Estratégias de autorregulação não convencionais: nem toda regulação parece regulação

Quando se aborda o conceito de autorregulação, é comum recordarmos inicialmente de estratégias tradicionalmente conhecidas, como as técnicas de relaxamento, intervenções sensoriais, redução de estímulos ambientais e práticas voltadas ao manejo do estresse. Entretanto, existem formas de autorregulação pouco difundidas e que merecem maior divulgação e compreensão, com vistas a favorecer o entendimento das experiências vividas por pessoas neurodivergentes (NDs).

Dentro das vivências neurodivergentes, essas práticas autorregulatórias são com frequência interpretadas de maneira equivocada, recebendo atribuições como antipatia, desinteresse, desmotivação, frieza emocional ou outros rótulos pejorativos. Em diferentes contextos sociais, tais interpretações contribuem para a invalidação de comportamentos legítimos apresentados por NDs. Esse fenômeno pode ser compreendido, em determinadas situações, como uma forma de gaslighting, um tipo de comportamento manipulativo que, quando envolve NDs, é caracterizado pela desqualificação, minimização ou questionamento de experiências e necessidades reais, levando a pessoa a ter sua percepção desacreditada ou atribuída a exagero e sensibilidade excessiva (Darke et al., 2025).

Nesse sentido, não é incomum que indivíduos neurodivergentes relatem ouvir observações como “você se incomoda com tudo”, expressão que exemplifica a forma como algumas experiências desses indivíduos são invalidadas socialmente.

Ao longo do desenvolvimento e da interação com ambientes que funcionam conforme padrões neurotípicos, muitos NDs constroem estratégias próprias de adaptação e autorregulação. Diferentemente da concepção tradicional de busca por conforto ou relaxamento, essas estratégias frequentemente manifestam-se como pausas necessárias, limites pessoais, estabelecimento de regras de convivência e comportamentos voltados à preservação da energia física, emocional e cognitiva (Higgins et al., 2021).

É importante ressaltar que tais comportamentos não têm como finalidade punir, rejeitar ou menosprezar o contexto social. Ao contrário, é relevante observar que estratégias de regulação em NDs possuem função adaptativa de regulação das demandas ambientais, contribuindo para a prevenção do esgotamento, reduzindo barreiras sensoriais e sociais, e poupando recursos que podem ser direcionados para o enfrentamento de contingências aversivas e exigências cotidianas (Kapp et al., 2019).

A sobrecarga sensorial e cognitiva pode ser definida como um estado em que a quantidade, intensidade ou complexidade dos estímulos recebidos excede a capacidade momentânea de processamento do indivíduo. Nessa condição, observa-se maior vulnerabilidade emocional, física e cognitiva, elevando a probabilidade de desregulação comportamental e emocional (Bogdashina, 2016).

No contexto da neurodivergência, essa experiência frequentemente se relaciona às particularidades do processamento sensorial e cognitivo, tornando singular a maneira pela qual esses indivíduos percebem, selecionam, interpretam e respondem aos estímulos presentes no ambiente (Robertson & Baron-Cohen, 2017).

Dentre as estratégias não convencionais de autorregulação frequentemente observadas em pessoas NDs, apresento algumas para elucidação:

1. Conversar sem manter contato visual

Para muitos indivíduos NDs, a possibilidade de se comunicar sem a exigência do contato visual tem a função de poupar energia e direcionar a atenção para a elaboração do pensamento e da comunicação, reduzindo o esforço que é feito para avaliar sinais sociais e fixar o olhar no outro. Nesses casos, a ausência de contato visual não deve ser interpretada como desinteresse, mas como uma forma, inclusive, de tornar menos aversiva a exposição à interação (Falck-Ytter et al., 2013)

2. Não precisar justificar a recusa a convites

A possibilidade de recusar um convite sem a necessidade de apresentar justificativas não deve ser interpretada como falta de consideração ou desinteresse, pois, em muitas situações, NDs precisam de autonomia e condições flexíveis para definir quando não frequentar um determinado evento ou ambiente, e optar por respeitar os próprios limites físicos e emocionais. Precisar elaborar justificativas para não ir a alguns lugares pode contribuir para aumento de sobrecarga e gerar, inclusive,. o afastamento de algumas interações. O reconhecimento e a validação social dessa necessidade pelas pessoas mais próximas é uma atitude inclusiva (Cage & Troxell-Whitman, 2019).


3. Sair sem se despedir, ir embora mais cedo ou afastar-se antes do esgotamento


Processos de entrada e saída em situações sociais para NDs, frequentemente, demandam investimento de energia e estratégias de camuflagem. Após longos períodos de exposição a estímulos sociais e sensoriais, muitos indivíduos neurodivergentes apresentam redução considerável e até esgotamento de recursos para mediar interações.

Nesse contexto, comunicar a saída, despedir-se individualmente, manter contato visual, cumprimentar ou justificar a decisão de ir embora pode constituir demanda adicional de energia. Tais comportamentos que ocorrem de maneira mais automática em indivíduos neurotípicos, para muitos NDs representam esforços conscientes e exaustivos. Assim, retirar-se antes do esgotamento completo pode ser uma estratégia preventiva de autorregulação (Hull, 2017).

