Em tempos de listas de passo a passo e de técnicas prontas para seguir, Philippa Perry, na obra O livro que você gostaria que seus pais tivessem lido – e seus filhos ficarão gratos por você ler, propõe uma reflexão mais fundamental sobre a parentalidade. Em vez de orientações, ela nos convida a considerar a relação que nós, adultos, estabelecemos com as crianças, reconhecendo o impacto de nossas próprias histórias nesse processo – nossas habilidades, modos de interpretar o mundo, e afetos.
Logo de início, a autora sugere que as reações dos pais, sobretudo as mais intensas e desafiadoras (como raiva, frustração e medo) revelam muito sobre a pessoa que educa. Mas para identificarmos os padrões de comportamento do adulto é preciso que sejamos capazes de adotar a perspectiva da criança: compreendermos como o ambiente, o momento presente e, principalmente, a relação com o próprio cuidador são contextos para as crianças agirem. É reconhecendo que nossos padrões também contribuem para os conflitos que podemos mudá-los, em busca de maior variabilidade comportamental e flexibilidade psicológica.
Em sua obra, o interesse da autora é compreender como nos relacionamos com as crianças, e não como as manipulamos – reduzindo-as aos seus comportamentos desejáveis e indesejáveis. Diversos autores das terapias analítico-comportamentais e contextuais seguem esse mesmo raciocínio, debruçando-se para compreender a função dos comportamentos e considerando, em suas análises, o que os comportamentos comunicam sobre as dificuldades e as necessidades das crianças. Esse é, de fato, um grande desafio. Observar a criança pode ser mais fácil do que reconhecer o impacto que seus comportamentos produzem em nós, pois perceber como somos afetados exige assumir a responsabilidade pelas nossas reações, além de nos fazer notar como, reciprocamente, afetamos as outras pessoas – ponto central no tema que Philippa aborda.
Sabemos que falar de relacionamentos implica em também falarmos de conflitos. Discordâncias e frustrações fazem parte da convivência e não devem ser evitadas. Entretanto, mais importante do que as pequenas rupturas é a reparação que fazemos – ou não – em nossos relacionamentos. Se reconhecemos nossos erros, pedindo desculpas ou reparando nossas falhas, mostramos que, mesmo em momentos desafiadores, o vínculo permanece seguro, porque respeitamos as diferenças e valorizamos, sobretudo, a pessoa que amamos – que continua existindo, mesmo nos momentos difíceis. A qualidade da reparação vai depender de como lidamos com as emoções (validamos e toleramos) e, nesse sentido, os conflitos podem inclusive aumentar a intimidade entre os pares.
Aceitar que podemos sentir o que sentimos, mesmo quando se trata desconfortos como irritação, aborrecimento ou repulsa, fortalece a relação. O sentimento é o eixo em torno do qual os relacionamentos se organizam; por isso, se optamos por reprimi-los – minimizando, negando ou punindo –, ou se os dramatizamos – tomando para nós o sofrimento da criança e reagindo de forma exagerada –, comunicamos que alguns sentimentos não são aceitáveis e que não somos capazes de lidar com eles. Isso leva ao afastamento e ao silenciamento. Daí a importância de adotarmos uma postura continente, que significa sermos capazes de conter os sentimentos, como propõe Philippa Perry: conseguirmos validar as emoções sem negá-las ou nos fusionarmos a elas, ajudando a criança a reconhecê-las e, assim, a aprender a regulá-las.
Por fim, vale falar de limites. Muitas vezes, a discussão sobre educação opõe afeto e disciplina, como se fossem incompatíveis, mas Perry argumenta o contrário: limites melhoram os relacionamentos porque dão previsibilidade para as pessoas: antecipam o que poderia nos levar a perder a paciência e termos uma reação indesejada. Quando coerentes e adequados ao desenvolvimento da criança, eles organizam o ambiente físico e social para que todos se sintam livres e seguros; contribuem para uma autoestima saudável, ensinando para as crianças até onde podem ir para que os pais (e as outras pessoas com quem convivem) realmente gostem da companhia delas. E, sobre gostar, a autora tem uma observação sagaz: seu livro é escrito para pais que não apenas amam seus filhos, mas querem gostar deles também. Afinal, gostamos de pessoas respeitosas e colaborativas.
As relações são contextos vivos, onde histórias, sentimentos e comportamentos se manifestam. O livro nos faz ver – assim como a análise do comportamento e as terapias contextuais – que o desenvolvimento humano acontece na interação, e vínculos saudáveis funcionam com regras, afetos e ajustes constantes; é na forma como respondemos uns aos outros que nós nos tornamos quem somos.
Perry, P. (2020). O livro que você gostaria que seus pais tivessem lido – e seus filhos ficarão gratos por você ler (M. Lacerda, Trad.). Sextante.
(Obra original publicada em 2019.)

