Os sonhos interessam à psicologia por envolverem experiências relatadas após o despertar, recordações frequentemente fragmentárias e possíveis relações com acontecimentos da vigília. A neurociência investiga os processos associados ao sonhar e à recordação dos sonhos, enquanto a Análise do Comportamento pode examinar as condições em que esses relatos são produzidos e suas relações com a história de aprendizagem e o contexto atual (Nir & Tononi, 2010; Scarpelli et al., 2022). Embora essas perspectivas possam dialogar, é necessário evitar que o relato seja confundido com uma reprodução integral da experiência ocorrida durante o sono.
No Behaviorismo Radical, reconhecer a existência de eventos privados não significa atribuir-lhes poderes explicativos independentes das condições biológicas, históricas e ambientais. O relato de um sonho constitui um comportamento verbal relevante para a investigação clínica, mas não comprova, isoladamente, uma intenção, um segredo ou uma contingência específica (Moore, 2017; Skinner, 1974; Tourinho et al., 2000). Este trabalho apresenta uma discussão teórica seletiva e uma proposta de investigação clínica, não uma revisão sistemática concluída.
A literatura indica que a experiência onírica e sua recordação variam conforme condições individuais e contextuais. Scarpelli et al. (2022) discutem questões ainda abertas sobre os correlatos neurobiológicos dos sonhos, as diferenças individuais e as relações entre o sonhar e as experiências cotidianas. De modo complementar, a revisão de escopo de Diushekeeva et al. (2024), sobre a exposição a mídias visuais antes de dormir, identificou resultados heterogêneos quanto à incorporação desses estímulos nos relatos oníricos. Esses achados justificam investigar relações entre experiências da vigília e conteúdo dos sonhos, mas não autorizam interpretações universais nem demonstram a eficácia de intervenções analítico-comportamentais específicas.
Considere-se uma vinheta clínica ilustrativa: uma pessoa relata ter sonhado que escondia da esposa uma joia valiosa e que sentia culpa durante o sonho. Esse conteúdo não comprova a existência de um segredo real, uma intenção de ocultação ou uma causa específica para a emoção relatada. Pode, entretanto, orientar perguntas sobre acontecimentos recentes, conversas evitadas, consequências temidas e padrões de comunicação na vigília. A interpretação deve ser construída colaborativamente, sem impor significados simbólicos ou transformar uma hipótese em fato.
A análise funcional procura identificar relações entre contexto, respostas e consequências, considerando a história de aprendizagem e outras variáveis relevantes. A esquiva de uma conversa, por exemplo, somente deve ser considerada mantida por reforçamento negativo quando os dados indicarem que evitar ou adiar a situação reduz ou previne estimulação aversiva e que essa consequência contribui para a manutenção da resposta. O sentimento de culpa ou o conteúdo do sonho não demonstram, por si sós, esse processo. Reforçamento e punição são definidos pelos efeitos que produzem sobre a probabilidade futura do comportamento, e não apenas pela intenção de quem age ou pela avaliação subjetiva da consequência (Catania, 2013; Cooper et al., 2020; Skinner, 1953).
A Teoria dos Quadros Relacionais (RFT) oferece uma perspectiva complementar para investigar como relações verbais derivadas podem alterar as funções dos estímulos (Hayes et al., 2001). No contexto clínico, essa abordagem permite examinar como a pessoa relaciona elementos do sonho a situações da vida cotidiana e como essas relações podem participar de respostas de aproximação ou esquiva. Entretanto, essas relações não devem ser inferidas exclusivamente pelo conteúdo da narrativa. É necessário investigar como se estabeleceram, em quais contextos ocorrem e quais efeitos apresentam sobre o comportamento. A contribuição da RFT, nesse caso, está na formulação de hipóteses sobre relações verbais e transformação de funções de estímulos, não na decodificação simbólica dos sonhos.
Propõe-se, para investigação futura, o Treino de Análise Funcional de Relatos Oníricos (TAFRO), procedimento destinado a verificar se a discussão estruturada dos sonhos acrescenta benefícios à análise funcional habitual. O protocolo compreenderia cinco etapas: registro descritivo do sonho, sem interpretação simbólica; identificação colaborativa de situações recentes da vigília; definição operacional de possíveis respostas de esquiva; ensaio de respostas alternativas, como comunicação assertiva e resolução de problemas; e acompanhamento dessas respostas no ambiente cotidiano. O objetivo não seria decodificar sonhos, mas investigar se o procedimento contribui para identificar padrões comportamentais relevantes e ampliar repertórios adaptativos. O TAFRO permanece uma proposta metodológica, não uma intervenção com eficácia estabelecida.
Um estudo inicial deveria definir a população, os critérios de elegibilidade, os procedimentos, a condição comparadora e o desfecho primário antes do recrutamento. Uma possibilidade seria comparar o TAFRO com o atendimento habitual associado ao registro livre de sonhos, desde que essa comparação fosse justificada clínica e eticamente. O desfecho principal poderia ser a frequência de respostas de esquiva previamente definidas em situações-alvo; medidas validadas de ansiedade ou culpa poderiam ser utilizadas como desfechos secundários. Frequência cardíaca e atividade eletrodérmica, se incluídas, não deveriam ser interpretadas como indicadores específicos de culpa.
O protocolo também precisaria prever justificativa do tamanho amostral, consentimento informado, aprovação ética antes do recrutamento e registro prospectivo. Sempre que viável, os avaliadores dos desfechos poderiam desconhecer a condição atribuída aos participantes. Um delineamento paralelo pode ser mais adequado quando houver possibilidade de aprendizagem persistente entre períodos, enquanto um estudo cruzado exigiria justificativa metodológica e consideração de possíveis efeitos residuais (Dwan et al., 2019). Uma revisão sistemática futura precisaria documentar as bases consultadas, as estratégias de busca, os critérios de seleção, os motivos de exclusão e a avaliação do risco de viés. O PRISMA 2020 oferece diretrizes para relatar revisões sistemáticas, mas não substitui sua execução nem garante, isoladamente, a qualidade da evidência (Page et al., 2021). Uma metanálise somente seria indicada se os estudos apresentassem comparabilidade suficiente.
Conclui-se que os sonhos podem constituir material auxiliar à investigação clínica, desde que seus relatos sejam examinados no contexto da vida cotidiana e não tratados como revelações diretas de intenções ocultas. A contribuição da Análise do Comportamento consiste em formular hipóteses funcionais verificáveis e revisá-las conforme os dados. A RFT pode complementar essa investigação ao permitir examinar relações verbais derivadas e suas possíveis funções comportamentais. O TAFRO representa uma proposta para investigação empírica, cuja utilidade clínica incremental dependerá de estudos transparentes, eticamente conduzidos e passíveis de replicação.
Referências
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