Entrevista – Drs Denis Zamignani e Roberto Banaco: Definindo a Terapia Analítico-Comportamental e sua relação com outros modelos clínicos

Convidamos Denis Roberto Zamignani e Roberto Alves Banaco para falarem sobre a Terapia Analítico-Comportamental, suas características, seu entendimento de processos comportamentais complexos e sua relação com outros modelos de trabalho em psicologia clínica, como as Terapias Contextuais e a Prática Baseada em Evidências. Os dois estão entre os mais importantes terapeutas analítico-comportamentais do país, tanto pela contribuição científica à área, quanto pelo trabalho na formação de outros profissionais de excelência. Confira o minicurrículo deles ao final da entrevista.

Comporte-se: Que características a prática clínica de um profissional precisa ter para que ela possa se denominar, de forma precisa, como um “Terapeuta Analítico-Comportamental”?

Denis/Banaco: Para que um profissional se denomine como terapeuta analítico-comportamental, é necessário que sua prática esteja fundamentada nos princípios filosóficos e conceituais da Análise do Comportamento. Isso implica assumir uma concepção monista e materialista do comportamento humano, na qual os fenômenos psicológicos são compreendidos como interações historicamente constituídas entre organismo e ambiente, e não como expressões de entidades internas metafísicas, como “mente” ou “inconsciente”.

Do ponto de vista filosófico, o terapeuta deve se orientar pelo Behaviorismo Radical e pelo Contextualismo Funcional, modelos que rejeitam explicações internalistas e priorizam a análise da função do comportamento em contextos específicos. Isso significa reconhecer que todo comportamento — incluindo cognições, emoções e sentimentos — é passível de análise científica, desde que abordado como parte de uma relação funcional com variáveis ambientais passadas e presentes. A seleção por consequências, operando nos níveis filogenético, ontogenético e cultural, é o modelo explicativo central para a compreensão do comportamento.

No plano técnico, o terapeuta analítico-comportamental deve ser capaz de realizar análises idiográficas de contingências, construindo hipóteses sobre a função de comportamentos específicos a partir da história de aprendizagem do cliente e das contingências atuais. A intervenção clínica é orientada por essas hipóteses, e não por categorias diagnósticas ou protocolos pré-estabelecidos. Isso exige habilidades como: (a) identificar contingências que mantêm padrões comportamentais, o que inclui (a1) identificar as fontes de reforçadores disponíveis, caso existam; (a2) identificar se há fontes conhecidas de reforçadores que, no presente, deixaram de sê-lo; (a3) procurar por novas e mais efetivas fontes de reforçadores e (a4) identificar respostas já presentes em seu repertório comportamental que estejam em relação funcional com essas fontes de reforçamento para acioná-las. As mesmas habilidades são exigidas com relação à identificação de fontes de estimulação aversiva ainda em operação e a observação e eventualmente o teste de fontes que não os liberam mais; (b) identificar operações motivadoras e estímulos discriminativos relevantes; (c) promover variabilidade comportamental e novas relações funcionais; (d) intervir sobre processos verbais e molduras relacionais com base em sua função, e não em seu conteúdo; (e) compreender o comportamento como um fenômeno complexo e multideterminado.

Compreender o comportamento como multideterminado significa reconhecer que uma classe de respostas raramente é fruto de uma única variável. O comportamento é resultado da confluência de diversas fontes de controle — operantes, respondentes, verbais, culturais, emocionais, relacionais — que operam simultaneamente e em interação dinâmica. Assim, uma resposta não deve ser explicada apenas por sua consequência imediata ou por um estímulo antecedente isolado, mas deve ser entendida como produto de uma história de reforçamento ampla, da situação presente, das relações verbais em que o sujeito está imerso, das operações motivadoras que modulam o valor dos estímulos, e do modo como o self foi constituído na história daquele indivíduo. Isso exige do terapeuta uma escuta analítica e sensível, capaz de identificar e integrar múltiplos níveis de análise para formular intervenções consistentes, abrangentes e contextualmente ajustadas.

O terapeuta também deve considerar o cliente como um sujeito situado histórica e culturalmente, cuja linguagem, afetos e repertórios foram moldados em contextos sociais específicos. Assim, o trabalho clínico não se restringe à resolução de sintomas, mas visa o desenvolvimento da autonomia, da flexibilidade comportamental e de permitir ao cliente identificar direções de vida valorosas, agir em função de seus valores e estabelecer uma relação mais funcional e significativa com sua experiência.

