes e Hofmann (2020) têm uma proposta ambiciosa. Para eles, o modelo de psicopatologia descritiva e categórica, aquele que usamos no DSM e CID, está com os dias contados. Isso porque esse modelo tem vários problemas. O primeiro deles é seu alto número de comorbidades. Nossos pacientes podem ter dois, três ou mais transtornos e isso tá longe de ser exceção, parece ser a regra. E mesmo que um paciente seja diagnosticado apenas com um único transtorno, ele pode apresentar um número imenso de diferentes combinações de sintomas. Esse é o problema da heterogeneidade sintomatológica. Para você ter noção, existem mais de mil combinações de sintomas possíveis para alguém que foi diagnosticado com Transtorno Depressivo Maior (Fried, 2017). Ou seja, se durante sua carreira você atender mil pacientes com depressão há uma chance muito grande de cada um deles ter constelações de sintomas completamente diferentes entre si. Além desses dois problemas, a psicopatologia descritiva e categórica tem pouco, ou quase nada, a dizer sobre a gênese e manutenção dos problemas de nossos pacientes. Duas pessoas podem ter um mesmo transtorno advindo de histórias de vida completamente diferentes. Ou ainda o contrário, terem diferentes transtornos com histórias de vida muito similares.
Além disso, esse modelo fez surgir a lógica de “protocolos para síndromes” (Hayes & Hofmann, 2020). Nessa lógica, nós testamos terapias específicas (TCC, ACT, DBT) para transtornos específicos. À primeira vista parece uma boa ideia, mas ela vem carregada de tantos outros problemas! Ficamos presos a manuais interventivos que, muitas vezes, mais atrapalham do que ajudam o trabalho clínico, entrando em conflito com a nossa necessidade de intervir de forma personalizada (Koerner, 2018). Adicionalmente, testar pacotes de tratamento (manuais) tem a atrapalhado o desenvolvimento de novas terapias e competências clínicas (Keplac et al., 2012).
Pare resolver esses problemas, os autores da PBT propõe um retorno à análise funcional (Hofmann & Hayes, 2019). Assim, não precisaríamos mais diagnosticar pacientes com transtornos como depressão, por exemplo. Bastaria olhar para diferentes problemas se relacionando entre si e intervir neles.

Mas, não sei se você notou, tem um problema em tudo isso! Psicólogos de diferentes abordagens têm formas diferentes de relacionar os problemas de um paciente e pensar sobre seus casos. E, também, têm diferentes intervenções! “Terapeutas ACT” fazem desfusão cognitiva e técnicas de mindfulness, terapeutas da TCC fazem questionamento socrático. Se queremos substituir a linguagem do DSM e CID, precisamos de um modelo que abarque todas as abordagens e terapias, que abarque outros modelos. Precisamos de um modelo de modelos… precisamos de um… Metamodelo! O EEMM tem esse nome, por ser justamente isso: um modelo de modelos, uma ferramenta que serve como ponte entre as mais diversas abordagens da psicologia (Hayes, Hofmann & Ciarrochi, 2020).
Por que ele é evolucionário?
Falar a mesma língua não quer dizer deixar a própria língua de lado. Esse, talvez, seja o equívoco mais comum na hora de se aprender sobre o EEMM. Muitos terapeutas acham que para usá-lo você deve abandonar sua própria abordagem, mas a questão aqui é um pouco diferente. Para você entender melhor, vamos usar uma metáfora.
Imagine que você está de frente a um arquipélago. Em cada ilha há uma tribo, elas vivem isoladas uma das outras. Cada tribo desenvolveu sua própria cultura e sua própria língua. Uma tribo chama lanças de “borka”, a outra tribo chama o mesmo objeto de “fluté”. São objetos bem parecidos, mas com nomes completamente diferentes. Imagine, então, que você introduz a língua portuguesa nesse arquipélago. Agora as duas tribos chamam o objeto de “lança”. Elas ainda têm sua própria cultura, seu próprio jeito de viver, mas conseguem entender que quando o outro fala “lança” esse está, provavelmente, se referindo ao que é conhecido como “borka” ou “fluté”.
Segundo Hughes, De Houwer e Perugini (2016), algo parecido aconteceu na Psicologia! Desenvolvemos nossas abordagens como ilhas e acabamos usando terminologias diferentes (línguas) para nomear os mesmos fenômenos. Não dá para unir culturas (teorias), mas podemos fazer com que todo mundo use a mesma língua (os mesmos termos).
Os autores da PBT vão buscar essa língua comum na teoria da evolução. Por isso o Metamodelo é evolucionário! Quatro palavras, advindas dessa teoria, vão ser fundamentais para a tradução do conhecimento de uma abordagem para a outra: variação, seleção, retenção e contexto. E é fácil demais entender elas.
Variação, na teoria da evolução se refere a uma determinada forma ou característica de uma espécie. Na natureza, temos diferentes variações de cores de animais, diferentes formatos de plantas etc. Essas variações existem por que funcionaram para a sobrevivência de um indivíduo e da sua espécie. Elas foram selecionadas! Plantas com espinhos são uma variação que foi selecionada pela escassez da água de um deserto, por exemplo. E essas variações, conforme vão funcionando, vão se mantendo ao longo do tempo, de geração em geração. Ou seja, vai acontecendo uma retenção dessas variações que são selecionadas. Isso tudo, dentro de um ambiente (contexto).
