É difícil de acreditar que um profissional de saúde possa dizer: “obesidade é uma escolha”. Isso se explica pelo fato de que “um profissional de saúde” e essa “tal frase” simplesmente não combinam na mesma oração.
Em 1948, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a obesidade como uma doença, ao incluí-la no CID. Desde 1990, a obesidade mais que dobrou entre adultos no mundo e quadruplicou entre adolescentes.
Uma doença que ocorre de forma epidêmica não pode nem deve ser vista como uma questão de escolha pessoal, especialmente quando este julgamento ocorre apenas para essa doença.
Skinner (1974) apresenta uma perspectiva científica sobre o livre-arbítrio:
“A noção de livre-arbítrio implica que o comportamento humano seja independente de causas, mas a análise científica mostra que nossas ações são determinadas por variáveis ambientais e genéticas que podem ser identificadas e estudadas.”
O comportamento humano, portanto, não é um ato isolado de escolha, mas resultado de múltiplas contingências ambientais, biológicas e sociais.
A OMS descreve a obesidade como uma doença complexa e multifatorial, fortemente influenciada pelo ambiente obesogênico atual. O ambiente exerce um papel crucial na seleção de respostas de um organismo (Skinner, 1953/2003).
As preferências alimentares têm bases filogenéticas, ontogenéticas e culturais. Isso é explorado pela indústria alimentícia no desenvolvimento de produtos ultraprocessados (Sichieri & Pereira, 2022).
Cultura e hábitos específicos, como a tradição brasileira de almoçar arroz, feijão, carne e salada, atuam como fatores protetivos contra doenças alimentares (Sichieri & Pereira, 2022).
A indústria alimentícia também utiliza pesquisas comportamentais, especialmente de economia comportamental, para decidir onde posicionar produtos nas prateleiras e antecipar o caminho que o consumidor provavelmente fará no supermercado.
Curiosamente, ao abordar obesidade, o argumento do “livre-arbítrio” é frequentemente utilizado para culpar o indivíduo, enquanto a indústria aplica amplamente dados científicos sobre comportamento.
O Estado, como agência de controle, tem a função de regulamentar a produção, venda e distribuição de alimentos, estimulando ou inibindo comportamentos sociais considerados inadequados e/ou nocivos (Sidman, 1995).
A escolha de um produto envolve fatores sociais, políticos, econômicos e culturais. Políticas públicas eficazes incluem:
- Taxação de ultraprocessados;
- Melhoria do acesso econômico a alimentos saudáveis;
- Incentivo a hábitos alimentares saudáveis.
Essas medidas atuam como fatores protetivos para a saúde da população.
Problemas complexos não podem ser solucionados de forma simples. Entretanto, a compreensão e exploração de variáveis ambientais e comportamentais podem reduzir o número de pessoas que desenvolvem obesidade, além de proteger aqueles que já convivem com a doença, promovendo hábitos mais saudáveis.
O enfrentamento da obesidade exige responsabilidade coletiva: ciência, Estado, sociedade e indústria devem atuar de forma integrada, reconhecendo que escolhas individuais estão sempre mediadas por fatores complexos.
Referências
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Obesity and overweight. Disponível em: https://www.who.int/es/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight
SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
SKINNER, B. F. Sobre o behaviorismo. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 1974.
SICHIERI, Rosely; PEREIRA, Rosangela Alves. Consumo alimentar e obesidade: teorias e evidências. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2022.
SIDMAN, Murray. Coerção e suas implicações. Tradução de Maria Amália Andery e Tereza Maria Sério. Campinas, SP: Editorial Psy, 1995.