O terapeuta analítico-comportamental exerce sua função como um cientista do comportamento em contexto clínico. Ele formula hipóteses a partir da história do cliente identificando, a partir dos seus relatos, as possíveis relações de contingências já descritas por processos básicos e complexos, testa intervenções embasadas na análise de contingências, observa resultados e reformula continuamente suas estratégias com base em evidências funcionais, de forma ética, técnica e sensível. Mais do que aplicar técnicas padronizadas, esse profissional atua de forma investigativa, pensando funcionalmente sobre o comportamento humano e promovendo mudanças significativas por meio da reorganização das relações do cliente com seu ambiente.

Comporte-se: Nos últimos anos, chegaram ao Brasil diversos modelos americanos de terapias comportamentais, como a Terapia de Aceitação e Compromisso, a Psicoterapia Analítica-Funcional e a Terapia Comportamental Dialética. De que forma a chegada delas influenciou a prática dos Terapeutas Comportamentais brasileiros?

Denis/Banaco: Esses modelos comportamentais contemporâneos, muitas vezes denominados por “terapias de terceira geração” ou mais atualmente por “terapias contextuais”, trouxeram contribuições importantes para o campo clínico ao enfatizarem processos como aceitação, mindfulness, estabelecimento de valores e a relação terapêutica como mecanismos centrais de mudança. No Brasil, a chegada dessas terapias promoveu um novo interesse pela clínica comportamental de base skinneriana, ampliando o diálogo com temas como sofrimento existencial, regulação emocional e intervenções baseadas em processos transdiagnósticos.

Contudo, essa influência também trouxe desafios. Em muitos casos, os modelos foram importados com pouca contextualização histórica ou epistemológica, sendo confundidos com substitutos da Análise do Comportamento Clínica ou aplicados de forma rudimentar, protocolar e desarticulada da análise funcional. Para terapeutas que se fundamentam na TAC, é crucial reconhecer os pontos de convergência com esses modelos — como o foco na função do comportamento em processo atual e na relação terapêutica — sem perder de vista a necessidade de intervenções idiográficas, fundamentadas em história de vida e contingências atuais.

A TAC no Brasil é o resultado de décadas de desenvolvimento teórico, clínico e metodológico que articulam competências terapêuticas (muitas delas descritas no Sistema multidimensional para a categorização de comportamentos na interação terapêutica, o SiMCCIT), análise de comportamentos relevantes para a análise do comportamento aplicada à clínica, categorização de episódios verbais e reflexões sobre controle aversivo. Nestes anos de estudo e construção da TAC enquanto modalidade terapêutica, foram sendo encontradas, e às vezes assumidas ou assimiladas, aproximações procedimentais da ACT e da FAP. Alguns desses procedimentos já eram praticados no Brasil antes do surgimento desses modelos, mas não estavam tão solidamente organizados em torno de um protocolo estruturado de intervenções. Uma vez que essa organização foi apresentada pela literatura internacional, terapeutas brasileiros passaram a consumir essa literatura e adotar esses procedimentos. Por exemplo, já trabalhávamos – e já havia uma sistematização na literatura – com classes de comportamentos importantes para a análise e a intervenção sobre a relação terapêutica, mas ainda não tínhamos dado um nome a elas. Quando foi encontrada na literatura da FAP a conceituação de “Comportamentos Clinicamente Relevantes” (CCRs), essa nomenclatura passou a ser imediatamente assumida por nós para nos referirmos a tais classes. Porém a classificação das classes de CCRs em tipos 1, 2 e 3, foi totalmente importada e assumida, porque ela se mostrou coerente com tudo que fazíamos – e não havíamos ainda chegado a tal nível de organização conceitual. Portanto, mais do que aderir indiscriminadamente ou imitativamente a essa “terceira onda”, a prática do terapeuta analítico-comportamental manteve seu compromisso com a análise funcional, com a seleção por consequências e com o desenvolvimento de conhecimento local, culturalmente sensível e eticamente orientado, mas levando em consideração os avanços dos colegas de fora do país que estavam desenvolvendo trabalhos bem similares, certamente por beberem, como nós, da fonte de conhecimento produzido pela Análise Experimental do Comportamento.

