Por uma psicologia política

A cena se repete: o sistema conselhos emite algum posicionamento alinhado com o primeiro princípio fundamental do Código de Ética que diz que “a/o profissional de psicologia  baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos” e a sessão de comentários é preenchida, inundada de dizeres indignadas que afirmam que a psicologia não é política, que ali não é espaço para “politicagem”.

Ou então trazem algo alinhado o segundo princípio fundamental do Código de Ética que diz “o psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”, e novamente, as reações são quase que imediatas: “agora o conselho tá mais preocupado em levantar pauta de esquerda, de ser esquerdista do que em fazer o trabalho deles”.

Algum (a) psi traz todo o contexto socio-histórico, político, analisa um fenômeno psicológico de uma forma alinhada ao terceiro primeiro princípio fundamental do Código de Ética que insta que “o psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural” e ele é visado e é dito que ele está panfletando, que está “militando” – no lugar pejorativo. Ela (e) está trazendo essas perspectivas e é interceptada (o) com “será que a gente poderia voltar para matéria?” – fazendo a Glinda pré acordar pra vida, marionete do sistema.

Esse(a) profissional da psicologia está prezando pelo sétimo princípio fundamental do Código de Ética que diz que ele (a) “considerará as relações de poder nos contextos em que atua e os impactos dessas relações sobre as suas atividades profissionais, posicionando-se de forma crítica e em consonância com os demais princípios deste Código” e ele é desligado de uma instituição por nomear todas essas forças que estão atuando ali.

Todos esses exemplos, tirados de situações reais, e tantos outros não listados aqui partem de uma ideia bastante perigosa e demasiadamente divulgada da “neutralidade”, de uma psicologia neutra como sinônimo de científico; herança de tradições positivistas que inclusive vem desqualificando saberes e campos de saberes inteiros como a psicologia social socio-histórica, psicologia comunitária, saúde coletiva e outros campos que partem de outras epistemologias e que veem a psicologia e a realidade política, econômica, social e cultural como algo indissociável de saúde mental. Além é claro, de uma noção de clínica extremamente limitada e limitante que compreende saúde mental como algo individual- como compreende o neoliberalismo que insta que condições de dignidade, seguridade social, estabilidade financeira e tantas outras dimensões ligadas a saúde são de responsabilidade individual e não coletivas. Que essas conquistas passam por indivíduos, são do campo privado, individual e não de campos coletivos como a política que inclui, dentre outras coisas, políticas públicas. Aqui defino políticas públicas como:

“…Com uma perspectiva mais operacional, poderíamos dizer que ela é um sistema de decisões públicas que visa a ações ou omissões, preventivas ou corretivas, destinadas a manter ou modificar a realidade de um ou vários setores da vida social, por meio da definição de objetivos e estratégias de atuação e da alocação dos recursos necessários para atingir os objetivos estabelecidos.” (Saravia, 2007)

Clamar por uma psicologia política é compreender que, ainda que “político” seja diferente de “partidário”, torna-se fundamental reconhecer qual a história de cada partido e o que ela revela em termos de referenciais ideológicos, que por sua vez orientam todo esse sistema de decisão supracitado e toda a cadeia a partir disso. Afinal, agremiações partidárias distintas alinham-se a perspectivas políticas, econômicas, sociais e culturais e esses alinhamentos podem impactar de maneira direta as condições de saúde, doença e subjetivação dos indivíduos.

Clamar por uma psicologia política é reconhecer que as condições de saúde e doença extrapolam a dimensão individual ou biológica: elas são atravessadas pelo plano social. É admitir que a existência ou ausência de uma rede sólida de seguridade social, acesso universal ao saneamento básico e a efetividade de políticas públicas preventivas, por exemplo, atuam como mediadoras importantes entre o bem-estar e o sofrimento. E que a privação desses direitos fundamentais constitui um vetor constante de vulnerabilização, evidenciando que a sustentação da saúde mental passa por garantia de dignidade e justiça social. Reconhecer essas dimensões é reafirmar a urgência de uma psicologia política e profundamente politizada. Discutir esses elementos – que são intrinsecamente políticos- torna-se indispensável, visto que, sem eles, não existem condições materiais para a produção da saúde. Em última análise, garantir essas bases é fazer uma psicologia conectada aqueles princípios fundamentais expostos no início do texto.

