Uma análise funcional revela que, em muitos casos, o comer compulsivo opera como uma estratégia de regulação emocional, mantida por reforçamento negativo: a redução momentânea de estados internos aversivos, como ansiedade, culpa, solidão ou exaustão.
Esse padrão pode ser compatível com uma tendência de tentar alterar, suprimir ou escapar de eventos privados desagradáveis (Hayes et al., 1996). O problema central não está na comida em si, mas na função que o comportamento de comer passou a exercer dentro da história de aprendizagem do indivíduo.
ACT como modelo de intervenção na compulsão alimentar
A ACT tem como proposta ampliar a flexibilidade psicológica, definida como a capacidade de entrar em contato com experiências privadas aversivas sem agir rigidamente para evitá-las, mantendo comportamentos orientados por valores pessoais (Hayes et al., 2012). Na compulsão alimentar, muitos episódios são precedidos por: (1) fusão cognitiva (“não aguento sentir isso sem comer”); (2) evitação de emoções aversivas; (3) comportamento governado por regras rígidas sobre comida, corpo ou controle e (4) repertório restrito de respostas alternativas ao desconforto.
Em vez de tentar modificar o conteúdo desses pensamentos ou eliminar a vontade de comer, a ACT trabalha para alterar a relação do indivíduo com essas experiências internas, reduzindo sua função controladora sobre o comportamento.
O que os estudos indicam
As evidências sobre o uso da ACT na compulsão alimentar, indicam que seus efeitos clínicos estão menos relacionados à modificação direta de sintomas e mais associados a mudanças em processos psicológicos centrais, como evitação experiencial, fusão cognitiva e flexibilidade psicológica.
A partir do modelo proposto por Hayes et al. (1996), estudos passaram a investigar a relação entre padrões de evitação experiencial e comportamentos alimentares compulsivos, sugerindo que a compulsão pode ser mantida por tentativas recorrentes de escapar ou regular eventos privados aversivos, como emoções intensas, impulsos e autocrítica (Juarascio et al., 2017; Freitas et al., 2017; Onnink et al., 2022). Nessa perspectiva, o foco terapêutico desloca-se do controle direto do comportamento alimentar para a alteração da relação do indivíduo com suas experiências privadas, enfatizando processos como aceitação, desfusão cognitiva e flexibilidade psicológica (Hayes et al., 2012).
Intervenções baseadas em ACT em populações com compulsão alimentar podem apresentar reduções relevantes na frequência de episódios de compulsão (Juarascio et al., 2017).
Processos de mudança relevantes na compulsão alimentar
Alguns processos merecem atenção clínica especial: (1) Evitação experiencial: o comer funciona como fuga de emoções ou pensamentos aversivos; (2) Fusão cognitiva: pensamentos sobre comida, controle ou fracasso passam a operar como ordens literais; (3) Desconexão de valores: escolhas comportamentais passam a ser guiadas pela redução imediata do desconforto, e não por direções de vida significativas e (4) Rigidez comportamental: poucas alternativas funcionais ao comer diante de estados internos difíceis.
A intervenção não busca eliminar os eventos privados, mas reduzir seu controle sobre o comportamento, ampliando o repertório de respostas possíveis.
Implicações para a prática clínica
Vamos na prática considerar o relato de um paciente que, ao final de um dia estressante, entra em contato com o cansaço e autocrítica. Nesse contexto, surgem pensamentos como“estou estressado”, seguidos por “preciso comer para aliviar”. Diante disto, ele tem o comportamento de comer excessivo.
Como consequência imediata, observa-se uma redução momentânea do desconforto emocional, apesar de consequências posteriores, como culpa e vergonha. Do ponto de vista funcional, nesse exemplo, a compulsão alimentar funciona como uma resposta de fuga a eventos privados aversivos, mantida pela redução imediata do desconforto. A função central do comportamento é, portanto, a regulação emocional de curto prazo.
Antecedentes: final de um dia estressante, cansaço e pensamentos “estou estressado”.
Comportamento: ingestão excessiva de alimentos.
Consequências: redução momentânea do desconforto emocional (reforçamento negativo), seguida de culpa e vergonha.
Função: o comer compulsivo opera como resposta de fuga a eventos privados aversivos, mantida pela redução imediata do desconforto.
A ACT não se concentra na eliminação dos pensamentos ou emoções, mas na alteração da relação do indivíduo com as experiências privadas, favorecendo maior flexibilidade psicológica e escolhas comportamentais menos controladas pela esquiva experiencial.
E pode ocorrer por meio de desfusão, aceitação e ação orientada por valores, reduzindo o controle funcional de pensamentos e emoções sobre o comportamento alimentar e ampliando alternativas à esquiva experiencial.
Considerações finais
A ACT pode oferecer um modelo clinicamente útil para compreender e intervir na compulsão alimentar, especialmente quando esta está fortemente relacionada à evitação emocional e à rigidez comportamental. Ao deslocar o foco do controle da comida para a função do comportamento no contexto da vida do indivíduo, ACT contribui para intervenções mais alinhadas com princípios comportamentais e com demandas clínicas complexas.
Referências
Freitas, B. I. de, Cancian, A. C. M., Zancan, R. K., & Oliveira, M. da S. (2017). Respostas a uma intervenção baseada em ACT de acordo com a severidade da compulsão alimentar em mulheres. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 19(3), 49–62.https://doi.org/10.31505/rbtcc.v19i3.1054
Hayes, S. C., Wilson, K. G., Gifford, E. V., Follette, V. M., & Strosahl, K. (1996).
Experiential avoidance and behavioral disorders: A functional dimensional approach to diagnosis and treatment. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 64(6), 1152–1168. https://doi.org/10.1037/0022-006X.64.6.1152
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and commitment therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). Guilford Press.
https://www.guilford.com/books/Acceptance-and-Commitment-Therapy/Hayes-Strosahl-Wilson/9781609189624
Juarascio, A. S., Manasse, S. M., Espel-Huynh, H., Kerrigan, S. G., & Forman, E. M. (2017). Pilot study of an acceptance-based behavioral treatment for binge eating disorder. Journal of Contextual Behavioral Science, 6, 1–10.
https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2016.12.003
Onnink, C. M., Konstantinidou, Y., Moskovich, A. A., Karekla, M., & Merwin, R. M. (2022). Acceptance and commitment therapy (ACT) for eating disorders: A systematic review of intervention studies and call to action. Journal of Contextual Behavioral Science, 26, 11–28. https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2022.08.005