Comporte-se: Nos últimos anos, há um movimento crescente da Prática Baseada em Evidências no Brasil. Uma das premissas da Prática Baseada em Evidências é de que o melhor tipo de estudo para avaliar a eficácia de uma terapia é o Ensaio Clínico Controlado Randomizado. Neste contexto, diversos tratamentos já se mostraram eficazes para diferentes problemas em saúde mental diagnosticáveis (ex.: Depressão, Transtornos de Ansiedade diversos etc) e não diagnosticáveis (ex.: comportamento suicida, autocrítica, perfeccionismo, problemas de casal etc). De que forma o terapeuta Analítico-Comportamental pode tratar estes achados?

Denis/Banaco: O movimento da Prática Baseada em Evidências (PBE) trouxe contribuições inegáveis para a psicoterapia, especialmente ao promover a sistematização de procedimentos e o uso de evidências empíricas para embasar decisões clínicas. No entanto, é fundamental reconhecer que a Terapia Analítico-Comportamental (TAC), alicerçada em uma análise funcional idiográfica, opera sob pressupostos distintos dos modelos protocolares validados por ensaios clínicos randomizados (RCTs).

Enquanto terapias estruturadas frequentemente adotam roteiros predeterminados, a TAC prioriza intervenções personalizadas, construídas a partir de observações e auto-observações contínuas ao longo do processo terapêutico. Essas intervenções são aplicadas em momentos específicos da interação, quando os fenômenos comportamentais se manifestam, permitindo ajustes em tempo real conforme as mudanças são identificadas. Essa flexibilidade não apenas se alinha aos princípios do behaviorismo radical, mas também reforça a importância da análise funcional das relações entre comportamento e ambiente (Zamignani & Meyer, 2007; Zamignani, Silva-Neto & Meyer, 2008).

A TAC é um modelo de psicoterapia que, desde sua origem, preza pela produção de conhecimento empírico e pela validade científica de seus procedimentos. Contudo, sua fundamentação teórica, filosófica e metodológica a leva a adotar um modelo de investigação alternativo aos Ensaios Clínicos Randomizados. Os estudos de RCTs, embora úteis em certos contextos, apresentam limitações significativas: (a) Amostras não representativas: Os participantes de RCTs são frequentemente monossintomáticos, selecionados por critérios rígidos que excluem comorbidades e complexidades típicas da clínica real. Isso cria um abismo entre os cenários de pesquisa e a prática cotidiana, onde os clientes trazem repertórios amplos, histórias multifacetadas e demandas que transcendem categorias diagnósticas. (b) Protocolos rígidos: A padronização exigida pelos RCTs reduz o processo terapêutico a protocolos parciais e inflexíveis que, em última análise, não podem ser considerados como processos terapêuticos. (c) Instrumentos de medida limitados: Os desfechos são frequentemente avaliados por escalas de autorrelato, que restringem a mudança a sintomas pré-definidos no próprio diagnóstico. Esse enquadre pode induzir vieses, como a expectativa de melhora ou o desejo de corresponder às expectativas do pesquisador, sem necessariamente refletir transformações significativas na qualidade de vida ou na relação do cliente com seu contexto. (d) Fragilidade metodológica: Delineamentos do tipo A-B, comuns em pesquisas de resultado, são reconhecidamente frágeis. Para contornar essa limitação, recorre-se a grandes amostras e estatísticas avançadas, mas isso não resolve o problema da validade ecológica — ou seja, até que ponto os achados se aplicam a situações reais.

A ausência de evidências derivadas de RCTs não significa que a TAC careça de rigor científico. Pelo contrário, seus princípios são respaldados por décadas de pesquisa experimental, incluindo: Estudos de sujeito único e séries temporais, que permitem análise detalhada de processos comportamentais; Investigação de processo-resultado, com métodos qualitativos e quantitativos; Pesquisas sobre comportamento verbal, controle por contingências e molduras relacionais, que fornecem subsídios para intervenções clínicas. A principal força da TAC reside nas replicações sistemáticas. Em vez de testar “pacotes” de intervenção, a Análise do Comportamento investiga componentes específicos, suas variações e aplicações em diferentes contextos. Esse método gera evidências robustas sobre processos comportamentais, priorizando a reprodutibilidade e a consistência dos achados.

