Quando o outro vira apenas uma oportunidade: cognição, comportamento e Transtorno da Personalidade Antissocial

A personalidade humana constitui-se ao longo do desenvolvimento a partir da interação entre características individuais e experiências ambientais, organizando padrões relativamente estáveis de perceber, interpretar e agir diante das situações. Allport (1937) compreendia a personalidade como uma organização dinâmica dos sistemas psicofísicos que orientam a adaptação singular do indivíduo ao ambiente. Nessa perspectiva, a personalidade não deve ser compreendida como uma estrutura imutável, mas como uma organização que se desenvolve ao longo da história de vida. Quando determinados padrões se tornam persistentes, rígidos e associados a prejuízos significativos no funcionamento interpessoal e social, pode-se estar diante de um transtorno da personalidade. Entre esses quadros, o Transtorno da Personalidade Antissocial (TPAS) ocupa lugar de particular complexidade clínica, sobretudo pela combinação entre padrões persistentes de desrespeito aos direitos de outras pessoas, impulsividade, irresponsabilidade e dificuldades em estabelecer relações pautadas pela reciprocidade. O presente artigo propõe uma compreensão do TPAS a partir da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), focalizando a maneira pela qual crenças centrais, esquemas, pensamentos automáticos e estratégias compensatórias podem participar da manutenção de determinados padrões antissociais. O objetivo não é reduzir o transtorno a uma única explicação cognitiva, mas apresentar uma formulação clínica capaz de organizar a compreensão de aspectos específicos desse funcionamento.

O TPAS não se manifesta necessariamente de maneira imediatamente evidente nas relações cotidianas. Alguns indivíduos podem apresentar desenvoltura social, capacidade de argumentação, segurança interpessoal e habilidade para adaptar o discurso às circunstâncias. Essas características, isoladamente, não constituem critérios diagnósticos; entretanto, quando articuladas a padrões persistentes de exploração, engano, irresponsabilidade e violação dos direitos alheios, podem integrar um funcionamento antissocial mais amplo. O DSM-5-TR caracteriza o TPAS por um padrão persistente de desconsideração e violação dos direitos de outras pessoas. Entre os elementos diagnósticos estão o descumprimento reiterado de normas sociais e leis, comportamento enganoso, impulsividade ou dificuldade de planejamento, irritabilidade e agressividade, desrespeito pela segurança própria e alheia, irresponsabilidade e ausência de remorso. Para o diagnóstico, o indivíduo deve ter pelo menos 18 anos e apresentar evidências de transtorno da conduta com início antes dos 15 anos (American Psychiatric Association, 2022). A literatura também destaca a importância de considerar trajetórias de desenvolvimento e fatores relacionados à psicopatia na compreensão de determinados padrões antissociais, sem pressupor que todos os indivíduos apresentem a mesma configuração psicológica (Farrington, 2005). Nesse sentido, a heterogeneidade constitui característica importante da pesquisa contemporânea sobre transtornos da personalidade, exigindo que a formulação clínica considere as particularidades de cada indivíduo. Também é necessário diferenciar o TPAS do construto de psicopatia. Embora exista importante sobreposição entre ambos, eles não são conceitos equivalentes: o TPAS apresenta forte ênfase em padrões comportamentais antissociais, enquanto a psicopatia incorpora, além desses aspectos, características interpessoais e afetivas específicas (Anderson & Kelley, 2022; Patrick, 2022). O termo sociopatia, por sua vez, não corresponde a um diagnóstico padronizado e deve ser utilizado com precisão.

Para ilustrar a aplicação desses conceitos, considere-se a seguinte vinheta clínica hipotética. Marcelo, 32 anos, executivo, procura atendimento psicológico após uma exigência institucional decorrente de sucessivos episódios de fraude corporativa e apropriação indevida do trabalho de colegas. Nas primeiras sessões, apresenta excelente capacidade de comunicação, postura segura e discurso organizado. Ao ser questionado sobre as consequências de suas ações para um subordinado que perdeu o emprego, responde: “O mundo corporativo é uma selva; quem não sobrevive é porque é fraco ou ingênuo, e eu apenas otimizei minhas oportunidades”. A afirmação permite observar, dentro de uma formulação cognitiva hipotética, uma maneira particular de interpretar as relações interpessoais. O outro aparece como alguém que pode representar vantagem, ameaça ou obstáculo, enquanto a própria ação é reinterpretada como legítima diante de uma suposta necessidade de autopreservação ou obtenção de vantagem. A vinheta não pretende representar todos os indivíduos com TPAS nem servir como instrumento diagnóstico. Sua função é exclusivamente ilustrativa, demonstrando como uma situação clínica pode ser organizada segundo conceitos da TCC.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), os padrões de interpretação têm papel central na forma como o indivíduo atribui significado às experiências. Beck, Freeman e Davis (2004) explicam que crenças e estratégias de enfrentamento estruturam padrões persistentes de personalidade. No funcionamento antissocial, a formulação cognitiva considera crenças como autossuficiência extrema, necessidade de controle, desconfiança e visão das relações como predominantemente competitivas — com crença central exemplificada por “Se eu não dominar, serei dominado” e pensamentos automáticos como “As regras existem para pessoas fracas”. Tais conteúdos são hipóteses individuais, não traços universais do TPAS, e podem levar a estratégias como manipulação, mentira e exploração, reforçadas por ganhos imediatos que ocultam prejuízos futuros. Do ponto de vista comportamental, torna-se igualmente relevante investigar as condições antecedentes e as consequências que participam da manutenção dessas condutas. Uma ação pode permanecer no repertório porque produz vantagens imediatas, reduz determinadas perdas percebidas ou permite acesso a recursos sociais, materiais ou relacionais, mesmo quando produz consequências negativas em médio ou longo prazo. É preciso investigar, em cada caso, em quais situações e com quais funções esses pensamentos e comportamentos surgem.

