Um olhar analítico-comportamental sobre o etarismo feminino no Brasil

Escrito por Aline Cristina da Silva

O etarismo, também conhecido como velhofobia, é a discriminação baseada na idade e uma das formas mais frequentes e universais de preconceito, como apontado pela Rádio USP em reportagem de 2024 que evidencia como praticamente todas as pessoas, em algum momento da vida, experimentam expectativas e julgamentos associados à faixa etária. Embora afete a sociedade como um todo, esse preconceito pesa de forma particular sobre as mulheres, cuja juventude é tratada como um capital social que combina beleza, produtividade e valor, enquanto a velhice é associada à perda, invisibilidade e irrelevância.

No Brasil, esse debate torna-se ainda mais urgente em razão do processo acelerado de envelhecimento populacional. De acordo com projeções do IBGE (2023), cerca de 15% da população já tem 60 anos ou mais, e esse índice deve ultrapassar 30% até 2050. Ao mesmo tempo em que esse dado revela uma conquista social (“viver mais”), também expõe o quanto ainda estamos presos a visões antiquadas de envelhecimento, especialmente no caso das mulheres, que se veem obrigadas a enfrentar pressões estéticas, sociais e relacionais muito mais intensas do que os homens.

A juventude, no imaginário brasileiro, foi historicamente associada a rupturas culturais e comportamentais, à liberdade sexual, à transformação do casamento e à redefinição das relações amorosas. Até hoje, ser jovem permanece como elogio, enquanto envelhecer carrega o estigma de condenação. Essa lógica cria um paradoxo cultural: discursos mudaram, mas seguimos enxergando a velhice de forma negativa, como se ainda estivéssemos no século passado. As mulheres, em especial, aprendem desde cedo a temer o envelhecimento, pois seu corpo jovem é tratado como moeda de valor social.

Pesquisas recentes, como a de Bezerra e Martins (2023), indicam que brasileiras estão entre as que mais investem tempo, dinheiro e energia emocional em procedimentos estéticos para retardar ou esconder sinais da idade. Esse investimento não é apenas individual: trata-se de um comportamento reforçado socialmente, uma vez que a mídia e os discursos coletivos elevam a juventude a um padrão quase impossível de manter. O resultado é que muitas vezes as próprias mulheres se tornam agentes de cobrança umas das outras, fiscalizando cabelos, roupas e corpos, perpetuando um ciclo de comparação e sofrimento.

Do ponto de vista da Análise do Comportamento, o etarismo pode ser entendido como um fenômeno cultural mantido por contingências sociais e verbais. Regras implícitas são transmitidas e reforçadas: mulheres envelhecidas são associadas a menor valor, enquanto homens mais velhos podem até ser enaltecidos, como no caso do cabelo grisalho que, para eles, muitas vezes é símbolo de charme e maturidade. Esse reforçamento diferencial aprofunda desigualdades e leva mulheres a evitarem contextos sociais ou escolhas pessoais por medo de julgamento. Além disso, os reforços imediatos associados a práticas estéticas, como elogios e aceitação social, acabam funcionando como mantenedores de um repertório que pode trazer alívio momentâneo, mas perpetua a dependência de padrões externos.

As consequências aparecem tanto na identidade quanto nas relações afetivas. É comum mulheres se perguntarem se podem usar biquíni, franja, rabo de cavalo, saia curta ou até mesmo assumir os cabelos brancos, como se a idade lhes retirasse o direito de serem elas mesmas. O resultado é um sentimento de perda de pertencimento e de identidade. Já no campo afetivo, observa-se o duplo padrão: mulheres mais velhas são vistas como tendo menos chances de encontrar um novo parceiro, enquanto homens continuam sendo socialmente autorizados a se relacionar com mulheres da mesma idade ou mais jovens. Esse desequilíbrio é reflexo direto do encontro entre machismo e etarismo, como discute o artigo “Velha demais, jovem demais: o encontro entre gênero e etarismo” (ThinkEVA, 2024).

Apesar dessas pressões, há sinais de mudança. Cada vez mais mulheres reivindicam a possibilidade de envelhecer com liberdade e autenticidade, redefinindo o que significa viver cada fase da vida. Algumas escolhem não mais se prender a roteiros tradicionais de casamento ou relacionamentos longos, preferindo experiências afetivas mais leves, centradas no prazer, na autonomia e no bem-estar. Essa nova postura revela que a maturidade não deveria significar repressão, mas sim expansão da liberdade de ser quem se é.

Nesse cenário, a clínica analítico-comportamental pode ter papel fundamental. É possível trabalhar com clientes a identificação e questionamento de regras sociais internalizadas, desenvolver repertórios de autocompaixão e aceitação, e, sobretudo, conectar mulheres aos seus valores, em vez de às expectativas externas. Perguntar “o que é realmente importante para mim?” e “como quero viver esta fase da minha vida?” ajuda a reposicionar a experiência de envelhecer não como ameaça, mas como oportunidade de coerência entre escolhas e propósitos. Além disso, o papel do psicólogo não se limita à clínica individual: a atuação social, seja questionando discursos midiáticos, seja promovendo práticas inclusivas em empresas e organizações, também é essencial para a desconstrução do etarismo.

Portanto, o etarismo contra mulheres é mais do que uma questão estética: trata-se de uma forma de opressão cultural que aprisiona identidades e impõe limites desnecessários às possibilidades de viver plenamente. No Brasil que envelhece rapidamente, insistir em padrões que impedem as mulheres de expressarem sua autenticidade é insistir em desigualdades. A maturidade deveria trazer liberdade, consciência e coragem para sermos fiéis a nós mesmas, sem precisar adotar novas prisões sociais. A Análise do Comportamento oferece ferramentas para compreender como tais normas são mantidas e para promover mudanças reais, tanto no plano individual quanto no cultural. E essa mudança começa, inevitavelmente, na relação que cada mulher estabelece consigo mesma, permitindo-se envelhecer com dignidade, autenticidade e beleza em todas as fases da vida.

Referências

Bezerra, A. B., & Martins, A. M. (2023). “A idade pesa”: concepções de envelhecimento para mulheres que realizaram procedimentos estéticos rejuvenescedores. Revista Saber Social, UERJ.

Corrêa, L. S. (2023). Envelhecimento feminino e etarismo nas organizações. Organicom, USP.

Cervera, D. M. B., & Schmidt, M. L. G. (2022). Impactos psicológicos do ageismo em idosos e estratégias para prevenção: estudo de revisão. Revista Psicologia, Bahiana.

“Etarismo é o mais frequente e universal dos preconceitos”. Rádio USP / Jornal USP. (2024). [Entrevista/reportagem].

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2023). Projeção da População do Brasil por sexo e idade: 2000–2060. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/

“Velha demais, jovem demais: o encontro entre gênero e etarismo”. ThinkEVA. (2024).

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