Um ponto crítico negligenciado por modelos protocolares é que toda intervenção afeta o repertório comportamental como um todo. Mudanças em uma resposta podem alterar a probabilidade de outras, reorganizando contingências de modo não linear. Como consequência, a intervenção não pode ser rigidamente planejada passo a passo, pois a cada nova mudança o terapeuta deve reavaliar o estado do repertório global e suas novas relações funcionais. O Matching Law (Herrnstein, 1970; McDowell, 1988), por exemplo, ilustra como comportamentos competem e se distribuem conforme a disponibilidade de reforços, evidenciando a dinâmica complexa que subjaz à terapia. Além disso, intervenções terapêuticas são compostas por múltiplos componentes, cada um com efeitos específicos. Isolar esses elementos para estudo é válido, mas sua eficácia em contextos combinados — como ocorre na clínica — nem sempre é previsível. Os RCTs, ao tratarem protocolos como variáveis independentes únicas, ignoram justamente essa interação.

A TAC, portanto, pode (e deve) dialogar com a PBE, desde que esse diálogo respeite suas diferenças epistemológicas. É essencial que o campo da psicoterapia reconheça a importância de metodologias diversificadas — como estudos de processo, análises funcionais idiográficas e pesquisas de replicação — para capturar a riqueza e a complexidade das intervenções analítico-comportamentais. Afinal, a ciência não se faz apenas com protocolos padronizados, mas com perguntas bem formuladas e métodos adequados aos fenômenos que buscamos entender.

Comporte-se: Para um Terapeuta Analítico-Comportamental, o que são cognições e qual o papel delas na determinação de outros comportamentos? De que forma este entendimento influencia o trabalho do Terapeuta Analítico-Comportamental com as cognições na Prática Clínica?

Denis/Banaco: Na perspectiva analítico-comportamental, cognições são compreendidas como comportamentos verbais privados — isto é, respostas encobertas que seguem as mesmas leis de seleção por consequências que qualquer outro comportamento. Pensamentos, crenças, expectativas e raciocínios não se originam de modo “espontâneo” de dentro do indivíduo; trata-se de comportamentos, e não causas internas de comportamentos observáveis. No entanto, isso não significa que não participem da cadeia de determinação comportamental. Ao contrário, cognições podem funcionar como elos dentro de cadeias comportamentais mais amplas, articulando-se a eventos externos e a respostas abertas.

Um evento externo — como uma situação social — pode funcionar como estímulo discriminativo ou operação motivadora, evocando eventos privados como sensações, emoções ou pensamentos. Esses eventos, por sua vez, também são comportamentos historicamente aprendidos e podem se encadear em processos cognitivos complexos, como avaliação de riscos ou tomada de decisão. Esses processos não são causas internas no sentido cartesiano, mas elos funcionais que influenciam a probabilidade de emissão de respostas abertas, como falar, evitar, aproximar-se ou permanecer em silêncio.

Outro aspecto importante é um elemento observado em um episódio comportamental pode exercer diferentes funções, dependendo do recorte da análise. Um pensamento pode ser uma resposta, por exemplo no episódio: uma menina olha-se no espelho e pensa: “estou feia!”. Mas essa mesma resposta pode ser uma consequência, se formos analisar o processo pelo qual ela chegou a pensar assim. Nesse processo, ela fez uma série de comparações (outras respostas) entre o jeito que ela está vestida neste momento e a sua cantora ídolo, e encontra diversas dissemelhanças. Portanto para as respostas de comparação, a resposta “estou feia!” é a consequência. Se ainda, no episódio, a partir da constatação da dissemelhança e da frase “estou feia!” falada apenas para si própria (um pensamento!), a menina pode trocar de roupa e voltar ao início do processo. Neste caso, a resposta “estou feia!” serve, na análise, como um estímulo discriminativo para a resposta de trocar de roupa, ou seja, um estímulo antecedente a uma resposta (trocar de roupa) que tenha uma chance maior de ser reforçada! E várias outras funções… dependendo do episódio e de qual relação funcional estivermos querendo analisar. Os elementos não são respostas, estímulos antecedentes ou consequentes em si. Eles só os serão em uma análise que recortará um pedaço do processo para a análise.

O ponto chave está na seleção realizada pelas mudanças que a ação provocará no ambiente. Quando a resposta aberta é emitida e produz consequências ambientais, essas consequências operam retroativamente sobre todos os elos da cadeia comportamental que as antecederam — incluindo os eventos privados e as cognições que participaram dela. Assim, tanto a ação pública quanto a sequência de cognições que a antecedeu têm sua probabilidade de ocorrência modificada por essas consequências. Esse modelo nos permite compreender a importância dos eventos privados sem atribuir-lhes um status de causalidade mentalista.

