Autocompaixão para Famílias de Pessoas Neurodivergentes

Máscaras de oxigênio: cuidar de si também é sustentar o cuidado

Desde 2020, tenho estudado autocompaixão para mães, pais e cuidadoras(es) de pessoas neurodivergentes. Em 2023, defendi minha dissertação de mestrado sobre essa temática, mais recentemente, tive a oportunidade de conduzir um treinamento em autocompaixão voltado a esse público, e este texto (que terá uma segunda parte) nasceu dos encontros, das trocas e das reflexões construídas ao longo desse processo.

Cuidar de uma pessoa autista ou neurodivergente pode envolver amor, vínculo, aprendizado e descobertas importantes e, também, pode envolver cansaço, solidão, culpa, medo, sobrecarga e, muitas vezes, uma sensação persistente de que nunca se está fazendo o suficiente. Muitas famílias chegam aos serviços de saúde, educação e intervenção buscando orientação sobre como favorecer o desenvolvimento de seus filhos, filhas ou pessoas que elas cuidam. Contudo, com frequência, quem cuida é incluído no processo apenas como alguém que precisa executar estratégias, seguir orientações e garantir a continuidade das intervenções fora do consultório, da escola ou da clínica.

Essa constatação nos conduz a uma pergunta simples, mas profundamente necessária: quem cuida de quem está cuidando? Em muitas intervenções voltadas para pessoas autistas, especialmente quando falamos em programas baseados em evidências, o treinamento parental costuma se concentrar no ensino de habilidades, no manejo de comportamentos e na organização de rotinas. Esses elementos são fundamentais. No entanto, quando as dimensões emocionais de mães, pais e cuidadores são desconsideradas, corre-se o risco de pedir que pessoas já exaustas sustentem processos complexos sem receber, elas mesmas, recursos de cuidado, acolhimento e regulação.

A metáfora da máscara de oxigênio, utilizada nas instruções de segurança dos aviões, oferece uma imagem potente para essa discussão. Em uma situação de emergência, somos orientados a colocar primeiro a máscara em nós mesmos para, depois, ajudar quem está ao nosso lado. Na parentalidade e no cuidado, essa metáfora pode soar estranha, especialmente para pessoas que foram ensinadas, ao longo da vida, que cuidar de si é egoísmo, fraqueza ou falta de amor. Porém, cuidar de si não significa abandonar o outro. Pelo contrário: muitas vezes, é justamente uma condição para continuar cuidando.

Essa inversão é importante porque a cultura frequentemente ensina, sobretudo às mulheres, que o cuidado deve ser ilimitado, silencioso e sacrificial. A boa mãe, a boa cuidadora, a boa filha, a boa profissional e a boa companheira são, muitas vezes, imaginadas como pessoas que dão conta de tudo, que não desabam, que não precisam de pausa e que não podem falhar. Quando esse ideal se encontra com as demandas reais da parentalidade atípica, o resultado pode ser uma combinação dolorosa de autocrítica, culpa, vergonha e sensação de insuficiência. O sofrimento da criança ou adolescente passa a ser vivido como prova de fracasso pessoal, mesmo quando há múltiplas variáveis envolvidas.

É nesse ponto que a autocompaixão se torna uma contribuição clínica e ética relevante. Antes de falar em autocompaixão, é preciso compreender a compaixão como uma sensibilidade diante do sofrimento acompanhada da intenção de aliviar esse sofrimento. Ela envolve dimensões emocionais e fisiológicas, quando somos tocados pela dor; dimensões cognitivas, quando reconhecemos o que está acontecendo e compreendemos sua importância; e dimensões comportamentais, quando agimos, quando possível, de modo cuidadoso e responsivo. A autocompaixão é esse mesmo processo direcionado a nós mesmos nos momentos em que sofremos, erramos, nos sentimos insuficientes ou atravessamos situações difíceis.

Na formulação proposta por Kristin Neff, a autocompaixão envolve três processos centrais: mindfulness, autobondade e humanidade em comum. Mindfulness, ou atenção plena, ajuda a reconhecer o que está acontecendo sem ficar completamente grudado ao sofrimento. A autobondade convida a responder a si com cuidado, apoio e gentileza, em vez de recorrer apenas à crítica severa. A humanidade em comum lembra que sofrer, falhar, cansar e precisar de ajuda não são sinais de defeito individual, mas aspectos compartilhados da experiência humana. Para mães, pais e cuidadores, essa lembrança pode ser profundamente reparadora: “não sou só eu”, “não estou sozinha”, “não preciso atravessar isso me tratando como inimiga”.

