“Vivemos numa época que não quer ser marcada. A maioria de nós tenta escapar das rugas, estas cicatrizes do rosto, de todas as formas – algumas delas bem violentas. Os sinais da idade, da vida vivida, são interpretados como algo alienígena, estranho a nós. Estão ali, mas não deveriam estar. É quase uma traição. Urge então apagá-las.” Eliane Brum
Viver está muito longe de ser uma experiência doce e amistosa. Lidar com eventos internos desagradáveis, como a dor, o desconforto, o medo e a tristeza, faz parte da experiência humana desde os primórdios da nossa história evolutiva e é indissociável da vida. Entretanto, ainda que o sofrimento seja algo recorrente na experiência, em certas circunstâncias, a intensidade, o prejuízo e a frequência deste fenômeno sinalizam a necessidade de busca por auxílio profissional.
Se você possui alguma experiência clínica, deve ter notado que uma importante parcela do que os clientes relatam em sessão diz respeito às emoções, aos pensamentos e a maneira como o sujeito se relaciona com eles, principalmente, sobre aquilo que está envolvido com sofrimento. Regularmente nos deparamos com estratégias utilizadas para manejar eventos internos que envolvem tentativas de evitação, eliminação e controle de estados emocionais, mais especificamente, daqueles que são considerados dolorosos ou “negativos”. Apesar da existência desse padrão comportamental evitativo, tais esforços parecem pouco eficazes e podem acarretar mais sofrimento.
Na ótica proposta pela Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), podemos entender que parte do sofrimento clinicamente relevante decorre das tentativas utilizadas para eliminação ou fuga de emoções e pensamentos. De acordo com Hayes, Strosahl e Wilson [1], grande parcela dos eventos internos que geram sofrimento não estão sob controle voluntário e os esforços envolvidos na tentativa de se sentir de uma maneira diferente podem ser um problema por si só. Assim, as psicopatologias e a dificuldade em se regular emocionalmente, bem como a vivência de uma vida insatisfatória estão relacionadas às ações voltadas ao controle e alteração dos eventos internos, como pensamentos, sentimentos e sensações, o que se denomina de esquiva experiencial [2].
Essa constante utilização de ações focadas na evitação ou controle de eventos encobertos, além de um efeito limitado, pode distanciar o sujeito de reforçadores importantes [3]. A existência pode se tornar limitada à medida que “a vida da pessoa começa a se restringir, as situações evitadas se multiplicam e se deterioram, os pensamentos e sentimentos evitados se tornam mais preponderantes, e a capacidade de estar no momento presente e desfrutar da vida gradualmente diminui” [1]. Ou seja, enquanto buscamos não entrar em contato com certos estados emocionais e pensamentos desconfortáveis, comportamo-nos para evitá-los e não na direção daquilo que realmente importa, ou melhor dizendo, de nossos valores.
Ainda que tais estratégias ocorram na dimensão individual e apenas o sujeito tenha acesso a eventos como emoções e cognições, na perspectiva comportamentalista, a maneira como lidamos com nossa experiência emocional é indissociável do contexto histórico e cultural, tendo em vista que tal modelo entende que, a depender da comunidade, certos repertórios comportamentais distintos e específicos podem ser mais prevalentes do que outros [4]. Em consonância com essa ótica, a vivência em práticas culturais próprias das sociedades ocidentais modernas parece favorecer o desenvolvimento de habilidades de autoobservação e de interação social alinhadas aos padrões dessa cultura [5].
Ao compreendermos que a relação com nossos eventos internos é aprendida e mediada por outras pessoas, o sofrimento clinicamente relevante e as estratégias de evitação, enquanto fenômenos comportamentais, estão sujeitos às leis do comportamento e, consequentemente, não podem ser dissociados de aspectos culturais. Portanto, ainda que no contexto clínico abordamos o sofrimento individual proveniente de um padrão evitativo de eventos internos, faz sentido buscar, além de aspectos idiossincráticos relacionados à esquiva experiencial, contingências culturais da sociedade contemporânea que selecionam e mantêm esse padrão de comportamento.
Segundo Perossi [6], o estilo de vida e a forma particular como o ser humano se insere no mundo contemporâneo, assim como as relações que estabelece com outras pessoas estão vinculadas ao surgimento de sofrimento psicológico. Em uma cultura altamente individualista e cuja experiência humana é privatizada, como a da modernidade, o sujeito é entendido como alguém segmentado do outro, sendo considerado responsável por suas próprias ações de maneira independente e autônoma [7]. Alinhado a essa perspectiva, Tourinho [5] ressalta que as noções de sucesso e fracasso são concebidas como méritos ou deméritos do indivíduo, sendo os aspectos pessoais e habilidades internas o cerne de sua existência e suas conquistas. Assim, atribui-se responsabilidade ao indivíduo, inclusive por aquilo que ocorre internamente, com base em um viés explicativo fundamentado em uma lógica individualista, internalista e, por vezes, mentalista [6].
