No tempo de escrever esse texto já tivemos avanços com o parecer que regulamenta a psicoterapia como prática privativa aprovado na Comissão de Direitos Humanos do Senado. De fato, esse parece ser o maior avanço que temos em muito tempo em sendo uma conquista que de fato possamos vivenciar, essa vulnerabilização e tudo o que esse texto vem provocando passa a não fazer mais sentido.
Esse é um risco que ainda assim irei tomar e vou mantê-lo para que possamos tocar num ponto que ainda nos vulnerabiliza dada que a realidade ainda é a de pessoas não psicólogas poderem ofertar o serviço de psicoterapia. Nesse cenário, a provocação ainda parece ser importante, uma vez que essa fatia de mercado segue sendo disputada e que o caminho de ser uma prática privativa ainda não aconteceu.
No meu texto anterior tem a seguinte passagem:
“Uma clínica que ignora outras frentes, como fatores sociais, históricos, comunitários e políticos — estudados em grande parte por áreas dentro da Psicologia, como a Psicologia Social e a Psicologia Comunitária, e por campos do saber como as Ciências Sociais, a História e afins —, é uma clínica que ignora o paciente, pois invisibiliza aspectos que são vivenciados cotidianamente por cada um de nós. É uma clínica que contribui para a produção e manutenção do sofrimento ao se alinhar a um discurso individualizante que não dialoga com os fatores contextuais nem os conecta às causas de adoecimento”
Agora adiciono a esse trecho: que reduzir a clínica a abordagem clínica é um caminho que vulnerabiliza a todos nós que nos propomos a atender no campo da Psicologia Clínica.
Em um contexto em que temos os próprios profissionais de Psicologia acreditando que é possível fazer psicoterapia com base em conhecimentos apenas da clínica e/ou área clínica, a fragilização foi inevitável. Sobretudo num contexto neoliberal, em que toda e qualquer oportunidade vira uma oportunidade de mercado. Essa fatia chamada psicoterapia, que já é disputada há anos, agora tem uma brecha quase que pedindo para ser explorada. Afinal, se psicoterapia é somente saber sobre clínica, e clínica vira sinônimo de abordagem, então basta fazer uma faculdade de qualquer área do conhecimento e depois um curso/formação/especialização na abordagem que você escolher para atuar e, voilà, está pronto para se chamar de terapeuta, já que no Brasil psicoterapia ainda não é atividade privativa da Psicologia.
Por esse raciocínio, se a psicoterapia se reduz à abordagem e aos aspectos clínicos, então basta alguém ir se capacitando nesses temas em um mundo em que não faltam infoprodutos para tal. As outras cadeiras estudadas ao longo de uma faculdade de 5 anos são dispensáveis e não servem àqueles que não querem os outros campos de atuação. Passamos, então, a não ter mais um critério-chave de diferenciação, o que abre espaço para que profissionais de outras áreas possam preencher esse gap da parte clínica em diversos espaços de formação e de educação continuada, em um país em que não-psis ainda podem oferecer o serviço de terapia.
Esis que num mar de não psis, influencers de saúde mental que tem como única base a sua própria experiência e que viram referências para milhares de pessoas, temos nós. Tentando preservar algo que é tão caro, em tantos sentidos, e que ao mesmo tempo é tão banalizado. Banalização essa que tem muitos fatores externos, mas que encontrou eco quando passamos a reduzir o fazer clínico a abordagens que podem inclusive ser estudadas pela mesma blogueira que usava a sua vivência como base e dava “conselhos, orientações” e afins para seus seguimores e que agora pode oferecer o serviço de terapia. Afinal, ela tem a formação/cursinho naquela abordagem e isso… isso basta pra ela e para muitas outras pessoas leigas que acessarão esse recurso sem nem saberem que o produto que estão comprando não é completo e sim uma fatia do que é o fazer clínico. Indo além, fatia essa que nem se apresenta nas pesquisas com o principal fator de mudança, de eficácia e de várias outras métricas ligadas a um bom processo psicoterapêutico.

