Em maio de 2024, Camila Lourenço, Elizara Matos, Isla Cezzani e Julia Moreira, integrantes do SIG Mulheres na ACBS, publicaram, neste canal, o brilhante artigo “De Onde Vem o Sofrimento das Mulheres?”. Nele, as autoras discorrem sobre diversas variáveis que contribuem para o sofrimento vivenciado pelas mulheres. Recorrendo às contribuições de Zanello (2018; 2022), Lourenço, Matos, Cezzani e Moreira argumentam que as expectativas sociais sobre a feminilidade — ancoradas na capacidade de uma mulher ser escolhida para um relacionamento amoroso e na maternidade — são fatores primordiais para compreendermos o sofrimento das mulheres.
De forma muito sensível, as autoras nos lembram que outras variáveis estão em jogo. Apesar de as variáveis de gênero exercerem, sim, uma influência, é necessário um olhar mais amplo para outras variáveis sociais, como a orientação sexual, a classe social, a nacionalidade, entre outras, uma vez que uma análise funcional que ignora as variáveis culturais é uma análise funcional incompleta.
No intuito de dialogar com o exposto pelas autoras, gostaria de trazer uma provocação ao debate: e de onde vem o sofrimento dos homens? Os homens são as principais vítimas de suicídio (Bennet et al., 2023). São também as principais vítimas e os principais perpetradores de crimes de homicídio (IPEA, 2024). Além disso, os homens são os que mais morrem em acidentes de trânsito (DETRAN-DF, 2025) e tendem a se engajar menos em comportamentos de busca por ajuda (Agochukwu & Wittmann, 2019), o que dificulta sabermos a real proporção do acometimento de doenças mentais entre eles. É inegável, portanto, que os homens também estão em sofrimento.
Apesar de reconhecer que não há uma resposta simples para essa pergunta, arrisco dizer que a origem do sofrimento vivenciado pelos homens não é muito diferente da origem do sofrimento das mulheres.
Para compreendermos melhor o sofrimento dos homens, é fundamental entendermos o que é socialmente esperado deles. Nesse sentido, o termo gênero torna-se uma importante ferramenta analítica. Embora o termo tenha diferentes usos e significados, podemos entendê-lo como a diferença culturalmente construída entre os sexos. A historiadora brasileira Guacira Lopes Louro (1997) destaca o potencial analítico e político do termo. Analítico, por possibilitar a investigação das diferenças sociais entre homens e mulheres e político, por permitir denunciar situações em que tais diferenças se transformam em desigualdades.
Estudar gênero, portanto, é estudar relações de poder. Ruiz (2003) argumenta que as práticas de gênero funcionam como mecanismos de controle social fundamentados em relações de poder, nas quais o sexo do indivíduo atua como um estímulo discriminativo, influenciando os reforçadores aos quais essa pessoa terá acesso ao se comportar. Ou seja, a depender do seu sexo, certos comportamentos seus terão maior ou menor probabilidade de serem punidos ou reforçados (Valério, Castro & Florêncio, 2022).
Aos homens geralmente se espera comportamentos que expressem sua força física, competência sexual, inteligência e alto desempenho. Em contrapartida, são desencorajados a manifestar medo, tristeza, insegurança, a buscarem ajuda ou emitirem comportamentos de cuidado e vulnerabilidade, já que tais respostas podem ser desqualificadas como sendo “coisa de mulher”, por exemplo. É nesse sentido que a pesquisadora australiana, Raewyn Connell, cunhou o termo masculinidade hegemônica para se referir ao “padrão de práticas (i.e., coisas feitas, não apenas uma série de expectativas de papéis ou uma identidade) que possibilitou que a dominação dos homens sobre as mulheres continuasse” (Connell & Messerschmitt, 2013, p. 244).
A partir da definição proposta por Connell, já é possível identificar indícios sobre a origem do sofrimento dos homens — e, principalmente, o das mulheres. Kimmel (1998) argumenta que a masculinidade hegemônica vigente se sustenta em dois tipos específicos de preconceitos: a misoginia e a homofobia. Aos homens, cabe constantemente comprovar sua masculinidade, pois qualquer ato, gesto, escolha, entonação ou movimento pode coloca-la a cheque. A masculinidade hegemônica, portanto, se sustenta em práticas concretas que reforçam a chamada dominação masculina, ou seja, ações que (re)produzem opressões dirigidas às mulheres, ao mesmo tempo em que oferecem vantagens e benefícios aos homens que se alinham a esse padrão (Nicolodi & Arantes, 2019).
Cabe destacar, no entanto, que apesar da masculinidade hegemônica ser o principal referencial de masculinidade, ela não é o normal, ao menos em termos estatísticos. Pois são poucos – para não dizer nenhum! – homem que consegue de fato vivencia-la a todo momento. Ainda assim, diversos homens se matam (metaforicamente e literalmente) para tentar exerce-la. Pois ao contrário do que se possa pensar, a masculinidade não é dada. E em sociedades sexistas, como a nossa, há poucas coisas tão graves para um homem como ter a sua masculinidade questionada.
