Escrito por Aline Silva, Amanda Rosa e Bruna Petinatti
A violência no ambiente de trabalho é uma realidade que pode afetar todas as pessoas. No entanto, neste texto, propõe-se lançar luz sobre a violência de gênero que atinge, de forma específica e desproporcional, as mulheres no mercado de trabalho. Essa violência não se limita à somente isso, ela se entrelaça com raça, classe social, orientação sexual, identidade de gênero e nacionalidade, configurando um quadro de violências múltiplas e interseccionais. Mulheres negras, trans, mestiças, estrangeiras e em situação de vulnerabilidade socioeconômica são particularmente afetadas por essas dinâmicas.
Não se fala o suficiente sobre o impacto do racismo no ambiente de trabalho. Como aponta (Mizael, 2017, apud Petterson, Franco, Marques, 2021), o racismo não ocorre apenas em episódios explícitos ou em contextos policiais, ele constitui um repertório comportamental aprendido e reforçado socialmente, sustentado por práticas culturais que moldam as relações interpessoais e institucionais. No ambiente laboral, essas práticas se expressam em segregações, falta de oportunidades, desvalorização, e desumanização das mulheres negras, somando-se ao fato de que a presença feminina já é numericamente inferior à masculina, a de mulheres negras é menor ainda. Alves (2022) explica que o racismo estrutural foi determinante na formação da divisão racial do trabalho no Brasil, restringindo o acesso da população negra aos empregos formais e concentrando-a em ocupações precarizadas, subalternas e de baixa remuneração, além da superexploração do trabalho. Essa limitação reforça barreiras ao acesso a cargos de liderança e tomada de decisão. Quando conseguem alcançar posições mais altas, frequentemente se encontram em minoria e enfrentam sentimentos de isolamento e não pertencimento dentro das equipes e instituições.
A desvalorização se expressa na desconsideração de suas ideias e projetos, na deslegitimação de suas funções e na constante necessidade de provar competência, também se manifesta no questionamento de sua capacidade intelectual e de seu saber, junto da ausência de reconhecimento de suas trajetórias, sendo experiências e formações situações atravessadas tanto por marcadores de raça quanto de gênero. Esses processos simbólicos e institucionais operam como formas sutis, mas persistentes, de exclusão e violência no ambiente de trabalho; tudo isso gera um estado de hipervigilância, baixa autoestima, ansiedade e sintomas depressivos. Segundo Damasceno e Zanello (2018, p. 459), “a depressão foi o efeito na saúde que apresentou a associação mais pronunciada com a discriminação racial”. Esse cenário produz sentimentos de isolamento, solidão, inferioridade e inadequação, reforçando o impacto psicossocial dessas desigualdades, o que contribui para o silenciamento, o sofrimento emocional e o adoecimento psíquico dessas mulheres.
A agência de consultoria Think Eva, em parceria com o LinkedIn (2025), realizou uma pesquisa sobre assédio laboral com 3.128 pessoas, das quais 65% eram mulheres. Entre elas, 35,6% relataram ter sofrido assédio sexual, e mais da metade dessas vítimas possuíam renda familiar de até cinco salários mínimos, concentrando-se em cargos de assistente e pleno ou sênior. Além disso, 35,6% do total de entrevistados afirmou ter vivenciado assédio moral, sendo que destes, 46,3% eram mulheres. Essas violências ocorrem não apenas no ambiente físico de trabalho, mas também em contextos digitais pessoais; por exemplo, no envio de mensagens e conteúdos sem consentimento.
Os resultados ainda revelam que, apesar de o assédio sexual ser crime, ele segue como uma prática recorrente e naturalizada: 75,3% das mulheres afirmaram ter presenciado ou sofrido agressões pelo menos uma vez ao mês. Essas situações impactam a vida pessoal e profissional das vítimas, à medida que o ambiente de trabalho passa a representar um espaço de ameaça e insegurança. Além das barreiras estruturais e simbólicas, os efeitos psicológicos da violência de gênero no trabalho são amplos e profundos. Pesquisas recentes apontam que mulheres expostas a práticas de assédio moral e sexual relatam níveis elevados de ansiedade antecipatória, autocrítica exacerbada, sentimentos de inadequação e exaustão emocional, incluindo quadros compatíveis com o burnout (Santa Rosa et al., 2024; Santos et al., 2023). Esses sintomas resultam da exposição constante a contextos hostis, da necessidade de vigilância permanente e da naturalização da desigualdade de gênero e raça, o que leva à internalização de regras sociais de submissão e o declínio da autoestima. Esse padrão de sofrimento moral e desgaste emocional reflete não apenas o impacto individual das violências, mas também o funcionamento de culturas organizacionais adoecidas, que perpetuam relações de poder assimétricas.