Se você voltar na imagem do EEMM, lá em cima. Esses conceitos estão nas três colunas do meio e tem uma “camada 3D” para lembrar que esses conceitos só podem ser pensados dentro de um contexto.
Por que ele é estendido?
Se você prestou atenção na imagem, vai notar, também, que existe uma primeira coluna. Com níveis e dimensões. Isso porque o EEMM aplica conceitos evolucionários não somente no nível biofisiológico. Aliás, somos psicólogos, não biólogos! Olhamos o ser humano em outros níveis: sociocultural e psicológico. Esse último nível é tão importante para nós que o EEMM ainda divide ele em seis dimensões: cognitiva, afetiva, atencional, self, motivacional e comportamental (Ciarrochi et al., 2024).
Isso quer dizer que ao usar o EEMM, independente da nossa teoria, estamos pensando em como certas variações, em diferentes níveis, são selecionadas e retidas. Se voltarmos à nossa metáfora das ilhas, um psicólogo comportamental e um cognitivo podem discordar sobre se certo fenômeno observado na clínica é uma crença ou uma autorregra. Mas os dois vão concordar que isso é uma variação de pensamento, dentro da dimensão cognitiva, que é selecionada por certos motivos e por isso continua existindo na vida do paciente (foi retida em um contexto).
Usando o EEMM na prática
Assim, ao usar o EEMM na prática, estamos sempre pensando sobre quais comportamentos, pensamentos e sentimentos meu paciente está vivenciando (variações dentro de uma dimensão ou nível), por quais razões isso está acontecendo (seleção) e o que está mantendo esse ciclo (retenção), tudo isso dentro do contexto da vida daquele paciente.
Mas talvez a característica mais incrível do EEMM seja sua habilidade de agrupar funcionalmente as intervenções que nós usamos. Veja bem, na nossa metáfora tínhamos duas tribos com palavras diferentes para ferramentas que tinham a mesma função. “Borka” e “fluté” se referiam a uma lança. Independentemente do nome, ela serve para caçar ou lutar. Na psicologia, demos nomes diferentes para intervenções que, muitas vezes, cumprem o mesmo papel.
Técnicas de desfusão cognitiva e de reestruturação cognitiva vêm de duas tradições teóricas distintas. Mas as duas se propõe a fazer a mesma coisa: modificar variações da dimensão cognitiva, ou seja, mudar a forma com que as pessoas pensam e interagem com pensamentos (Ong & Lee, 2025). E existem pesquisas mostrando que as duas são igualmente eficazes para esses objetivos (Larsson, Hooper, Osborne, Bennett & McHugh, 2015).
Assim, você não precisa largar sua teoria de base. Você pode ser um analista do comportamento e utilizar reestruturação cognitiva ou até técnicas da psicanálise, por que não? O que importa é que essa técnica esteja trabalhando variação, seleção e retenção em certo nível ou dimensão que é importante para o seu caso (Ong & Lee, 2025).
Mas, como intervir em Terapia Baseada em Processos, já é outra história! Que eu vou deixar para meu próximo artigo. Por hora, você tem que sair daqui sabendo o que é o EEMM. Em poucas
Referências
Ciarrochi, J., Hernández, C., Hill, D., Ong, C., Gloster, A. T., Levin, M. E., … & Hayes, S. C. (2024). Process-based therapy: A common ground for understanding and utilizing therapeutic practices. Journal of Psychotherapy Integration, 34(3), 265.
Fried, E. (2017). Moving forward: how depression heterogeneity hinders progress in treatment and research. Expert Review of Neurotherapeutics, 17(5), 423–425. https://doi.org/10.1080/14737175.2017.1307737
Hayes, S. C., & Hofmann, S. G. (Eds.). (2020). Beyond the DSM: Toward a process-based alternative for diagnosis and mental health treatment. New Harbinger Publications.
Hayes, S., Hofmann, S., Ciarrochi, J. (2020). Creating an alternative to syndromal diagnosis: Needed features of processes of change and the models that organize them. In Hayes, S.C. & Hofmann, S.G., Beyond the DSM: Toward a Process-based Alternative for Diagnosis and Mental Health Treatment. Oakland, CA: Context Press.
Hofmann, S. G., & Hayes, S. C. (2019). Functional analysis is dead: Long live functional analysis. Clinical Psychological Science, 7(1), 63-67. https://doi.org/10.1177/2167702618805513
Hughes, S., De Houwer, J., & Perugini, M. (2016). The functional‐cognitive framework for psychological research: Controversies and resolutions. International Journal of Psychology, 51(1), 4-14.
Klepac, R. K., Ronan, G. F., Andrasik, F., Arnold, K. D., Belar, C. D., Berry, S. L., et al. (2012). Guidelines for cognitive behavioral training within doctoral psychology programs in the United States: Report of the Inter-Organizational Task Force on Cognitive and Behavioral Psychology Doctoral Education.
Behavior Therapy, 43 (4), 687–697.
Koerner, K. (2018). The Science in Pratice. In Hayes, S. C., & Hofmann, S. G.
(Eds.) Process- based CBT: The science and core clinical competencies of cognitive behavioral therapy (pp. 58-75). New Harbinger Publications.
Larsson, A., Hooper, N., Osborne, L. A., Bennett, P., & McHugh, L. (2016). Using brief cognitive restructuring and cognitive defusion techniques to cope with negative thoughts. Behavior modification, 40(3), 452-482.
Ong, C. W., & Lee, E. B. (2025). A Process-Based Approach to Psychotherapy: Principles for Practice. Oxford: Oxford University Press
