O país mais ansioso do mundo, o rivotril e as “meditações” com celebridades

Há mais de 10 anos, quando comecei minha jornada acadêmica no universo dos estudos sobre religiões orientais, enquanto fazia um mestrado em Ciência da Religião (UFJF-MG), eu não imaginava que o Brasil inteiro estaria “indo para a cama” com o Cauã Reymond. E não é “ir para cama” para fazer aquilo, não, viu? É para “meditar”, ou melhor, “dormir”. Afinal, as pessoas “meditam” para dormir, não é mesmo? Ou para se acalmarem? Ou melhor, para terem “paz interior”. O mundo clama por paz interior. Queremos #paz. Cansamos da agitação do mundo multi-tarefa que nos engoliu. Com a pandemia, então, daí realmente estamos surtando. Mas a meditação está aí, nos rostos e nas vozes dos atores, atrizes e modelos, para reforçar os estereótipos que unem a beleza, a riqueza, o status e, claro, a tal PAZ INTERIOR. Queremos levar e buscar a #paz. E existe uma dignidade nisso, é claro.

Enquanto psicólogo e alguém que fez um doutorado e um pós-doutorado na área de Mindfulness, percebo que o lado interessante destas questões são a popularização ainda maior das práticas alternativas, o que pode significar maior acesso a estratégias de bem-estar e autocuidado para a população. Ressalte-se aqui que, em particular, a classe média alta e abastada, que são as pessoas que realmente consomem este tipo de “bem-estar gourmet”, como Ioga, meditação e custosas aromaterapias. A “meditação” entre nós, desde sua popularização nos USA dos anos 50 e 60, sempre foi um produto relativamente elitizado. E esta elitização se reflete nas estratégias de empresas que querem lucrar com essa demanda do mercado, como estes app que pagam um nota preta para estas celebridades gravarem “meditações guiadas” para nos acalmarmos e dormirmos melhor.

Mas, se por um lado parece legal aumentar e facilitar o acesso às “meditações” para o público geral, por outro entramos em um balaio de gatos, ou seja, não sabemos mais – nem mesmo – o que pode significar a palavra (e o fazer) MEDITAÇÃO. É algo que fazemos para dormir, como sugerem estes aplicativos? Olha, certamente, não. Não há sequer uma definição acadêmica de meditação que esteja ligada com adormecer. Pelo contrário, o conceito de meditação sempre está ligado à ATENÇÃO, uma “calma presença” que facilita a estabilidade da atenção. Dormir é perder a atenção, basicamente. É desligar.

Mas por que os aplicativos estão vendendo “meditação” como estratégia para dormir? A resposta é óbvia. Segundo dados da OMS figuramos entre os países mais ansiosos do mundo, às vezes estando no TOPO DO RANKING. Em 2018, os brasileiros compraram mais de 56,6 milhões de caixas de medicamentos para ansiedade e para dormir — cerca de 6.471 caixas vendidas por hora ou, aproximadamente, 1,4 bilhão de comprimidos em um ano. Deste modo, as empresas que são proprietárias dos apps, demonstram uma clareza de direcionamento do seu mercado.

As pessoas querem DORMIR, DESLIGAR, e não prestar atenção e manejar os seus problemas. É claro que queremos – sempre quisemos, não? – a solução MAIS fácil. ME DÊ AS PÍLULAS.

Prestar atenção e tentar resolver os nossos problemas internos de modo mais trabalhoso, como em um processo de terapia, por exemplo, exige engajamento. Também parece mais trabalhoso do que ingerir uma substância que supostamente poderia fazer o processo por você. Mas, esse não é papel dos medicamentos, e certamente não é o da meditação. Os medicamentos, como benzodiazepínicos, são tratamentos – em geral – de suporte, e não devem ser utilizados como a solução central para a ansiedade ou a insônia. Para a meditação, ou o mindfulness, vale o mesmo. Por isso, quando considerada uma técnica em medicina e psicologia, a meditação é dita estratégia “integrativa e complementar”. A maior parte das mudanças duradouras decorrem de processos mais intensos e complexos, como é o caso da psicoterapia. E isso vale para a medicação e para a meditação. Nenhuma delas deveria ser a solução central para sua terrível insônia. A primeira porque pode levar a uma dependência química danosa e a segunda, porque meditação não é tamponamento dos problemas da vida, e nem técnica de relaxamento.