Na prática clínica, esse entendimento leva o terapeuta a tratar as cognições como componentes funcionais de uma contingência mais ampla. Ainda assim, isso não exclui a possibilidade — e, em muitos casos, a necessidade — de intervenções que modifiquem o controle verbal. O comportamento verbal participa ativamente da atribuição de função a eventos: a partir da interação com a comunidade verbal, um indivíduo aprende que determinados eventos têm valor como antecedentes, consequências, ou que o próprio ato de responder tem valor em si. O self, enquanto classe de estímulos autocontrolados e nomeados socialmente, também adquire funções reforçadoras (ou aversivas) a partir dessas interações.

Durante o processo terapêutico, o cliente passa a interagir com uma nova comunidade verbal — o terapeuta — e essa interação pode alterar o valor de estímulo de eventos anteriormente controladores. Isso pode ocorrer por meio de intervenções reflexivas, experimentações propostas, análises colaborativas de significado ou evocação de novas formas de relação com eventos afetivos e sociais. Assim, o objetivo não é mudar a cognição como forma ou conteúdo, mas modificar suas funções reforçadoras, ampliar sua flexibilidade contextual e enriquecer a rede de contingências que sustentam a autonomia do cliente. Em última instância, essa é uma forma de ampliar a variabilidade do responder verbal e afetivo, com base na história de vida, nos valores do cliente e na função clínica das intervenções.

Comporte-se: A Análise Funcional é uma estratégia central da Terapia Analítico-Comportamental, ainda assim, parece um desafio para muitos terapeutas. Em sua avaliação como supervisor e professor, quais são as principais dificuldades enfrentadas pelo terapeuta na realização de Análises Funcionais? Que caminhos adotar para superá-las?  

Denis/Banaco: Antes de tudo, é importante esclarecer que, tecnicamente, o termo “análise funcional” refere-se à manipulação experimental de variáveis com o objetivo de verificar hipóteses sobre relações funcionais entre estímulos e respostas. Em contextos clínicos, o que realizamos é mais propriamente denominado “análise de contingências” ou “interpretação funcional”, já que não manipulamos variáveis de forma controlada, mas construímos hipóteses a partir da observação clínica, da escuta e da história do cliente. Apesar disso, o termo “análise funcional” tem sido amplamente utilizado para se referir a esse processo de formulação clínica funcional, e é nesse sentido que a pergunta será aqui considerada.

Para se fazer uma boa análise de contingências o terapeuta, primeiramente, precisa compreender o comportamento operante enquanto uma classe de respostas. O conceito de classe de respostas é crucial por permitir análise de vários níveis. Algumas vezes, se ficarmos focados apenas em analisar classes simples, podemos não encontrar o problema e, dessa forma, nem a saída desse problema. Mas se ampliarmos a classe para uma classe de ordem superior àquela que estamos focalizando, é possível encontrarmos o problema e começarmos a planejar a saída dele. E aqui vem mais um problema.

O melhor método de instalação de uma resposta nova é o método de modelagem por aproximações sucessivas por meio de reforçamento diferencial. Porém o terapeuta só será capaz de se utilizar desse método se ele tiver clareza sobre (1) os objetivos comportamentais que ele tiver para esse cliente e (2) se ele souber decompor o comportamento alvo em classes gradativamente mais simples, até que ele encontre (3) o repertório atual do cliente no momento do atendimento. Sem o conhecimento desses elementos, o processo terapêutico será por tentativa e erro. É por essa razão que é essencial a formulação de caso clínico, que traz à mesa de análise todos esses elementos.

A análise de contingências, sistematizada por meio da formulação do caso é, de fato, o núcleo conceitual e técnico da prática analítico-comportamental, mas sua execução exige muito mais do que o domínio de categorias conceituais. Ela requer sensibilidade clínica, escuta qualificada, raciocínio contextual e capacidade de operar com múltiplos níveis de complexidade simultaneamente. Um dos desafios recorrentes enfrentados por terapeutas em formação é a tendência a se apoiar em classificações descritivas, como “ansiedade”, “evitação” ou “baixa autoestima”, em vez de construir hipóteses sobre as contingências que mantêm tais respostas. Nesses casos, o que se realiza na clínica é uma interpretação funcional — uma leitura hipotética sobre as variáveis que influenciam o comportamento.

