Suicídio de psicólogos(as) e psiquiatras: os impactos do nosso silêncio e estigma

Há inúmeras motivações para a escrita desse texto, mas destacarei duas: uma necessidade de dar continuidade ao excelente texto do Tiago Zortea sobre a morte por suicídio entre psicólogos(as) e psiquiatras1 e um caso recente de um psicólogo brasileiro conhecido que tirou a própria vida – levantando uma série de reflexões sobre o tema. Todos esses fatores trazem à tona a importância de adereçarmos o tabu que permeia o desenvolvimento de comportamento suicida entre profissionais da área da saúde. Além disso, há perguntas que podemos nos fazer, como “há um status de fracasso profissional se alguém da área da saúde mental apresentar comportamentos suicidas?”, “será que serei considerado uma fraude se relatar isso para colegas?”. No texto de hoje, abordarei hipóteses para nosso panorama atual do problema e algumas propostas de solução.

O texto escrito por Zortea aponta fatores como estigma, julgamento de pares e medo de censura profissional como contribuintes para o desenvolvimento do comportamento suicida entre psicólogos(as) e psiquiatras. A partir disso, podemos nos perguntar: até que ponto nossa postura diante do sofrimento de colegas — seja ignorando, silenciando ou patologizando — contribui para manter essas práticas culturais? Além disso, a idealização de rotinas perfeitas nas redes sociais por perfis profissionais da área pode construir uma imagem irreal do que seria “ser um(a) bom(a) psicólogo(a) ou psiquiatra”, pressionando colegas a esconderem seus próprios sofrimentos. Por outro lado, há também o risco de que exposições públicas impulsivas de sofrimento intenso — muitas vezes como uma forma de exposição de uma vulnerabilidade, sem mediação ou rede de apoio — podem, paradoxalmente, provocar identificação e desamparo, especialmente entre estudantes e profissionais em sofrimento, ao reforçar a sensação de que esse sofrimento não encontrará acolhimento legítimo. Ambas as dinâmicas revelam uma tensão importante: carecemos de espaços seguros para vulnerabilidade genuína, sem que isso se transforme em espetáculo ou silêncio.

Barreiras a tratamento

Em uma pesquisa da APA2 sobre assistência entre colegas (APA Colleague Assistance), as barreiras mais frequentemente relatadas ao uso desse tipo de apoio foram: (i) falta de tempo (61% dos respondentes); (ii) minimização ou negação dos problemas (43%); (iii) preocupações com privacidade ou confidencialidade (43%); (iv) vergonha, culpa ou constrangimento (40%); (v) desconhecimento dos recursos disponíveis (31%); (vi) medo de perda de status profissional (29%); e (vii) suporte social inadequado (27%).

Desta forma, podemos inferir que a sobrecarga de trabalho possa contribuir para a falta de tempo. Além disso, a minimização ou negação dos problemas podem produtos de uma comunidade verbal que não toca (ou não toca devidamente) no tema. A vergonha, culpa ou constrangimento podem ser produtos de práticas culturais que fazem a manutenção do estigma de que profissionais da área da saúde mental são um fracasso ao terem problemas de saúde mental que podem desenvolver o comportamento suicida. O desconhecimento de recursos disponíveis e a falta de suporte social adequado sinalizam que não criamos contingências e arranjos institucionais para que psicólogos(as) e psiquiatras possam procurar por amparo em situações de sofrimento significativo. Portanto, precisamos mudar práticas culturais e criar tanto espaços quanto intervenções para identificar e auxiliar pares que estão sofrendo a procurar ajuda.

O que podemos fazer?

Um excelente início consiste em esse tema ser abordado em graduações de Psicologia e de Medicina. Há ênfase na prática de psicoterapia pessoal, contudo isso é rotulado com argumentos de que é uma ferramenta essencial para a carreira clínica em algumas abordagens ou de que é uma forma importante de autocuidado. Também sabemos que tais argumentos não adereçam necessariamente a questão de comportamento suicida: falar sobre sofrimento não significa que estamos falando de suicídio ou que ele está sendo monitorado ativamente. Em função disso, falar explicitamente sobre o desenvolvimento do comportamento suicida em psicólogos(as) e psiquiatras é fundamental para que estudantes saiam da graduação com a consciência do tema e com maior abertura para trazê-lo à tona em situações de necessidade.