4. Permanecer em silêncio após um dia de intensa socialização

Após períodos prolongados de interação social, o silêncio desempenha função restauradora em NDs. A redução das comunicação no final do dia é favorável à recuperação. Nessa perspectiva, o silêncio não representa afastamento interpessoal, mas ação de autocuidado e autorrespeito.

5. Limitar respostas e interromper interações diante da percepção de sobrecarga

Muitas pessoas NDs apresentam dificuldades na identificação prévia de sinais internos de sobrecarga, seja em razão de particularidades interoceptivas, seja devido ao desenvolvimento de estratégias de camuflagem social mantidas por longos períodos. Dessa forma, a redução das interações verbais, o uso de respostas breves, a interrupção de conversas ou o adiamento de discussões podem representar mecanismos de economia de energia e prevenção da desregulação. Em alguns momentos, é necessário um tempo de pausa (podendo ser nomeado também tempo de espera) para organizar pensamentos, processar emoções e planejar uma resposta adequada, sendo esta uma atitude bastante adequada para tornar as interações mais funcionais (Tsuji et al., 2022).

6. Permanecer sozinho durante intervalos destinados à socialização

Ambientes com conversas simultâneas, ruídos, odores intensos e múltiplos estímulos podem ampliar a sobrecarga sensorial e cognitiva, o desgaste cognitivo e sensorial. A busca por ambientes silenciosos, previsíveis ou por períodos de solitude durante intervalos e horários de refeição é uma estratégia importante de autorregulação em NDs, contribuindo para a recuperação de energia e regulando a sobrecarga (Raymaker et al., 2020).

7. Utilizar o celular como ferramenta regulatória em ambientes com excesso de estímulos

O uso do telefone celular em ambientes socialmente exigentes ou sensorialmente intensos pode funcionar como mecanismo de regulação emocional e cognitiva. O foco atencional no celular pode auxiliar na redução da percepção intensa dos estímulos externos, proporcionando sensação de controle e segurança (Raymaker et al., 2020).

Em síntese, compreender que a autorregulação pode assumir formatos não convencionais é um passo importante para reduzir a estigmatização, a invalidação e a incompreensão social de pessoas NDs. Ao invés de solicitar permissão para regular-se, muitos neurodivergentes necessitam mesmo é de encontrar espaços seguros e flexíveis para adotar suas estratégias adaptativas, que respeitem as particularidades de seu funcionamento cerebral e que se constituam como relevantes fatores de proteção.

Referências

Bogdashina, O. (2016). Sensory perceptual issues in autism and Asperger syndrome: Different sensory experiences, different perceptual worlds (2nd ed.). Jessica Kingsley Publishers.

Cage, E., & Troxell-Whitman, Z. (2019). Understanding the reasons, contexts and costs of camouflaging for autistic adults. Journal of autism and developmental disorders49(5), 1899-1911.

Darke, L., Paterson, H., & van Golde, C. (2025). Illuminating gaslighting: A comprehensive interdisciplinary review of gaslighting literature. Journal of Family Violence, 1-17.

Falck-Ytter, T., Bölte, S., & Gredebäck, G. (2013). Eye tracking in early autism research. Journal of neurodevelopmental disorders5(1), 28.

Higgins, J. M., Arnold, S. R. C., Weise, J., Pellicano, E., & Trollor, J. N. (2021). Defining autistic burnout through experts by lived experience: Grounded Delphi method investigating autistic burnout. Autism, 25(8), 2356-2369. https://doi.org/10.1177/1362361321101985

Hull, L., Petrides, K. V., Allison, C., Smith, P., Baron-Cohen, S., Lai, M. C., & Mandy, W. (2017). “Putting on my best normal”: Social camouflaging in adults with autism spectrum conditions. Journal of autism and developmental disorders47(8), 2519-2534.

Kapp, S. K., Steward, R., Crane, L., Elliott, D., Elphick, C., Pellicano, E., & Russell, G. (2019). ‘People should be allowed to do what they like’: Autistic adults’ views and experiences of stimming. Autism23(7), 1782-1792. https://doi.org/10.1177/1362361319829628

Raymaker, D. M., Teo, A. R., Steckler, N. A., Lentz, B., Scharer, M., Delos Santos, A., … & Nicolaidis, C. (2020). “Having all of your internal resources exhausted beyond measure and being left with no clean-up crew”: Defining autistic burnout. Autism in adulthood2(2), 132-143.

Tsuji, Y., Matsumoto, S., Saito, A., Imaizumi, S., Yamazaki, Y., Kobayashi, T., … & Sugawara, M. (2022). Mediating role of sensory differences in the relationship between autistic traits and internalizing problems. BMC psychology10(1), 148.

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Jaqueline Ferrari

Escrito por Jaqueline Ferrari

Dra. Jaqueline Vago Ferrari

Psicóloga, Mestra e Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Possui Especialização em Terapia Cognitivo Comportamental (UNIFIA-SP, 2015), e Especialização em Epidemiologia (UFES, 2018). Atua como psicóloga clínica há 12 anos seguindo a abordagem cognitivo-comportamental, e tem experiência com internação psiquiátrica e tratamento de transtornos relacionados ao uso de substâncias. É docente de cursos de pós-graduação e formação na área da psicologia.

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