Pensar uma psicologia política é compreender que estratégias de regulação emocional, programas de mindfulness, psicoterapia individual para trauma racial, intervenções com mulheres sobre colocar limites ou para trabalhar a autoestima e quaisquer outras estratégias individuais sozinhas não dão conta. É compreender a necessidade de políticas públicas que garantam seguridade social, pois não ter onde morar é um estressor que não há regulação emocional que dê conta a médio/longo prazo. É compreender a importância das leis existentes que regulamentam o ensino de religiões de matrizes africanas nas escolas, pois uma criança que está sofrendo racismo religioso na escola por ser de uma religiosidade de matriz africana talvez não se beneficie tanto de um programa de mindfulness se ele continuar tendo esse estressor crônico.

Nesse mesmo sentido, melhorar a autoestima de uma mulher em situação de violência sem programas que deem condições materiais para ela sair da situação pode não só não ajudar, como colocá-la mais em risco, aumentando as chances de feminicídio e autoculpabilização. Assim como atribuir à pessoa a criação de repertório para lidar com algo também estrutural como o racismo ou machismo/patriarcado pode só aumentar a carga à qual ela já está sendo submetida, pois agora parece algo que falta nela — como colocar limites, ter autoestima, etc. — para fazer aquela situação parar.

Nota o impacto de não enxergar a psicologia como algo político? Como um fazer político? Nota o impacto de não compreender os princípios fundamentais e com isso não entender a psicologia como instrumento de mudança? Como uma área que precisa estar em profundo diálogo com movimentos sociais, com a política, com aspectos econômicos, históricos etc.? Nota o impacto de não enxergar a psicologia como uma aérea pautada nos direitos humanos?

Clamar por uma psicologia política é clamar por uma psicologia que nos assinala a necessidade nos posicionarmos diante de cenários de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão; a obrigação de trabalharmos de forma a promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades; a necessidade de uma atuação com responsabilidade social (e conexão com o social) e de analisar crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural; a necessidade de basear o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Portanto, clamar por uma psicologia política é clamar por uma psicologia conectada com seus próprios princípios fundamentais presentes no código de ética.

0 0 votes
Classificação do artigo
Avatar photo

Escrito por Isabelle Poli

Sou Psicóloga Clínica formada pela PUC-Rio, onde também concluí o mestrado em Psicologia Clínica na linha de psicologia social, com um projeto de pesquisa voltado para a violência psicológica contra as mulheres praticada por parceiros íntimos. Atualmente, sou doutoranda em Psicologia Clínica pela mesma instituição, na linha de psicologia social, desenvolvendo uma intervenção multinível de terapia em grupo para mulheres sobreviventes de violências contra as mulheres por parceiros íntimos, informada pelo modelo ecológico de Heise, que articula ACT, advocacy e fortalecimento, trabalhando assim na interface da clínica e das políticas públicas.

Tenho pós-graduação em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pelo Centro Brasileiro de Ciência Comportamental Contextual (Ceconte) e formação em Terapia Cognitivo-Comportamental pelo Centro de Psicologia Aplicada e Formação (CPAF). Também sou formada em Terapia Cognitivo-Comportamental para grupos minorizados pelo grupo ofertada pelo Instituto Carioca de Terapia Cognitivo Comportamental (FOCO). Além disso, possuo Domínio Adicional, que consiste em Cursos Superiores de Complementação de Estudos, em Neurociências e Cognição pela PUC-Rio.

No âmbito acadêmico e docente, fui professora universitária nas cadeiras de Ética Profissional, Inclusão e Diversidade Humana, Psicologia Social, Psicopatologia e Tópicos Especiais em Psicologia. Atualmente, leciono em formações e pós-graduações, como na Formação em Terapias Contextuais para Minorias, ministrada pela Prof. Dra. Luana Pereira na plataforma Ello, e atuo como colunista no Comporte-se. No enfrentamento das violências contra as mulheres, atuei em duas frentes voluntárias: o Mapa do Acolhimento e a Comissão de Violência Doméstica da OAB do RJ.

Da Teoria ao Consultório: A Formação do Psicoterapeuta

Burnout docente: uma análise comportamental das contingências no trabalho escolar