Mulheres negras e pardas tendem a apresentar maiores índices de sofrimento decorrente do assédio sexual, muitas não buscam suporte dentro das instituições, mas em redes pessoais ou grupos de apoio, seja pela falta de confiança nos canais formais de denúncia, seja pelo medo de julgamento, perseguição ou demissão. Estudos recentes reforçam que a interseccionalidade entre gênero, raça e classe intensifica os impactos psicológicos da violência no trabalho. Mulheres negras enfrentam discriminação específica, marcada pela desvalorização de suas competências, exclusão simbólica e sobrecarga emocional (Godoi, 2024). Essas experiências produzem sentimentos de isolamento, medo e invisibilidade, agravando o sofrimento psíquico e dificultando o engajamento profissional. Além disso, pesquisas teóricas e empíricas sobre o trabalho de cuidado demonstram que as tarefas tradicionalmente atribuídas às mulheres negras seguem desvalorizadas, refletindo estruturas racistas e patriarcais historicamente enraizadas (dos Santos & Silva, 2024).
Essas experiências refletem padrões mais amplos de opressão. Isso porque o ambiente laboral é atravessado pelos mesmos valores e concepções que estruturam a sociedade. Uma cultura racista, classista e patriarcal influencia não apenas a dinâmica cotidiana do trabalho, mas também decisões como contratações, promoções e a forma como cada pessoa é tratada (Vieira, 2023; Barreto & Heloani, 2015). Grupos historicamente minorizados estão sujeitos a regras e expectativas criadas por pessoas dos grupos dominantes, geralmente homens brancos, heterossexuais e de classes mais altas. Quanto mais distante desse grupo, maiores tendem a ser as violências vivenciadas (Barreto & Heloani, 2015).
Existe uma grande distância entre a quantidade de mulheres presentes no mercado de trabalho e aquelas que ocupam cargos de maior poder. Quanto mais se avança na hierarquia, menos mulheres são vistas (Laurenti et al, 2018). As condições que dificultam a ascensão profissional feminina são conhecidas como teto de vidro. Já quando observamos os cargos de gestão que as mulheres conseguem ocupar, nota-se que, em sua maioria, estão concentrados em setores de menor influência e visibilidade dentro das empresas, fenômeno denominado parede de vidro. Ou seja, ainda que haja um avanço vertical na hierarquia, a limitação permanece (Roque & Bertolin, 2021). Ambos se configuram modos de discriminação e violência de gênero que nem sempre são facilmente identificados.
Compreender as interseccionalidades e o cenário sociocultural é essencial para o acolhimento clínico e para a análise funcional das contingências culturais que mantêm o racismo e o sexismo, atuando como violência de gênero e raça no trabalho. Uma prática clínica sensível às intersecções permite validar a experiência de sofrimento e promover ações alinhadas a valores de justiça e equidade. No nível macro, é fundamental articular políticas públicas, instâncias jurídicas e movimentos sociais, como os sindicatos, na elaboração e implementação de leis, bem como na conscientização e mobilização dos trabalhadores (Roque & Bertolin, 2021). A psicóloga pode contribuir nesse processo ao favorecer o reconhecimento e a nomeação das violências vividas, assim como a identificação de possibilidades de articulação coletiva, ampliando tanto a rede de apoio quanto às estratégias de enfrentamento da cliente.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) oferece recursos para o cuidado psicológico das mulheres que vivenciam situações de racismo e sexismo no ambiente de trabalho, por meio de processos como a desfusão cognitiva, a paciente pode aprender a observar pensamentos, regras e narrativas sociais racistas e machistas sem se identificar com elas, reduzindo o impacto que exercem sobre sua auto imagem e comportamento. Além disso, o trabalho com valores permite que ela se reconecte ao que considera importante e significativo, orientando suas ações de forma coerente com seus princípios, mesmo diante de contextos adversos. Ao trabalhar a aceitação promove-se abertura e disposição para experienciar emoções difíceis, como medo, raiva ou impotência, sem que elas impeçam o engajamento em ações comprometidas com a equidade e o autocuidado.
