Micleide Alves Celestino
Giovana Pagliari dos Santos
Quem nunca comeu na ausência de fome física (fisiológica), que atire o primeiro pedaço de bolo de fubá com goiabada.
Essa iguaria brasileira, de preparo simples e com sabor típico de tarde chuvosa, foi uma das minhas primeiras conquistas na cozinha. Desde a primeira vez que o preparei, permanece em mim o sabor marcante da autoconfiança, misturado a doces notas de independência.
Apesar disso, dificilmente escolherei bolo de fubá para saciar minha fome física. Ele é reservado para outros tipos de fome, se é que vocês me entendem. Seria esse um clássico exemplo de comer emocional? E, se for, quão problemático ele pode ser?
Para o senso comum — e até mesmo para algumas abordagens em saúde — o comer emocional é visto como sintoma de adoecimento, falta de disciplina ou déficit de força de vontade. Contudo, na Análise do Comportamento, olhamos para esse fenômeno de outra maneira: “a Análise do Comportamento não busca explicar o comportamento como sendo sintoma (efeito) de algum processo metafísico interno (causa). O comportamento é analisado como tendo valor em si próprio, pela função que ocupa nas relações contingenciais” (CHIESA, 2006 apud VALE; ELIAS, 2011; MEYER, 2008 apud VALE; ELIAS, 2011).
O comportamento alimentar é inerente à espécie humana e exerce o papel de reforçador incondicionado. Contudo, à medida que nossa espécie evoluiu e os processos de cognição e linguagem se tornaram mais complexos, o comportamento alimentar passou a exercer outras funções além de servir como combustível indispensável à sobrevivência. Um exemplo disso é o comer emocional.
A nomenclatura “comer emocional” é utilizada para descrever o comportamento de ingerir alimentos — em sua maioria hiperpalatáveis — na ausência de fome física. A ingestão alimentar geralmente tem como antecedente emoções, que podem ser consideradas negativas, como tristeza e raiva, ou positivas, como alegria, orgulho e amor.
Recebo muitos clientes desesperados em minha clínica, buscando ferramentas para eliminar o comer emocional, como se ele fosse o único obstáculo entre eles e suas metas de saúde, estética e sucesso. Alguns descrevem alívio; outros, medo e decepção quando explico que o comer emocional não é comparável a uma pneumonia, assim como a psicoterapia não se equipara ao uso de antibióticos. A intervenção psicoterapêutica não deve ter como foco exclusivo o comer emocional, e a remissão completa dos “sintomas” não é necessária — nem indicada.
A análise funcional do contexto encoberto e público de cada sujeito é indispensável, sobretudo quando um comportamento rotulado como problemático é considerado inadequado pela cultura vigente. Andery (1997 apud VALE; ELIAS, 2011), com base em Skinner (1975), aponta que a Análise do Comportamento compreende o comportamento humano como resultado de três processos históricos: a história da espécie (filogenia), a história do indivíduo (ontogenia) e a história das práticas coletivas (cultura).
A filogenia (primeiro nível de seleção) do comportamento alimentar esclarece as relações entre o alimento e os respondentes (ANDERY, 1997 apud VALE; ELIAS, 2011). Nesse nível, a ingestão alimentar está associada a respostas fisiológicas e sensoriais selecionadas ao longo da evolução por seu valor adaptativo. Meyer (2008 apud VALE; ELIAS, 2011) destaca que a comida pode funcionar como estratégia de regulação emocional, pois pode eliciar respostas prazerosas incompatíveis com aquelas produzidas por eventos aversivos, contribuindo para a atenuação de estados emocionais desagradáveis.
Na ontogenia (segundo nível de seleção), investigam-se as práticas alimentares em sua relação com o comportamento operante, especialmente no que diz respeito às contingências estabelecidas ao longo da história de vida do indivíduo. Frequentemente, situações em que a criança é reforçada com alimento são acompanhadas por outros reforçadores, como atenção social, afeto e interação com cuidadores. Nesse pareamento, o alimento — já um reforçador incondicionado — passa também a eliciar respostas de bem-estar semelhantes às produzidas por reforçadores sociais. Além disso, quando há similaridade funcional entre esses estímulos, o alimento pode substituir, ao menos parcialmente, o afeto e a atenção social (GREEN; FREED, 1993 apud VALE; ELIAS, 2011).
No nível cultural (terceiro nível de seleção), analisa-se o papel das práticas culturais na construção do comportamento. Nesse contexto, observa-se como a cultura, em interação com os níveis filogenético e ontogenético, contribui para a ocorrência do comportamento de comer na ausência de fome fisiológica — o chamado comer emocional.
As práticas culturais contemporâneas frequentemente associam o ato de comer a descanso, recompensa e alívio emocional, incentivando seu uso como estratégia para lidar com tais experiências. Por outro lado, rotulam esse mesmo padrão de comportamento como doentio, responsabilizam o sujeito e oferecem soluções caras e muitas vezes ineficazes. Esse padrão pode ser observado, por exemplo, em narrativas midiáticas nas quais personagens lidam com sofrimento consumindo grandes quantidades de alimentos, ou em campanhas publicitárias que vinculam produtos alimentícios à redução do tédio e à promoção de bem-estar.
Quando o sofrimento está presente, pode funcionar como uma operação estabelecedora, aumentando o valor de respostas que historicamente produziram alívio, como o comer. Quando o sofrimento decorre do próprio comportamento alimentar, muda-se o objeto, mas a promessa de alívio permanece a mesma.
Em situações em que o cliente utiliza a comida como uma das únicas fontes de reforço, o terapeuta observa um baixo nível de variabilidade comportamental no manejo do estresse, sendo a comida uma estratégia recorrente de esquiva de emoções desconfortáveis. Nesses casos, o indivíduo tende a ficar mais sob controle de estímulos externos (como propaganda e mídias sociais) do que das próprias sensações corporais de fome e saciedade. A intervenção, então, deve focar na ampliação do repertório comportamental, incluindo habilidades interpessoais, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e desenvolvimento da percepção interoceptiva.
O comer emocional faz parte da evolução da espécie humana, possui função biológica e social e não deve ser tratado como uma doença. Comer na ausência de fome física, de forma esporádica, dificilmente acarretará prejuízos à saúde. Quando ocorre em um contexto de escolha consciente, pode inclusive ser benéfico ao indivíduo.
Em suma, o comer emocional não deve ser rotulado como um problema a ser resolvido sem considerar o sujeito e seu contexto.
REFERÊNCIAS
ALVARENGA, Marle; DAHÁS, Liane; MORAES, César (org.). Ciência do comportamento alimentar. Barueri: Manole, [s.d.].
DEL PRETTE, Almir; DEL PRETTE, Zilda Aparecida Pereira. Competência social e habilidades sociais: manual teórico-prático. Petrópolis: Vozes, [s.d.].
SAFER, Debra L.; ADLER, Sarah; MASSON, Philip C. Programa DBT para o comer emocional e compulsivo. Porto Alegre: Hogrefe, [s.d.].
SKINNER, Burrhus Frederic. Contingências do reforço: uma análise teórica. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
VALE, Antonio Maia Olsen do; ELIAS, Liana Rosa. Transtornos alimentares: uma perspectiva analítico-comportamental. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 2011.
ANDERY, Maria Amália Pie Abib. O modelo de seleção por consequências e a subjetividade. In: BANACO, Roberto Alves (org.). Sobre comportamento e cognição. São Paulo: Arbytes, 1997.
