Um boom nada aleatório das violências contra as mulheres

Não há como pensar o expressivo aumento das violências contra as mulheres (VCM) sem relacioná-lo ao avanço mundial do conservadorismo e da extrema-direita. Isso porque os casos de violência contra as mulheres (VCM) cresceram à medida que esse cenário político se expandiu (Gracino et al., 2021; Reis, 2020; Silva et al., 2024).

Para compreender esse entrelaçamento, é preciso recorrer ao passado. Sob uma perspectiva históricao conservadorismo e a extrema-direita estruturam-se sobre os chamados discursos de ódio, direcionados a grupos minorizados ou minorias sociais. Estas são definidas como grupos que, em comparação a parcelas privilegiadas da sociedade, sofrem desvantagens sistemáticas decorrentes do estigma que lhes é associado (Stuber et al., 2008). Por conta dessa vulnerabilidade, as minorias sociais enfrentam estressores específicos que se somam às tensões cotidianas comuns a qualquer indivíduo (Meyer, 2003). Enquanto as pressões do dia a dia compreendem eventos gerais que rompem o equilíbrio do organismo independentemente da condição social do sujeito (Meyer, 2015), os estressores identitários e minoritários vinculam-se diretamente a experiências de vitimização e desigualdades estruturais, tais como os altos índices de violência doméstica, a disparidade salarial e a sobrecarga na economia do cuidado.

Recentemente, esse ódio direcionado às mulheres assumiu contornos mais nítidos, personificado em representantes notórios e consolidado como um movimento multifacetado. Suas diversas vertentes disseminam discursos misóginos nas redes sociais sob uma lógica de alta monetização, o que transforma a misoginia em um mercado altamente lucrativo. Afinal, a extrema-direita atual não surge de maneira isolada e desvinculada de seu contexto; ao contrário, ela encontra no neoconservadorismo uma oportunidade significativa para fundamentar suas bases ideológicas, incluindo a misoginia como um de seus elementos fundamentais.

Esse movimento, que se consolidou como um mercado altamente rentável, é denominado masculinismo ou ‘machosfera’. Trata-se de uma ideologia profundamente patriarcal e misógina que visa revalidar práticas violentas de dominação ao categorizar as mulheres como oportunistas e antagonistas dos direitos masculinos (Lima & Silva, 2023). Configura-se, portanto, como um termo guarda-chuva para comunidades online que promovem definições cada vez mais restritas e agressivas de masculinidade, sustentando a falaciosa narrativa de que o avanço do feminismo e da igualdade de gênero ocorreu em detrimento dos direitos dos homens (Pinheiro-Machado, 2019).

A engrenagem da machosfera engloba subculturas que propagam a misoginia sob diferentes matizes discursivos. Enquanto grupos como os ativistas pelos direitos dos homens (MRAs) e os defensores da Red Pill utilizam teses de que a estrutura social favorece as mulheres, os partidários do MGTOW (Men Going Their Own Way) optam pelo isolamento voluntário do convívio com o gênero feminino. Manifestações mais extremas envolvem os incels (celibatários involuntários), que reivindicam o sexo como um direito natural e validam a violência física, e os PUAs (Pick-up Artists), focados em técnicas de manipulação e coação sexual. Toda essa cultura é estruturada por um léxico depreciativo próprio — a exemplo de jargões como AWALT (All Women Are Like That) e hypergamous, usados para essencializar o comportamento feminino —, além de termos explicitamente desumanizantes como femoids, que reduzem as mulheres a uma condição sub-humana.

Essas comunidades promovem a ideia de que o valor masculino está ligado ao controle emocional, riqueza material, aparência física e domínio — especialmente sobre as mulheres. e maneira geral, a manosfera se divide em facções de masculinidades conservadoras, conhecidas como “alpha”, e masculinidades nerds, denominadas “betas”. Conforme Vilaça e d’Andrea (2021, p. 429). Os seus representantes, denominados masculinistas são indivíduos misóginos que propagam discursos e práticas de ódio contra as mulheres, situando-as em uma posição de subordinação, enquanto advogam pela superioridade masculina nos domínios cultural, político, econômico e social (Lima e Silva, 2023). Alguns exemplos de discursos propagadas por eles envolvem frases como “essas mulheres não sabem reconhecer um homem de valor”, “querem ter um carro de alta manutenção sem saber o trabalho que isso exige”.

A misoginia funciona como o alicerce do masculinismo, um movimento estreitamente alinhado à extrema-direita que se manifesta por meio do sexismo. De acordo com o Instituto Europeu para a Igualdade de Gênero, o sexismo atrela-se a crenças sobre a natureza de mulheres e homens e os papéis que ambos devem desempenhar na sociedade. Essas suposições alimentam estereótipos de gênero que hierarquizam as relações, classificando um grupo como superior ao outro. Esse pensamento expressa-se por meio de duas facetas complementares: o sexismo benevolente e o hostil. O primeiro, sob uma roupagem aparentemente protetora ou laudatória, reforça papéis tradicionais e limita a autonomia feminina. O segundo manifesta-se através do desprezo explícito, do ódio e da desvalorização, justificando o controle e a violência. Embora a maioria das vertentes masculinistas se enquadre no sexismo hostil, o sexismo benevolente também ganha força em movimentos contemporâneos como o das ‘TradWives’ (esposas-troféu), que romantiza a submissão e a estrita divisão de papéis de gênero.

