“Essa vida de apreço pela diferença, pela diversidade, vida na qual admitimos o sofrimento como peça central à experiência da alegria, se reflete em nosso meio natural.” (bell hooks, 2022, p. 55)
Escrevo este texto inspirado por uma conversa com uma querida amiga, Sabrina Farias, durante uma viagem recente a Belém. Em meio aos deslocamentos, encontros e descobertas que uma viagem possibilita, dialogamos brevemente sobre como conhecer diferentes culturas pode influenciar e contribuir para a prática da(o) psicoterapeuta.
A partir dessa conversa, o objetivo deste texto é propor um diálogo inicial sobre a importância da cultura na atuação clínica. Embora essa reflexão possa atravessar diferentes abordagens psicoterapêuticas, adianto que a escrita a seguir será abraçada (leia-se: orientada) pela Ciência da Análise do Comportamento. Além disso, considero importante pontuar que este texto terá uma linguagem mais pessoal, justamente porque parte de uma experiência vivida e de inquietações que atravessam minha prática profissional.
Em um de seus textos seminais, Skinner apresenta a cultura como um dos níveis de seleção do comportamento, ao lado da filogênese, relacionada à história da espécie, e da ontogênese, relacionada à história de vida do indivíduo. A cultura, nesse sentido, pode abranger desde práticas de pequenos grupos, como aquelas presentes no contexto familiar (muitas vezes o primeiro ambiente no qual a pessoa é inserida) até práticas mais amplas, relacionadas à comunidade, cidade, estado, região, país e continente em que a pessoa vive.
Na perspectiva analítico-comportamental, o ambiente influencia o comportamento, mas também é transformado pelas ações dos organismos que nele vivem. Essa é uma das premissas centrais do comportamento operante: organismo e ambiente estão em constante relação de influência mútua. Assim, as práticas culturais que existem, se fortalecem, se modificam e resistem em determinado contexto também são influenciadas pelas pessoas que participam delas.
Durante a formação em Psicologia, estudantes frequentemente aprendem que a(o) psicóloga(o) deve sustentar uma postura neutra. Além disso, essa postura é defendida e recomendada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). No entanto, o que seria, de fato, essa neutralidade? É possível ser totalmente neutro ou imparcial em um contexto atravessado por intersecções, vulnerabilidades e vivências de injustiça social?
A prática da(o) psicóloga(o) deve, sim, ser pautada pelo respeito, pela escuta cuidadosa e compassiva e por uma postura ética diante da vida da(o) cliente. Isso significa que os valores, crenças e verdades pessoais da(o) profissional não devem imperar sobre a vida, as escolhas ou os valores da pessoa atendida. Contudo, essa postura não pode ser confundida com a desconsideração das múltiplas condições que participam da história e do sofrimento da(o) cliente, como idade, gênero, orientação sexual, raça, condição socioeconômica, regionalidade, escolaridade, deficiência, entre outras dimensões.
E onde entra a cultura nisso tudo? Ou, ainda, por que conhecer diferentes culturas pode ser importante para a prática clínica?
O Brasil é um país de dimensão continental, marcado por práticas culturais diversas, complexas e profundamente ricas. Além das diferenças entre regiões, é possível perceber variações culturais significativas entre municípios de um mesmo estado, entre bairros de uma mesma cidade e entre grupos que compartilham um mesmo território. Essa diversidade nos lembra que nenhuma forma de viver, sentir, falar, sofrer, se relacionar ou construir sentido pode ser tomada como universal.
O mito da neutralidade pode produzir um risco importante: transformar o próprio ponto de vista, a própria história e o próprio estilo de vida em medida do que é considerado adequado, saudável ou verdadeiro. Quando isso acontece, a(o) profissional pode se distanciar das experiências concretas de suas(seus) clientes e adotar uma postura de fechamento diante de outras formas de existência.
Pode parecer uma afirmação forte, mas muitas vezes o mito da neutralidade funciona como uma nova roupagem para práticas discriminatórias, como xenofobia, capacitismo, racismo e LGBTfobia. Também pode sustentar perspectivas coloniais ainda presentes na Psicologia, quando determinados modos de vida são tratados como superiores, mais corretos ou mais desenvolvidos do que outros.
Conhecer diferentes culturas pode contribuir para a flexibilidade psicológica da(o) psicóloga(o), pois amplia a possibilidade de entrar em contato com diferentes formas de perceber, interpretar e responder ao mundo. Ao se expor a outras perspectivas, a(o) profissional pode reconhecer que um mesmo fenômeno pode ser vivido de maneiras muito distintas, a depender da história, do território, das práticas culturais e das condições sociais envolvidas.
Nesse sentido, a neutralidade, quando compreendida como apagamento das diferenças, pode produzir insensibilidade clínica. Já uma postura de abertura permite reconhecer a diversidade, sustentar uma prática mais sensível culturalmente e assumir uma posição crítica diante de modelos que desconsideram as condições sociais, históricas e políticas que atravessam o sofrimento humano.
Uma prática clínica que não é culturalmente sensível corre o risco de transformar em diagnóstico todo relato de sofrimento. Evidentemente, compreender processos psicopatológicos é uma dimensão importante da atuação profissional. No entanto, nem todo sofrimento pode ser reduzido a uma categoria nosológica. Muitas vezes, aquilo que aparece no consultório como sofrimento individual também é produzido e mantido por dinâmicas político-sociais, como falta de acesso a políticas públicas, violações de direitos, racismo, LGBTfobia, xenofobia, capacitismo e outras formas de violência e exclusão.
Por isso, considerar a cultura na prática clínica não é um detalhe complementar. É parte fundamental de uma escuta ética, contextualizada e comprometida com a complexidade da vida humana. Para a(o) psicoterapeuta, conhecer diferentes culturas não significa falar por elas, apropriar-se delas ou transformá-las em curiosidade. Significa reconhecer que a clínica não acontece em um vazio. Ela acontece no mundo, com pessoas que carregam histórias, territórios, vínculos, práticas, dores e formas singulares de produzir sentido.
Talvez, então, uma prática psicoterapêutica culturalmente sensível comece por uma disposição simples, mas profundamente exigente: escutar sem transformar a própria história em régua para medir a vida do outro.
Referências
Andery, M. A. P. A. (2011). Comportamento e cultura na perspectiva da análise do comportamento. Revista Perspectivas, 2(2), 203–217. https://doi.org/10.18761/perspectivas.v2i2.69
Collins, P. H. (2022). Bem mais que ideias: A intersecionalidade como teoria social crítica. Boitempo
Hooks, B. (2022). Pertencimento: Uma cultura do lugar. Elefante
Leugi, G. B. (2024). Tornar-se terapeuta comportamental contextual: Habilidades e dicas para iniciantes. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 20. https://doi.org/10.18542/rebac.v20i0.16462
Passos, J. A. F., Weydmann, G., Motta, P., & Dias, A. C. G. (2023). Interfaces entre as psicoterapias comportamentais e a cultura. Revista Perspectivas em Análise do Comportamento, 14(2), 65–87. https://doi.org/10.18761/vecc21112022
Skinner, B. F. (2003). Ciência e comportamento humano. 11 ed. Martins Fontes