E sobre meditação enquanto técnica de relaxamento seguem algumas palavras importantes. Algumas técnicas de meditação podem ter como consequência uma estado de relaxamento, mas não tem como objetivo central te FAZER RELAXAR. Meditação é diferente de relaxamento. Existem técnicas de relaxamento diversas, como respiração diafragmática ou relaxamento muscular progressivo, mas não são “meditações”. Como apontei anteriormente:

a meditação está ligada a um estado que promove ATENÇÃO, junto com uma espécie de “calma presença”. Esta qualidade de presença está a serviço da estabilidade atencional, e não da promoção de um relaxamento que te conduz ao sono.

Porém, a privação de sono é um problema de saúde pública que tem efeitos conhecidos relacionados ao mal-estar generalizado, a ansiedade, episódios de agressividade, depressão, obesidade e resistência insulínica. No ranking de quem dorme menos, o Brasil está em terceiro lugar no mundo. Alguns médicos concordam em dizer que vivemos uma espécie de “epidemia de privação de sono” no país. Deste modo, é claro que a pessoas querem consumir a meditação para dormir, e não para prestar maior atenção em seus problemas. E você poderia me perguntar: “Tiago, mas para que eu vou prestar mais atenção nos meus problemas? Eu quero mesmo é que eles sumam!!!”

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Eu vou te responder: “Olha, eu bem que gostaria que existisse um botão mágico que pudéssemos apertar garantindo que não acontecessem mais problemas em nossa vida, ao mesmo tempo em que resolvesse todos os que já existem. Mas tal botão não existe, infelizmente”. Porém, muitos de nossos problemas podem ser enfrentados em sua raiz, comportamental e mental, através de psicoterapia. Existem dezenas de estratégias de psicoterapias validadas cientificamente, sem promessa de milagres, que te ajudam a manejar os seus problemas – claro – sem pílula mágica, mas com grandes recompensas. Acontece que, psicoterapia, assim como meditação levada à sério, exige um grande engajamento por parte de cada um e cada uma de nós. E como já estamos em exaustão por lidar com as insônias e ansiedades da vida, não queremos ter que manejar mais nada. Queremos que alguém chegue e aperte um botão mágico que nos traga o sono de volta. Para isso estão aí os “rivotrils” da vida, seja em cápsulas químicas ou em aplicativos que vendem relaxamento como meditação. Se tiver que optar por um dos dois, opte pelo segundo, ainda que esteja comprando gato por lebre.

Meditar é trazer atenção para as dores da vida, a fim de manejar de modo realista e eficiente os nosso problemas, e não um sonífero gourmet com a voz de celebridades. Mas tudo bem, vez ou outra, cair no sono com o Cauã, a Gisele, ou o Lázaro. Só não acredite que está meditando ao fazer isso. Está – sim – consumindo um rivotril que não causa dependência química, mas que pode te afastar de enfrentar com realidade e com os pés no chão, a raiz dos seus problemas.

Se quiser mais informações sobre mindfulness, visite meu canal do youtube e minhas redes sociais. Um abraço! Abaixo um vídeo onde falo um pouco sobre a idéia que meditar é ficar “zen”.

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Escrito por Tiago Tatton

piadista inveterado, torcedor do Flamengo e pai da Clara Luz. Nas horas vagas é psicólogo, especialista e mestre em Ciência da Religião (UFJF/MG), doutor em Psicologia (UFRGS/RS e King´s College Londres), pós-doutor em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS/RS). Diretor Geral da Iniciativa Mindfulness. Em 2016 completou o Mindfulness Advanced Teacher Intensive pela Universidade da California em San Diego (USA).