Outro erro frequente é a confusão entre topografia e função. Focar no que a pessoa faz (a forma) sem perguntar para que ela faz (a função) leva o terapeuta a perder de vista o que mantém aquele padrão. A mesma resposta — por exemplo, o silêncio — pode ter funções completamente distintas: fuga, punição, busca de controle, pedido de cuidado. Sem investigar essas variáveis, a intervenção perde precisão.

Além disso, muitos terapeutas esperam da análise de contingências uma certeza definitiva, quando na realidade ela é uma construção hipotética, dinâmica e sujeita a revisões contínuas. Ela se aproxima mais de um processo investigativo clínico do que de um modelo fixo. A cada sessão, novas informações podem reorganizar a hipótese funcional anterior. É preciso tolerância à ambiguidade e habilidade de formular e reformular constantemente.

Um ponto crucial, e pouco enfatizado, é que a análise de contingências não precisa seguir, rigidamente, o modelo de três termos. Em muitos casos, uma relação simples entre resposta e consequência (dois termos) é suficiente para compreender um padrão. Em outros, será necessário incluir o estímulo antecedente como discriminativo, compondo uma tríplice contingência. Em situações mais complexas, entram em cena as operações motivadoras, os estímulo contextuais, relações verbais historicamente estabelecidas ou mesmo a constituição do self. A interpretação funcional pode, assim, envolver dois, três, cinco ou mais termos, dependendo da necessidade de capturar os elementos que determinam o comportamento.

O self, nesse sentido, opera como um estímulo contextual altamente relevante. Em certos casos, o padrão de responder do cliente é controlado por uma autodescrição historicamente reforçada, como “eu não volto atrás” ou “eu preciso ser sempre forte”. Essas autodeclarações, ou molduras relacionais envolvendo o self, modulam a forma como ele discrimina os estímulos da situação presente e como avalia as consequências. Nesse cenário, promover mudanças no comportamento pode requerer intervenções reflexivas que visem transformar o valor funcional dessas autodescrições — não como instrução direta, mas como uma reorganização da relação do cliente com suas próprias histórias e valores.

Isso nos mostra que realizar uma análise de contingências em clínica é, na prática, elaborar uma formulação de caso que articula as contingências imediatas de manutenção da resposta com aspectos mais amplos da história de desenvolvimento, da constituição do self, das molduras relacionais e das experiências afetivas do cliente. A função de uma resposta se compreende na trama das contingências atuais e também das histórias que o cliente conta sobre si mesmo — histórias essas construídas e mantidas em contextos culturais, relacionais e afetivos específicos.

Para tanto, o terapeuta precisa de formação continuada, supervisão consistente e familiaridade com instrumentos de análise de processo, como o SiMCCIT, que permite descrever padrões na interação terapêutica. Mais do que técnica, a interpretação funcional exige uma postura ética, sensível e investigativa — um olhar que reconhece a complexidade do comportamento humano e resiste à tentação de explicações simplificadas.

Comporte-se: A Análise do Comportamento possui um recorte externalista para a compreensão do comportamento humano. De que forma isso influencia, por exemplo, o entendimento e o trabalho do terapeuta Analítico-Comportamental com processos como cognições?

Denis/Banaco: A Análise do Comportamento, especialmente em sua vertente radical proposta por Skinner (1953), adota um recorte externalista para compreender o comportamento humano. Isso significa que tanto os comportamentos observáveis quanto os chamados “eventos privados” — como pensamentos e sentimentos — são analisados em função de suas relações com o ambiente. A lógica desse modelo é que todo comportamento, seja ele público ou privado, é influenciado por interações históricas e atuais com o meio, sendo produto de contingências ambientais.

Dessa forma, o ponto de partida para a análise é sempre o operante (ou a classe de respostas) em interação com seus contextos. Isso não significa ignorar a dimensão subjetiva do sujeito, mas analisá-la com base em sua história de reforçamento e nos contextos verbais e não verbais em que esses comportamentos foram moldados. Na prática clínica, essa perspectiva tem implicações significativas para o trabalho com processos cognitivos. Ao invés de tratar cognições como causas autônomas do comportamento, o terapeuta analítico-comportamental as entende como respostas aprendidas — historicamente selecionadas e funcionalmente relacionadas a estímulos ambientais, sociais e verbais. O foco da intervenção não é corrigir o conteúdo das cognições, mas investigar suas funções: em quais contextos surgem? Que consequências produzem? Que estímulos as antecedem? A partir dessas respostas, o terapeuta busca modificar a relação do cliente com essas cognições e as contingências que as mantêm.