Para a intervenção, não há técnica isolada com eficácia amplamente estabelecida para modificar de modo duradouro o comportamento antissocial em adultos; a base de evidências apresenta limitações metodológicas (Gibbon et al., 2020). Diretrizes do National Institute for Health and Care Excellence (2009) incluem intervenções cognitivo-comportamentais para impulsividade, dificuldades relacionais e condutas antissociais, com adaptação ao risco e às características do caso. A TCC oferece recursos como identificação de pensamentos, análise de consequências, resolução de problemas e questionamento socrático, sempre considerando a motivação do paciente. A análise das contingências pode complementar essa formulação ao examinar a relação entre situações antecedentes, respostas e consequências, evitando explicações exclusivamente internas para comportamentos que também possuem história e função no ambiente. A relação terapêutica exige consistência, limites claros e postura ética — sem confronto indiscriminado nem permissividade — visando mudanças funcionais e responsáveis, e não um modelo ideal de personalidade.

O TPAS é um quadro complexo e heterogêneo, que não deve ser reduzido a estereótipos. A TCC fornece instrumentos úteis, sem elevar hipóteses clínicas a explicações universais; a distinção entre TPAS e psicopatia permanece necessária, assim como o reconhecimento de que diferentes indivíduos podem apresentar configurações distintas de comportamento, cognição e funcionamento interpessoal. A prática clínica deve investigar contextos, funções e consequências dos comportamentos, fundamentada em evidências e individualização, sem promessas que ultrapassem o conhecimento disponível. Mais do que classificar o indivíduo, a formulação clínica deve contribuir para compreender como determinados padrões se estabelecem, em quais condições se mantêm e quais possibilidades de mudança podem ser construídas no contexto terapêutico.

Referências

Allport, G. W. (1937). Personality: A psychological interpretation. Holt.

American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR (5ª ed., revisão de texto). American Psychiatric Association Publishing.

Anderson, J. L., & Kelley, S. E. (2022). Antisocial personality disorder and psychopathy: The AMPD in review. Personality Disorders: Theory, Research, and Treatment, 13(4), 397–401. https://doi.org/10.1037/per0000525

Beck, A. T., Freeman, A., & Davis, D. D. (2004). Cognitive therapy of personality disorders (2ª ed.). Guilford Press.

Farrington, D. P. (2005). The importance of child and adolescent psychopathy. Journal of Abnormal Child Psychology, 33(4), 489–497. https://doi.org/10.1007/s10802-005-6361-3

Gibbon, S., Khalifa, N. R., Cheung, N. H.-Y., Völlm, B. A., & McCarthy, L. (2020). Psychological interventions for antisocial personality disorder. Cochrane Database of Systematic Reviews, 9, CD007668. https://doi.org/10.1002/14651858.CD007668.pub3

Glenn, A. L., Johnson, A. K., & Raine, A. (2013). Antisocial personality disorder: A current review. Current Psychiatry Reports,15(12), Article 427. https://doi.org/10.1007/s11920-013-0427-7

National Institute for Health and Care Excellence. (2009). Antisocial personality disorder: Prevention and management (Clinical Guideline No. CG77). https://www.nice.org.uk/guidance/cg77

Ogloff, J. R. P. (2006). Psychopathy/antisocial personality disorder conundrum. Australian and New Zealand Journal of Psychiatry, 40(6–7), 519–528. https://doi.org/10.1080/j.1440-1614.2006.01834.x

Patrick, C. J. (2022). Psychopathy: Current knowledge and future directions. Annual Review of Clinical Psychology, 18, 387–415. https://doi.org/10.1146/annurev-clinpsy-072720-012851

0 0 votes
Classificação do artigo
Avatar photo

Escrito por adrianonicolau

Adriano Nicolau da Silva (CRP: 11855) é psicólogo, psicoterapeuta, professor e pesquisador, com atuação desde a década de 1990. Na psicoterapia, atua clinicamente desde 1993 com base no Behaviorismo Radical e na Análise do Comportamento, acumulando experiência e publicações em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental focadas em ansiedade, depressão e pânico. Como professor, possui trajetória no ensino superior, laboratório de Psicologia Experimental do Comportamento e atuado como supervisor clínico, professor e integra o Núcleo de Apoio Psicopedagógico. Sua formação educacional e clínica reúne formações em Psicologia, Filosofia e Pedagogia, além de especializações voltadas à análise do comportamento, neuropsicologia e educação.
CRP: 11855 - Psicoterapeuta no atendimento adulto - adrins@terra.com.br
Lattes: 5871570596934799
ORCID: 0009-0004-9721-3965
Nome para citações: SILVA, A. N.

Cognição Humana diante da inteligência artificial: Quando a Inteligência deixa de ser exclusivamente Humana