Há pessoas que passam a maior parte do tempo cercadas por outras pessoas. Trabalham em equipe, têm família, são casadas, participam de grupos, conversam, cumprem seus compromissos e parecem levar uma vida social perfeitamente normal.
Ainda assim, quando descrevem sua experiência, uma frase aparece com frequência:
“Eu me sinto sozinho.”
À primeira vista isso pode parecer contraditório. Afinal, como alguém pode se sentir sozinho estando rodeado de gente?
A RO-DBT (Radically Open Dialectical Behavior Therapy), desenvolvida por Thomas Lynch, parte justamente dessa questão. Embora trabalhe diferentes aspectos do funcionamento psicológico, seu principal objetivo é reduzir a solidão emocional crônica, ajudando as pessoas a desenvolver conexões sociais mais profundas e genuínas.
Essa afirmação pode causar estranheza. Afinal, quando pensamos em sofrimento emocional, costumamos imaginar ansiedade, depressão ou dificuldades para regular emoções. A solidão raramente aparece como protagonista.
Mas, para a RO-DBT, ela ocupa um lugar central.
A RO-DBT propõe uma resposta interessante para essa pergunta: solidão não é, necessariamente, falta de companhia. Muitas vezes, ela é falta de conexão.
Essa distinção é importante porque muda completamente a forma de compreender o sofrimento de muitas pessoas supercontroladas.
Muito além do perfeccionismo
Quando se fala em RO-DBT, é comum que as pessoas pensem logo em perfeccionismo, rigidez ou excesso de autocontrole. De fato, essas características costumam estar presentes.
Mas elas podem não ser o alvo principal do tratamento.
Thomas Lynch propõe que o sofrimento mais significativo das pessoas supercontroladas é a solidão emocional crônica. O excesso de autocontrole importa porque, ao longo do tempo, dificulta a construção de vínculos profundos e genuínos.
Ou seja, o problema não é simplesmente controlar demais as emoções. O problema é o efeito que esse padrão produz nos relacionamentos.
Competência não garante conexão
Muitas pessoas supercontroladas são admiradas.
São responsáveis, confiáveis, organizadas, cuidadosas, éticas e extremamente competentes. Frequentemente ocupam posições de liderança ou são vistas como aquelas pessoas em quem todos podem confiar.
Mas existe um paradoxo.
Quanto mais alguém transmite a imagem de que está sempre bem, de que não precisa de ajuda e de que consegue lidar sozinho com qualquer dificuldade, menos oportunidades oferece para que os outros se aproximem emocionalmente.
Os relacionamentos passam a acontecer em torno das tarefas, das responsabilidades ou das conversas cotidianas, mas nem sempre evoluem para um sentimento de intimidade.
É possível conviver com muitas pessoas e, ainda assim, sentir que ninguém realmente conhece quem você é.
A conexão depende de sinais sociais
Uma das ideias mais originais da RO-DBT é que os seres humanos dependem de sinais sociais para construir confiança.
Expressões faciais, mudanças no tom de voz, um sorriso espontâneo, um olhar acolhedor, uma demonstração de surpresa ou emoção… todos esses comportamentos comunicam algo sobre nossa disponibilidade para nos conectar.
Na RO-DBT, esses sinais são entendidos como uma espécie de linguagem biológica da segurança.
Quando eles aparecem de forma natural, facilitam aproximação, cooperação e intimidade.
Já pessoas supercontroladas costumam modular excessivamente essas expressões. Não porque sejam frias ou indiferentes, mas porque aprenderam, ao longo da vida, que demonstrar emoções poderia representar algum tipo de risco.
Com isso, acabam enviando aos outros uma mensagem diferente daquela que realmente gostariam de transmitir.
Por dentro, podem desejar proximidade. Por fora, parecem inacessíveis.
A armadilha da autossuficiência
Existe outro aspecto importante.
Pessoas supercontroladas costumam acreditar que pedir ajuda incomoda os outros. Preferem resolver tudo sozinhas, evitam compartilhar dificuldades e frequentemente minimizam o próprio sofrimento.
Essa postura costuma ser vista socialmente como maturidade.
Mas ela tem um custo.
Relacionamentos profundos não se constroem apenas quando oferecemos apoio. Eles também se fortalecem quando permitimos que o outro cuide de nós em alguns momentos.
A vulnerabilidade compartilhada cria intimidade.
Quando ela nunca acontece, os vínculos podem permanecer corretos, respeitosos e funcionais, mas emocionalmente distantes.
O objetivo da RO-DBT
Por isso, o objetivo da RO-DBT não é fazer com que a pessoa se torne mais emotiva ou menos disciplinada.
Também não é incentivar que ela exponha tudo o que sente.
O tratamento busca ampliar a abertura para experiências novas, aumentar a flexibilidade diante da vida e favorecer formas mais autênticas de conexão com outras pessoas.
Em outras palavras, a proposta não é abandonar o autocontrole, mas desenvolver a capacidade de equilibrá-lo com abertura, espontaneidade e disponibilidade social.
Conclusão
A RO-DBT amplia a forma como compreendemos o sofrimento psicológico. Em vez de olhar apenas para sintomas como ansiedade, humor deprimido ou dificuldades na regulação emocional, ela chama atenção para o impacto que nossos padrões de comportamento têm sobre a qualidade das relações que construímos.
Para Thomas Lynch, a solidão emocional não é apenas uma consequência do supercontrole, mas um de seus principais custos. Pessoas supercontroladas podem ter uma vida social ativa, desempenhar papéis importantes e manter relacionamentos estáveis e, ainda assim, experimentar uma sensação persistente de desconexão.
Sob essa perspectiva, o objetivo da RO-DBT vai além de reduzir sintomas. O tratamento busca favorecer comportamentos que aumentem a abertura, a reciprocidade e a proximidade interpessoal, criando condições para que conexões mais profundas possam se desenvolver.
Referências Bibliográficas
Lynch, T. R. (2018). Radically Open Dialectical Behavior Therapy: Theory and Practice for Treating Disorders of Overcontrol. Reno, NV: Context Press.
Lynch, T. R. (2018). The Skills Training Manual for Radically Open Dialectical Behavior Therapy: A Clinician’s Guide for Treating Disorders of Overcontrol. Reno, NV: Context Press.