Outro processo central da ACT é o self como contexto, que se refere à capacidade de a pessoa observar seus pensamentos, papéis e histórias sem se confundir com eles. No contexto da violência de gênero no trabalho, esse processo ajuda as mulheres a reconhecerem que não são definidas pelos rótulos sociais ou pelas narrativas discriminatórias, por exemplo, “sou incompetente” ou “não pertenço a esse lugar”. Ao se posicionar como observadora das próprias experiências, a mulher amplia sua perspectiva e resgata a agência sobre suas ações, mesmo em meio a estruturas opressoras. Pesquisas brasileiras sobre ACT apontam que a prática clínica orientada por valores e autocompaixão promove flexibilidade psicológica e reduz o estresse e o burnout em contextos de vulnerabilidade (Vandenberghe & Cunha, 2025; Oliveira, 2022). Esse processo fortalece o empoderamento, permitindo que a mulher atue de forma coerente com seus princípios e valores, em vez de guiada por narrativas sociais limitantes.
A Terapia de Aceitação e Compromisso se apresenta não apenas como uma ferramenta de emancipação e transformação social. Ao promover consciência crítica, flexibilidade psicológica e engajamento em ações guiadas por valores, ela contribui para reconstruir narrativas de pertencimento e dignidade. Em um cenário em que o trabalho ainda reproduz desigualdades de gênero e raça, é urgente que a psicologia (em suas dimensões clínica, institucional e social), assuma o compromisso ético de favorecer espaços de escuta, acolhimento e mudança, para que as mulheres possam existir e prosperar em contextos mais justos, seguros e humanos.
Referências
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Barreto, M., & Heloani, R.. (2015). Violência, saúde e trabalho: a intolerância e o assédio moral nas relações laborais. Serviço Social & Sociedade, (123), 544–561. https://doi.org/10.1590/0101-6628.036
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dos Santos, J. F., & Silva, R. C. (2024). Gênero, classe e raça no trabalho do cuidado no Brasil: Um exercício teórico-analítico. Revista da Associação Nacional de Interdisciplinaridade em Estudos de Gênero e Sexualidade (Anintersh), 4(2), 66–78. https://www.revistadaanintersh.org/index.php/anintersh/article/view/6
Godoi, M. L. (2024). Violência contra mulheres negras no trabalho: Um estudo exploratório-descritivo. Revista do Tribunal Superior do Trabalho, 90(1), 45–59. https://revista.tst.jus.br/rtst/article/view/66
Laurenti, C., de Jesus, L. S., Nogueira, L. N., Corrêa de Sales, S., Wunsche Risolia, I., & Strapasson, B. A. (2019). Participação das mulheres em atividades acadêmico- científicas de Análise do Comportamento no Brasil. Acta Comportamentalia: Revista Latina de Análisis de Comportamiento, 27(2), 251-268.
Oliveira, C. A. (2022). Valores e flexibilidade psicológica em profissionais submetidos a altos níveis de estresse: Aplicações da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) [Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual Paulista – UNESP]. Repositório UNESP. https://repositorio.unesp.br/entities/publication/45bc089a-ac82-47e5-b51a-22d6fd33e7e6
Petterson, D., Franco, T., & Marques, J. M. (2021). Análise do comportamento, racismo e branquitude: por que falar? Boletim Paradigma, São Paulo: Paradigma – Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento, vol. 16, agosto de 2021.
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Santa Rosa, L. M., Albuquerque, S. F., & Mendes, P. C. (2024). Assédio moral: Violências impostas às mulheres nos ambientes de trabalho. Cadernos de Estudos em Psicologia e Sociedade, 9(1), 23–41. https://miroslavmilovic.com.br/index.php/cadernos/article/view/109
Santos, A. P., Ferreira, J. M., & Souza, T. R. (2023). Hostilidade no ambiente de trabalho, assédio moral e sexual contra mulheres: Um estudo qualitativo. Gestão e Sociedade, 17(46), 1–18. https://ges.face.ufmg.br/index.php/gestaoesociedade/article/view/3596
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Vieira, C. E. C. (2023). Violência no trabalho: dimensões estruturais e interseccionais. Revista Brasileira De Saúde Ocupacional, 48, edcinq2. https://doi.org/10.1590/2317-6369/24922pt2023v48edcinq2