Uma outra proposta de intervenção é o treino de guardiões (gatekeeper training3) em clínicas de Psicologia e outros ambientes de atuação interdisciplinar. Essa intervenção consiste na capacitação de pessoas estrategicamente inseridas para identificar sinais de alerta para o suicídio, perguntar diretamente para o(a) profissional da área da saúde se ele(a) está pensando em tirar a própria vida, fazer uma intervenção breve e, em caso afirmativo, auxiliá-lo(a) a encontrar tratamento especializado. Em clínicas de Psicologia nas quais muitos(as) psicólogos(as) transitam no espaço, é possível que profissionais com maior experiência possam fazer essa intervenção, além de recepcionistas, por exemplo, terem o treinamento para identificação de sinais de alerta, podendo comunicá-los para os(as) profissionais mencionados anteriormente poderem reservar um horário e setting adequados para poder fazer a intervenção com o(a) psicólogo(a) com suspeita de estar em risco agudo de suicídio.

A implementação de protocolos de posvenção ao suicídio é outro eixo necessário. Esses protocolos oferecem estrutura para lidar com o impacto coletivo do suicídio de um(a) profissional da saúde mental, promovendo escuta, cuidado e encaminhamentos clínicos para colegas e familiares enlutados(as). Podem ser utilizados em clínicas, tanto psicológicas quanto médicas, hospitais, empresas com departamentos de Recursos Humanos (RH) e outros ambientes que possuam inserção de profissionais de Psicologia e de Psiquiatria. Desse modo, há a possibilidade de enlutados(as) pelo suicídio de profissionais da área da saúde mental poder ter maior espaço de abertura para falar tanto sobre o tema quanto para ter acesso a possibilidades de tratamento em casos que necessitem.

Conclusão

Falar sobre suicídio entre psicólogos(as) e psiquiatras não é apenas um gesto de coragem: é um gesto importante de cuidado. Para nós, para as pessoas que atendemos e para as que estão nas nossas vidas pessoais. Permanecer em silêncio acerca do nosso sofrimento contribui para a fragilidade da nossa prática. Se não mudarmos as práticas culturais que mantêm as coisas como estão, corremos o risco de perder mais colegas para o suicídio. Para isso, precisamos urgentemente criar espaços seguros e institucionalizados para falar sobre sofrimento sem receio de julgamento ou perda de prestígio.

O suicídio é um tema sensível. Se você sentir que precisa de ajuda, entre em contato com algum(a) profissional especializado ou com o Centro de Valorização da Vida (CVV), através do número 188. A ligação é gratuita e disponível 24 horas por dia.

Referências

1 Zortea, T. C. (2015, setembro 22). E quando o psicólogo ou psiquiatra morre… por suicídio? Comportamento e Sociedade. http://comportamentoesociedade.com/2015/09/22/e-quando-o-psicologo-ou-psiquiatra-morre-por-suicidio/

2 Kleespies, P. M., Van Orden, K. A., Bongar, B., Bridgeman, D., Bufka, L. F., Galper, D. I., Hillbrand, M., & Yufit, R. I. (2011). Psychologist suicide: Incidence, impact, and suggestions for prevention, intervention, and postvention. Professional Psychology: Research and Practice, 42(3), 244–251. https://doi.org/10.1037/a0022805

3 Burnette, C., Ramchand, R., & Ayer, L. (2015). Gatekeeper training for suicide prevention: A theoretical model and review of the empirical literature. Rand health quarterly5(1), 16.

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Escrito por Murilo Vasques Buso

Graduação em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Qualificação Avançada em Terapia Analítico-Comportamental pelo Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento. Atuou como terapeuta no Laboratório de Terapia Comportamental Dialética (DBT-LAB).

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