Também é importante desfazer um equívoco comum: autocompaixão não é autopiedade, passividade ou permissividade. Ela não ensina a pessoa a “passar pano” para tudo, a se vitimizar ou a desistir de agir. Pelo contrário, a autocompaixão pode envolver ternura e firmeza. Às vezes, ela aparece como acolhimento: “isso está difícil, eu preciso respirar”. Em outros momentos, aparece como posicionamento: “eu não preciso aceitar esse julgamento”, “eu posso estabelecer um limite”, “eu posso pedir ajuda”, “eu posso parar antes de reagir no automático”. Uma parentalidade compassiva não elimina os desafios, mas modifica a forma como a pessoa se relaciona com eles.

Concluir que quem cuida também precisa de cuidado não é romantizar a sobrecarga nem responsabilizar individualmente mães, pais e cuidadoras(es) por sofrimentos que são também sociais, econômicos, institucionais e culturais. É reconhecer que intervenções mais humanas precisam olhar para a família de maneira mais ampla. Quando a pessoa que cuida aprende a pausar, respirar, nomear o que sente e perguntar “do que eu preciso agora para responder com um pouco mais de cuidado?”, ela não está se afastando do cuidado. Ela está criando condições para que o cuidado seja menos automático, menos punitivo e menos sustentado pela culpa.

A autocompaixão pode começar exatamente nesse ponto: no reconhecimento de que não precisamos escolher entre cuidar do outro e cuidar de nós. Em muitos momentos, essas duas direções fazem parte do mesmo gesto. Colocar a própria máscara de oxigênio não é deixar alguém para trás. É lembrar que também somos parte da cena, também temos um corpo, uma história, limites, necessidades e sofrimento. E que uma prática de cuidado verdadeiramente ética precisa incluir, com a mesma seriedade, a pessoa cuidada e quem cuida.

Referências

Couto, L. P. (2023). Avaliação de estresse, bem-estar psicológico e uma proposta de intervenção na autocompaixão de cuidadores de crianças com Transtorno do Espectro Autista. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Universidade Federal do Espírito Santo. https://repositorio.ufes.br/entities/publication/57770074-9d83-4f0f-9592-a260a0b6ec50/full

Neff, K. D. (2022). Autocompaixão feroz: Como as mulheres podem fazer uso da bondade para se manifestar livremente, reivindicar seu poder e prosperar. Lúcida Letra

Neff, K. D., & Germer, C. K. (2019). Manual de mindfulness e autocompaixão: Um guia para construir forças internas e prosperar na arte de ser seu melhor amigo. Artmed

Pollak, S. M. (2019). Self-compassion for parentes: Nurture your child by caring for yourself. The Guilford Press

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Classificação do artigo
Lucas Polezi

Escrito por Lucas Polezi do Couto

Lucas é o Diretor Executivo da Lótus: Comportamento e Autocompaixão, atuando como Psicólogo registrado sob os números CRP 16/6198 e CRP 08/IS-715. Ele é graduado em Psicologia pela Pitágoras Linhares (2018). Além disso, detém título de Mestre em Psicologia (UFES), de especialista em Terapias Comportamentais Contextuais obtido no IPOG (2021) e especialista em Intervenção ABA para Autismo e Deficiência Intelectual pelo CBI de Miami (2024). Lucas é Professor Treinado no programa Mindful Self-Compassion (MSC) pelo Center Mindful Self-Compassion & Conectta Mindfulness e Compaixão (2023) e completou a Formação em Terapia Focada na Compaixão (TFC/CFT) pela Conectta Mindfulness e Compaixão (2023). Lucas trabalha com psicoterapia, avaliação psicológica, treinamento de pais e supervisão de Intervenções Baseadas em ABA, psicoterapia e avaliação psicológica. Lucas ministra aulas e treinamentos sobre ABA e Intervenções Comportamentais Contextuais.

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