Nesse sentido, destacam-se as intervenções reflexivas e a interpretação clínica como práticas fundamentais. Ambas são estratégias verbais que não têm como objetivo imediato promover uma mudança de comportamento por instrução direta, mas sim favorecer o desenvolvimento do autoconhecimento do cliente. Ao ajudar o cliente a discriminar as variáveis de controle do próprio comportamento, o terapeuta amplia a capacidade do cliente de responder diferentemente a essas variáveis — e, eventualmente, de reorganizar suas próprias contingências.

Esse processo inclui reconhecer que, muitas vezes, não é possível alterar o ambiente externo. O que pode ser transformado é a maneira como o sujeito responde a ele. Assim, a mudança terapêutica ocorre por meio da construção de novas relações com as contingências — e esse é um processo profundamente verbal, relacional e histórico. Ao descrever e nomear padrões, o cliente amplia sua capacidade de operar sobre eles com maior flexibilidade.

Isso se aplica também à aceitação de sentimentos desagradáveis. Algumas contingências da vida, por sua própria natureza, envolvem dor, desconforto, frustração. No entanto, o cliente pode aprender a permanecer em contato com essas contingências se elas estiverem associadas a valores pessoais e objetivos significativos. A ACT enfatiza esse processo com clareza, mas essa também é uma premissa da TAC: o desenvolvimento da autonomia requer a capacidade de manter-se responsivo mesmo sob o efeito de eventos privados aversivos. Isso envolve tolerância ao desconforto, regulação emocional, ampliação da variabilidade comportamental — todos eles processos que podem ser abordados como comportamentos aprendidos, e não como estruturas internas determinantes.

O recorte externalista, portanto, não nega os eventos privados. Pelo contrário, ele os contextualiza, oferecendo ao terapeuta ferramentas conceituais e técnicas para intervenções que são não coercitivas, eticamente orientadas e transformadoras para o cliente.

Comporte-se: Diante do cenário atual da Psicoterapia brasileira, que conselhos você daria para profissionais que desejem se aperfeiçoar como Terapeutas Analítico-Comportamentais?

Denis/Banaco: Aos profissionais que desejam se aperfeiçoar como terapeutas analítico-comportamentais, sugeriríamos a um caminho baseado em três pilares: fundamento conceitual, prática supervisionada e postura ética-reflexiva. Em primeiro lugar, é essencial dominar os fundamentos epistemológicos e filosóficos da Análise do Comportamento. Isso significa compreender a lógica da seleção por consequências, os princípios de reforçamento, extinção, punição, controle por estímulos, o papel da linguagem e dos eventos privados — mas, principalmente, desenvolver a capacidade de pensar funcionalmente sobre o comportamento humano, indo além de descrições topográficas ou classificações diagnósticas.

Em segundo lugar, é necessário ter contato com a prática clínica de maneira supervisionada. A análise funcional, a intervenção verbal e a construção do vínculo terapêutico são habilidades complexas que se desenvolvem com tempo, reflexão e apoio técnico. Supervisões que valorizem a escuta, o raciocínio clínico e o manejo ético do processo terapêutico são fundamentais. Não se trata de aplicar técnicas, mas de formular casos, acompanhar processos e intervir de maneira sensível e funcional.

Por fim, há um aspecto muitas vezes negligenciado: a postura ética e crítica frente à prática clínica. Isso inclui reconhecer os limites da própria formação, evitar o uso de jargões sem compreensão funcional, respeitar a singularidade do cliente e estar atento aos riscos do controle coercitivo. Também envolve assumir que o terapeuta é parte ativa da contingência terapêutica — e que sua forma de se relacionar com o cliente pode evocar, manter ou transformar padrões comportamentais.