Adicionalmente, nas sociedades modernas, os avanços tecnológicos ao mesmo tempo que possibilitaram a melhora da qualidade de vida, bem-estar e condição de saúde, tornaram altamente aversivos envelhecer, sofrer e adoecer [8], sendo comum a presença de certas práticas culturais que buscam pela ausência do sofrimento, seja ele físico ou mental [1]. Eventos internos desagradáveis passam a ser compreendidos como indicativos de fracasso pessoal, uma vez que são tomados como problemas do próprio sujeito e, portanto, tornam-se algo a ser controlado, solucionado ou eliminado.
É nesse cenário histórico e cultural que podemos entender a esquiva experiencial como uma prática cultural das sociedades contemporâneas. Todavia, ainda que esse modelo de sociedade considere emoções desagradáveis como algo a ser evitado, o próprio modo de viver individualista, baseado em consumo, produtividade e competitividade, pode desencadear episódios emocionais relacionados à insatisfação, descontentamento, sofrimento e fracasso.
De acordo com Nico, Zeggio e Leonardi [9], a grande oferta de possibilidades de escolhas relacionadas ao consumo, às trajetórias profissionais e aos estilos de vida, marcados por decisões individuais de forma independente e autônoma, envolve, inevitavelmente, o enfrentamento das renúncias atreladas às escolhas feitas, das oportunidades não concretizadas e das experiências não vividas. Tais consequências recaem sobre a responsabilidade do sujeito à medida que se entende que o fracasso ou o sucesso de suas decisões estão íntima e, por vezes, exclusivamente atreladas a si mesmo.
Assim, em uma sociedade que considera o sujeito como responsável por sua condição, não ter uma vida que se parece com aquilo que se propaga como ideal resulta em sentimentos comuns de faltas de competência, capacidade e esforço [6]. O uso das redes sociais pode exemplificar essa questão. É ponto presente que o conteúdo das timelines fazem referência, majoritariamente, a fragmentos ideais e selecionados da vida e, por vezes, distorcidos. Entretanto, além de serem recortes, essas publicações favorecem a comparação e criam padrões de referência muito idealizados e distantes da vida cotidiana, o que pode impactar em sensações de insatisfação e fracasso.
Não há nenhuma novidade no fato de que todos nós iremos sofrer inúmeras vezes em nossa existência, porém, nesse cenário, não há espaço para a expressão do sofrimento e da experiência emocional dolorosa. As contingências culturais presentes nas sociedades contemporâneas ocidentais – ainda que produzam inevitavelmente sentimentos de fracasso, descontentamento e sofrimento – reforçam padrões comportamentais relacionados a sucesso e realização, seja ele real ou aparente. Logo, se a experiência humana passa a ser compreendida de forma autorreferenciada e comportamentos de (aparente) sucesso são altamente reforçados socialmente, esquivar-se de eventos internos dolorosos torna-se um caminho “esperado”, ou em termos comportamentais, selecionado por essas contingências sociais, passando a se constituir como uma prática cultural coerente como esse modo de sociedade.
A responsabilização do sujeito, seja por suas condições concretas ou por seus aspectos psicológicos, acarreta a negligência ou (ainda) a desconsideração das condições contextuais e histórico-sociais na determinação do comportamento. Experiências de dor, mal-estar e desconforto passam a ser vistas como problemas de ordem pessoal, reforçando processos de medicalização, patologização e autocobrança, bem como a constituição da esquiva experiencial como uma prática cultural selecionada e mantida pelo modo de vida contemporâneo. Tal compreensão da esquiva experiencial, como um comportamento aprendido e socialmente reforçado por contingências sociais presentes em nossa cultura, permite um olhar mais contextual e menos patologizante acerca do indivíduo, abrindo espaço para intervenções mais empáticas, sensíveis à história de aprendizagem e ao ambiente relacional.
Referências
[1] Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: O processo e a prática da mudança consciente. Artmed Editora.
[2] Leahy, R. L., Tirch, D., & Napolitano, L. A. (2013). Regulação emocional em psicoterapia: um guia para o terapeuta cognitivo-comportamental. Artmed editora.
[3] Assaz, D. A. (2021). A terapia de aceitação e compromisso. In C. K. B. Oshiro & T. A. S. Ferreira (Orgs.), Terapias contextuais comportamentais: Análise funcional e prática clínica (pp. 106–119). Manole.
[4] Skinner, B. F. (2006). Sobre o behaviorismo. Cultrix.
[5] Tourinho, E. Z. (2009). Subjetividade e relações comportamentais. Paradigma.
[6] Perossi, G. R. (2019). Dimensões sociais da psicopatologia: Um estudo sobre a influência de práticas culturais [Dissertação de mestrado, Universidade Estadual Paulista (UNESP)]. Repositório da UNESP.https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/5280c606-a876-48dd-8165-63d2abe49a47/content
[7] Elias, N. (1990). O processo civilizador: Uma história dos costumes. Zahar.
[8] Skinner, B. F. (1986). What is wrong with daily life in the western world? American Psychologist, 41(5), 568–574.
[9] Nico, Y., Leonardi, J. L., & Zeggio, L. (2015). A depressão como fenômeno cultural da sociedade pós‑moderna – parte I: Um ensaio analítico‑comportamental dos nossos tempos. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/309791434_A_depressao_como_fenomeno_cultural_na_sociedade_pos-moderna_Parte_1_Um_ensaio_analitico-comportamental_dos_nossos_tempos