O sexismo benevolente, embora revestido de proteção e idealização, mascara uma ideologia de inferiorização semelhante à do sexismo hostil. Ao tratar a mulher como um ser intrinsecamente frágil que demanda tutela, esse modelo reforça a hegemonia masculina e perpetua desigualdades estruturais. Trata-se de uma proteção condicionada: é oferecida apenas às mulheres que aderem à performatividade de gênero, enquadrando-se em ideais tradicionais de feminilidade e submissão. Inversamente, o sistema reserva punição e hostilidade àquelas que transgridem esses papéis, frequentemente rotuladas de forma pejorativa por seus posicionamentos políticos, como as feministas.

Ambos são compostos de três diferentes componentes: o paternalismo, a diferenciação de gênero e o heterossexualismo. O paternalismo diz respeito à tendência do homem interagir com a mulher como um pai, o que implica tanto a expressão de uma figura de autoridade (paternalismo dominador ou hostil) quanto a manifestação da figura do provedor e protetor (paternalismo benevolente). A diferenciação de gênero compreende um pólo competitivo, no qual o homem, ao se identificar com seu próprio gênero, passa a desenvolver atitudes competitivas em relação às mulheres como forma de manter sua auto-estima elevada, e um pólo complementar, expresso em atitudes positivas suscitadas pelas representações a respeito dos papéis de mãe e esposa. Por fim, os homens se alternam entre o desejo de manter relações íntimas e prazerosas com as mulheres (intimidade heterossexual) e o desejo de dominá-las, em virtude de se sentirem ressentidos com a vulnerabilidade que demonstram nas relações íntimas (hostilidade heterossexual).

Em suma, embora as vertentes da machosfera se multipliquem e ramifiquem continuamente com o passar do tempo, suas premissas, ainda que aparentemente distintas, convergem para um mesmo núcleo estruturante. O fio condutor que unifica e articula todas essas comunidades é, invariavelmente, a misoginia. Manifestado ora de forma escancarada e violenta, ora de maneira disfarçada e benevolente, esse ódio direcionado às mulheres encontra sua validação e sustentação ideológica nas engrenagens do neoconservadorismo e da extrema-direita.

 

Referências

Avanço conservador na educação brasileira: uma proposta de governo pautada em polêmicas (2018). (2020). Revista Cantareira, (33). https://periodicos.uff.br/cantareira/article/view/40563

Barreto, M., & Doyle, D. M. (2023). Benevolent and hostile sexism in a shifting global context. Nature Reviews Psychology, 2(2), 98–111. https://doi.org/10.1038/s44159-022-00136-x

Ferreira, M. C. (2004). Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero. Temas em Psicologia, 12(2), 119-126. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2004000200004&lng=pt&tlng=pt

Gracino Junior, P., Goulart, M., & Frias, P. (2021). “Os humilhados serão exaltados”: ressentimento e adesão evangélica ao bolsonarismo. Cadernos Metrópole, 23(51), 547–579. https://doi.org/10.1590/2236-9996.2021-5105

ONU Mulheres. (2023, 20 de setembro). O que é a ‘machosfera’ e por que devemos nos preocupar? https://www.onumulheres.org.br/noticias/o-que-e-a-machosfera-e-por-que-devemos-nos-preocupar/

Silva, B. C. de S. L. e, & Chacham, A. S. (2024). De “merdalheres” a “conservadias”: o discurso de ódio masculinista. Plural, 31(1), 252-275. https://doi.org/10.11606/issn.2176-8099.pcso.2024.223289

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Escrito por Isabelle Poli

Sou Psicóloga Clínica formada pela PUC-Rio, onde também concluí o mestrado em Psicologia Clínica na linha de psicologia social, com um projeto de pesquisa voltado para a violência psicológica contra as mulheres praticada por parceiros íntimos. Atualmente, sou doutoranda em Psicologia Clínica pela mesma instituição, na linha de psicologia social, desenvolvendo uma intervenção multinível de terapia em grupo para mulheres sobreviventes de violências contra as mulheres por parceiros íntimos, informada pelo modelo ecológico de Heise, que articula ACT, advocacy e fortalecimento, trabalhando assim na interface da clínica e das políticas públicas.

Tenho pós-graduação em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pelo Centro Brasileiro de Ciência Comportamental Contextual (Ceconte) e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo Centro de Psicologia Aplicada e Formação (CPAF). Também sou formada em Terapia Cognitivo-Comportamental para grupos minorizados pelo grupo ofertada pelo Instituto Carioca de Terapia Cognitivo Comportamental (FOCO). Além disso, possuo Domínio Adicional, que consiste em Cursos Superiores de Complementação de Estudos, em Neurociências e Cognição pela PUC-Rio.

No âmbito acadêmico e docente, fui professora universitária nas cadeiras de Ética Profissional, Inclusão e Diversidade Humana, Psicologia Social, Psicopatologia e Tópicos Especiais em Psicologia. Atualmente, leciono em formações e pós-graduações, como na Formação em Terapias Contextuais para Minorias, ministrada pela Prof. Dra. Luana Pereira na plataforma Ello, e atuo como colunista no Comporte-se. No enfrentamento das violências contra as mulheres, atuei em duas frentes voluntárias: o Mapa do Acolhimento e a Comissão de Violência Doméstica da OAB do RJ.

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