Dizemos isso com base em uma observação cada vez mais frequente: muitos profissionais têm abandonado a complexidade da TAC em favor de modelos mais simplificados, com protocolos prontos e diretrizes fáceis de aplicar. Embora esses modelos tenham seu valor — e não o descartamos —, sua adoção acrítica, sem compreensão conceitual dos processos que sustentam a mudança, pode levar a uma prática rasa, mecânica e, muitas vezes, ineficaz. A simplificação metodológica pode facilitar a aprendizagem inicial, mas empobrece a prática do profissional, bem como a profundidade da intervenção quando não acompanhada de uma base sólida em análise funcional e compreensão contextual do comportamento.

A TAC é um modelo criado no Brasil, por terapeutas brasileiros, a partir dos pressupostos da Análise do Comportamento, e que sempre dialogou com os avanços da área — incluindo as terapias de terceira geração e a prática baseada em evidências. No entanto, também temos o compromisso de questionar como essas práticas têm sido apresentadas no país.

É preciso, portanto, olhar criticamente para a literatura, para os modelos importados e para a mercantilização das terapias. A TAC não é um produto de mercado; é um modelo construído coletivamente, que se espalhou por todo o território nacional, e que responde a demandas clínicas reais de nossa cultura. Dizer que é “só brasileira” é ignorar a potência e a diversidade cultural do nosso país. Trata-se de um modelo “open source”, constantemente desenvolvido e aprimorado por terapeutas de diferentes regiões do Brasil – um país continental – e que precisa ser reconhecido como tal.

Finalmente, não se trata de rejeitar os modelos manualizados, mas de entender que eles devem ser compreendidos como sistemas complexos constituídos por componentes — cada um com processos comportamentais específicos — que podem ser adaptados e integrados em intervenções mais amplas, individualizadas e sensíveis ao contexto do cliente. Essa é a riqueza da TAC: a possibilidade de integrar, criar, analisar e transformar — com rigor, ética e profundidade.

Minicurrículo dos Entrevistados

Denis Roberto Zamignani é Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo; psicólogo e mestre em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Analista do comportamento acreditado pela Associação Brasileira de Ciências do Comportamento – ABPMC. Docente do Programa de Mestrado Profissional em Análise do Comportamento Aplicada no Instituto Par Ciências do Comportamento. Diretor acadêmico da Comunidade DíadeLab – plataforma digital de ensino em análise do comportamento, onde coordena junto a Gabriel Cândido o curso de especialização em Terapia Analítico-Comportamental – Terapia Baseada em Processos. É sócio da ABPMC desde 1994, da qual é atualmente membro do Conselho Consultivo, foi Presidente da gestão 2015-2016, vice-presidente da gestão 2010-2011, membro eleito do Conselho Consultivo, gestão 2013-2014 e membro eleito da Comissão de Acreditação de Analistas do Comportamento, gestão 2014. É membro da Sociedade Brasileira de Psicologia. Coordenador do Laboratório de Estudos de Processo-Resultado em Terapia Analítico-Comportamental (TACn1) no Instituto Par. Fundador da REDETAC – Rede de Colaboração Interinstitucional para a Pesquisa e o Desenvolvimento das Terapias Analítico-Comportamentais. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em intervenção terapêutica, pesquisa em psicoterapia e formação profissional do psicólogo, atuando principalmente nos seguintes temas: terapia analítico-comportamental, pesquisa de processo-resultado em psicoterapia, estresse de minoria e população LGBTQIAPN+ e ensino de análise do comportamento.

Roberto Alves Banaco é Graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1981), mestre em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (1984) e doutor em Ciências (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (1988). Atualmente é professor e pesquisador no Instituto Par- Educação. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Tratamento e Prevenção Psicológica, atuando principalmente nos seguintes temas: análise do comportamento, análise experimental do comportamento, terapia analítico-comportamental, terapia comportamental e análise do comportamento aplicada. É membro vitalício do Conselho da Associação Braslieria de Psicologia e Medicina Comportamental, de onde é acreditado como Analista do Comportamento. Sócio da Sociendade Brasileira de Psicologia.

5 4 votes
Classificação do artigo
Avatar photo

Escrito por Portal Comporte-se

O Comporte-se: Psicologia e Análise do Comportamento foi criado em 2008 e é hoje o principal portal de Análise do Comportamento do Brasil. Nele você encontra artigos discutindo temas diversos à partir do referencial teórico da abordagem; dicas de filmes, livros, periódicos e outros materiais; entrevistas exclusivas; divulgação de cursos, promoções, eventos e muito mais.

Rivalidade Feminina: reforço cultural ou escolha individual?

O Lugar da Religião no Setting Terapêutico