Nos últimos anos, a Análise do Comportamento Aplicada cresceu vertiginosamente no Brasil, e com esse crescimento vieram expectativas cada vez maiores sobre a precisão técnica dos terapeutas. Há um consenso de que o básico deveria ser simples, mas na prática ele é justamente a parte mais complexa do trabalho. Coletar e registrar dados, seguir procedimentos, implementar reforçamento, discriminar estímulos relevantes e a tomada de decisão durante a sessão parecem tarefas triviais à primeira vista, mas envolvem repertórios sofisticados que dependem de muito treino, reforçamento e supervisão. Apesar disso, erros simples continuam surgindo nas rotinas clínicas, até mesmo entre profissionais experientes, o que nos leva à pergunta central deste texto: se é básico, por que é tão difícil?
A ideia de que “é só fazer” ignora que o básico envolve comportamentos que raramente são naturais. Cooper, Heron e Heward (2020) descrevem que tarefas aparentemente simples exigem história de aprendizagem extensa e múltiplos pré-requisitos comportamentais. Quando terapeutas cometem erros simples, isso não costuma refletir desatenção, e sim repertórios em formação. Essa dificuldade se intensifica quando consideramos a realidade da formação inicial, que muitas vezes é superficial e pouco prática. Muitos terapeutas chegam a campo sabendo nomear procedimentos, mas sem saber aplicá-los. Estudos clássicos de Parsons, Reid e Green (2012) demonstram que treinamentos eficazes precisam incluir instrução clara, demonstração, prática supervisionada e feedback imediato, os componentes do Behavioral Skills Training. Quando o BST não é utilizado de maneira sistemática, ou quando o treino é apressado, o básico se torna instável desde o início.
Outro fator que contribui para a persistência dos erros simples são as contingências presentes no ambiente clínico. Em muitos serviços, respostas rápidas, improvisadas e imediatistas são reforçadas com elogios, redução de pressão ou simples alívio da situação. Enquanto isso, a precisão técnica nem sempre é igualmente reforçada. Daniels e Bailey (2014), ao discutirem desempenho humano em organizações, apontam que equipes aprendem mais com as consequências imediatas do que com discursos institucionais. Assim, sem perceber, os terapeutas passam a priorizar soluções rápidas, mesmo quando não seguem o programa com fidelidade. Resolver a crise rende reforço imediato, enquanto parar para revisar dados ou consultar o procedimento raramente recebe atenção positiva. Em pouco tempo, a cultura reforça o improviso e não a precisão.
Outro ponto pouco discutido é o medo de registrar erros. Muitos terapeutas hesitam em anotar respostas incorretas dos aprendizes por receio de parecerem inexperientes, receberem críticas ou serem responsabilizados. Esse medo produz sub-relato de erros e empobrece a análise clínica. Fisher, Piazza e Roane (2022) destacam que o erro é um dado essencial para ajustar programas, identificar pré-requisitos ausentes e avaliar a efetividade do ensino. Quando o erro desaparece do registro, desaparece também a possibilidade de intervenção mais assertiva. Por isso, precisamos construir culturas clínicas onde errar e registrar o erro não seja sinal de incompetência, mas parte natural do processo de ensino.
A maneira como o feedback é oferecido na supervisão também influencia fortemente o desempenho dos terapeutas. Feedback tardio, genérico ou centrado apenas em correções cria ambientes aversivos e produz comportamentos de esquiva. Reid, Parsons e Green (2012) mostram que supervisão eficaz exige feedback imediato, descritivo e acompanhado de demonstração e prática, uma aplicação direta dos princípios do BST dentro da supervisão. Quando isso não acontece, os terapeutas desenvolvem medo de expor dúvidas ou dificuldades e começam a esconder seus erros, o que reduz drasticamente a qualidade dos dados e compromete a intervenção.
É importante ressaltar que erros repetidos não revelam características individuais, mas características do sistema onde esses indivíduos estão inseridos. Quando muitos profissionais cometem o mesmo erro básico, estamos diante de uma falha organizacional e não de falta de esforço pessoal. Essa perspectiva, defendida por Daniels (2016), nos ajuda a compreender que melhorar o terapeuta isoladamente é ineficaz quando a cultura do serviço reforça atalhos, pune vulnerabilidade e oferece pouco treino estruturado. Culturas clínicas sólidas são aquelas que reforçam práticas consistentes, comunicação aberta, registro honesto e treinamento contínuo.
Fortalecer o básico exige investimento em estratégias de ensino cientificamente fundamentadas, e o BST é o principal exemplo. A combinação de instrução, modelação, prática guiada e feedback produz mudanças comportamentais robustas e duradouras tanto em habilidades técnicas quanto em repertórios de tomada de decisão (Parsons et al., 2012; Reed et al., 2018). Ao lado do BST, práticas como role-play frequente, checklists claros, feedback imediato e cultura de segurança psicológica são fundamentais para sustentar a precisão clínica. O básico não melhora apenas com boa vontade ou experiência acumulada, mas com contingências bem organizadas que reforcem a exatidão e desencorajem improvisações.
No final das contas, o básico revela a cultura da equipe. Quando entendemos que aquilo que parece simples é, na verdade, um repertório complexo que exige treino contínuo, deixamos de culpar indivíduos e passamos a fortalecer os sistemas que moldam seus comportamentos. É por isso que o básico se torna mais consistente quando criamos ambientes que reforçam precisão, transparência e aprendizagem contínua.
O básico não é simples. O básico é fundamental. E como todo fundamento, precisa ser ensinado, praticado, revisado e reforçado todos os dias.
REFERÊNCIAS
Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied Behavior Analysis (3rd ed.). Pearson.
Daniels, A. C. (2016). Bringing Out the Best in People: How to Apply the Astonishing Power of Positive Reinforcement (3rd ed.). McGraw-Hill.
Daniels, A. C., & Bailey, J. S. (2014). Performance Management: Changing Behavior That Drives Organizational Effectiveness. Aubrey Daniels International.
Fisher, W. W., Piazza, C. C., & Roane, H. S. (2022). Handbook of Applied Behavior Analysis (2nd ed.). Guilford Press.
Parsons, M. B., Reid, D. H., & Green, C. W. (2012). The Training Curriculum for Supervisors of ABA Technicians Working with Individuals with Autism. Carolina Behavior Analysis and Support Center.
Reid, D. H., Parsons, M. B., & Green, C. W. (2012). The Supervisor’s Guidebook: Evidence-Based Strategies for Promoting Work Quality and Enjoyment Among Human Service Staff. Habilitation Books.
Reed, D. D., Luiselli, J. K., & Sunderland, M. (2018). Behavioral skills training for staff and caregivers. In J. K. Luiselli (Ed.), Applied Behavior Analysis Advanced Guidebook (pp. 61–78). Elsevier.