Resta-nos perguntar: o que pode ser feito diante disso? Afinal, como destacam Sylvester e Hayes (2010), no processo de aprendizagem não existe um comportamento de “desaprender”. Uma vez adquirida, uma resposta passa a integrar o repertório comportamental do indivíduo. Mesmo que submetida a um processo de extinção, essa resposta ainda pode ressurgir com ainda mais rapidez. Em outras palavras, não é possível que homens simplesmente “desaprendam” os ensinamentos associados à masculinidade hegemônica. Ainda assim, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a Teoria das Molduras Relacionais (RFT) podem oferecer caminhos promissores de intervenção.
As contribuições da Teoria das Molduras Relacionais (RFT) nos permite compreender como os seres humanos desenvolvem a capacidade de relacionar eventos de forma arbitrária por meio da linguagem. Desde a tenra idade, somos expostos a múltiplos exemplares fornecidos pela comunidade verbal, o que nos treina a estabelecer relações arbitrárias entre estímulos — como semelhança, diferença, comparação, oposição, entre outras (Hayes et al., 2001). Isso nos permite, inclusive, a derivar novas relações entre os estímulos, mesmo sem a necessidade de passar pela experiência direta da aprendizagem.
A partir de uma regra verbal como “homens devem ser masculinos”, pode-se formar uma rede de relações em que a masculinidade está em uma relação de coordenação com comportamentos considerados masculinos, como agressividade ou assumir riscos, e em relações de oposição a comportamentos considerados femininos, como pedir ajuda, por exemplo. Assim, homens podem evitar comportamentos de busca por ajuda, mesmo sem nunca terem ouvido explicitamente essa regra — e até mesmo quando esse comportamento seria benéfico para a própria saúde (Sylvester & Hayes, 2010; Kuch & Dittrich, 2023).
Agora, teria essa mesma frase – “os homens devem ser masculinos” – o mesmo efeito caso fosse dita na voz de uma personagem animado? Muito provavelmente não. Reduzir a literalidade das palavras pode ser uma ferramenta poderosa para ampliar o conceito de masculinidade para além dos preceitos da masculinidade hegemônica. A desfusão cognitiva, um dos processos centrais da ACT, pode reduzir o impacto e a credibilidade de estereótipos sociais condicionados, mesmo que a ocorrência da regra verbal permaneça inalterada (Sylvester & Hayes, 2010).
Retomando a pergunta que abriu este texto — de onde vem o sofrimento dos homens? —, pode-se afirmar que ele emerge de um emaranhado de regras verbais que sustentam a ideia de que existe apenas um modelo legítimo de masculinidade: a masculinidade hegemônica. Para se conformar a esse padrão, os homens são levados a adotar formas de agir rígidas e limitadas, o que resulta em inúmeros prejuízos — para si mesmos, para outros homens e, principalmente, para as mulheres. No entanto, há espaço para transformação. Se a visão hegemônica de masculinidade estreita possibilidades e gera sofrimento, que possamos ampliá-la.
A atuação clínica pautado nas ciências comportamentais contextuais deve ser sensível às contingências sociais. A terapia, enquanto agência de controle, pode tanto reproduzir quanto desconstruir preconceitos. Muitos homens podem se sentir receosos de procurar a terapia por considerarem isso um sinal de fraqueza, mas ignoram a coragem necessária para admitir quando se está errando. A força que é exigida para pedir ajuda. A garra que é necessária para realizar uma mudança. Encerro com as palavras da minha mãe, que certamente contribuíram para que eu estivesse onde estou hoje: a gente não precisa de terapia. A gente merece terapia.
Referências
Connell, R. W., & Messerschmidt, J. W. (2013). Masculinidade hegemônica: Repensando o conceito. Revista Estudos Feministas, 21(1), 241–282. https://doi.org/10.1590/S0104-026X2013000100014
Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (Eds.). (2001). Relational frame theory: A post-Skinnerian account of human language and cognition. Kluwer Academic/Plenum Publishers.
Kimmel, M. S. (1998). A produção simultânea de masculinidades hegemônicas e subalternas. Horizontes Antropológicos, 4(9), 103–117. https://doi.org/10.1590/S0104-71831998000200007
Kuch, I. E., & Dittrich, A. (2023). As masculinidades como variáveis relevantes para analistas do comportamento: Reflexões teóricas e práticas. Perspectivas em Análise do Comportamento, 154–169. https://doi.org/10.18761/vecc291122a
Nicolodi, L., & Arantes, A. (2019). Poder e patriarcado: Contribuições para uma análise comportamental da desigualdade de gênero. In R. Pinheiro & T. Mizael (Orgs.), Debates sobre feminismo e análise do comportamento (pp. 64–84). Editora Imagine Produções.
Ruiz, M. R. (2003). Inconspicuous sources of behavioral control: The case of gendered practices. The Behavior Analyst Today, 4(1), 12–16. https://doi.org/10.1037/h0100005
Sylvester, M., & Hayes, S. C. (2010). Unpacking masculinity as a construct: Ontology, pragmatism, and an analysis of language. Psychology of Men & Masculinity, 11(2), 91–97. https://doi.org/10.1037/a0019132
Valério, A., Castro, D. P., & Florêncio, T. (2022). Reflexões sobre masculinidades: Possibilidades de interpretação a partir de uma visão analítico-comportamental. Perspectivas em Análise do Comportamento, 13(1), 41–53. https://doi.org/10.18761/VEEM.13796
Zanello, V. (2018). Saúde mental, gênero e dispositivos: Cultura e processos de subjetivação. Appris.
Zanello, V. (2022). Prateleira do amor: Sobre mulheres, homens e relações. Appris.

