Quando o outro passa a morar na forma como eu me vejo: Violência Psicológica e construção de si: Uma leitura a partir do Processo de Self da Terapia de Aceitação e Compromisso.

“Você é muito sensível.”
 “Você não consegue fazer nada sozinha.”
 “Ninguém vai te aguentar.”
 “O problema é você.”

O que acontece quando aquilo que alguém diz repetidamente sobre uma pessoa começa a parecer uma descrição de quem ela é?

Ao longo da história, as pessoas constroem narrativas sobre si mesmas. Aprendem a se descrever a partir das relações que estabelecem, das regras e crenças aprendidas culturalmente e das experiências vividas em seus contextos. “Sou difícil de lidar.” “Sou incapaz.” Essas são apenas algumas das formas pelas quais uma pessoa pode passar a organizar verbalmente a própria experiência.

Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), os seis processos do modelo não são compreendidos de forma isolada, uma vez que são sensíveis aos ambientes sociais, culturais e biológicos nos quais as pessoas estão inseridas. Nesse sentido, é possível compreender a relação estabelecida com as descrições sobre si a partir dos diferentes processos de self.

O self como conteúdo diz respeito às descrições que uma pessoa constrói sobre quem é a partir de suas histórias, papéis, lembranças, regras e experiências. Essas descrições fazem parte de sua história e podem ser úteis para organizar sua experiência. O problema não está em possuir uma narrativa sobre si, mas em quando essa narrativa se torna rígida e a pessoa passa a se relacionar com ela como se fosse uma verdade absoluta.

Afinal, uma coisa é pensar: “estou me sentindo incapaz diante dessa situação”; outra é viver a partir da certeza de: “eu sou incapaz”.

Quando ocorre uma fusão cognitiva com essas narrativas, a pessoa pode deixar de percebê-las como descrições construídas ao longo de sua história e passar a tratá-las como fatos sobre quem é.

Já o self como contexto refere-se à perspectiva a partir da qual uma pessoa pode observar seus pensamentos, sentimentos, papéis e histórias sem precisar se fundir a eles. Trata-se da possibilidade de perceber que é possível ter uma história sobre si sem ser completamente definida por ela.

A violência contra as mulheres é um fenômeno social de alcance mundial, presente em diferentes contextos e atravessado por marcadores sociais, relações de gênero e estruturas de poder. É considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um problema de saúde pública. (BRASIL, 2026)

A violência contra as mulheres não se manifesta de uma única maneira. Ela pode assumir diferentes formas, entre elas a violência física, sexual, patrimonial, moral e psicológica, que podem ocorrer de maneira isolada ou simultânea, articulando-se a diferentes formas de controle e desigualdade presentes nas relações.

No contexto específico da violência psicológica contra mulheres, essa discussão merece um cuidado ainda maior.

As narrativas que uma mulher constrói sobre si não surgem no vazio. Elas podem ser produzidas, reforçadas e mantidas em relações marcadas por controle, desqualificação, humilhação e desigualdade de poder.

A repetição de determinadas frases dentro de uma relação marcada pela violência pode fazer com que a mulher não apenas passe a ouvir que é incapaz, inadequada ou difícil, mas também comece a organizar a própria experiência a partir dessas descrições. O que inicialmente vem do outro pode, ao longo da história da relação, passar a compor a maneira como ela se relaciona consigo mesma e interpreta suas experiências.

É nesse ponto que a narrativa sobre quem a mulher é pode se tornar rígida, passando a organizar e manter suas escolhas, relações e comportamentos a partir dessas descrições. O mundo descrito pela linguagem pode se tornar tão dominante que outras possibilidades de experiência e de relação consigo mesma deixam de ser percebidas.

Pensar o self como contexto, nesse cenário, pode contribuir para ampliar a relação que a mulher estabelece com essas narrativas. Não se trata de substituir rótulos negativos por positivos, nem de simplesmente construir pensamentos positivos sobre si mesma. Trata-se de abrir espaço para perceber: “tenho essa história sobre mim, mas essa história não precisa definir toda a minha vida”.

Essa perspectiva pode favorecer maior flexibilidade psicológica e criar espaço para que as mulheres reconheçam suas experiências sem se reduzirem aos rótulos que aprenderam a atribuir a si mesmas. A partir disso, torna-se possível entrar em contato com quem desejam ser, com suas necessidades e com os valores que, ao longo da dinâmica da violência, podem ter sido silenciados, afastados ou deixados em segundo plano.

Nesse sentido, os processos da ACT podem contribuir para ampliar as possibilidades de ação e fortalecer a autonomia das mulheres, não porque precisem mudar a forma como pensam para deixar de sofrer, mas porque uma relação mais flexível com suas próprias narrativas pode abrir espaço para escolhas que façam sentido para elas e para a vida que desejam construir.

E talvez uma das perguntas mais importantes quando se discute a violência psicológica a partir da Terapia de Aceitação e Compromisso seja:

Quando uma mulher passa a acreditar que o problema é ela, estamos diante de uma verdade sobre quem ela é ou diante de uma história construída e reforçada em determinado contexto?

Referências 

BRASIL. Polícia Federal. Outros tipos de violência. Brasília, DF: Polícia Federal, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/glossario-de-direitos-humanos/outros-tipos-de-violencia. Acesso em: 29 ago. 2026.

HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk D.; WILSON, Kelly G. Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Violence against women prevalence estimates, 2023: global, regional and national prevalence estimates for intimate partner violence against women and non-partner sexual violence against women. Geneva: World Health Organization, 2025. 

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Escrito por isabelacamargo

**Isabela Camargo** é psicóloga (CRP 06/151026), formada em 2018. Atua na clínica online com mulheres, orientada pela Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), e possui experiência em ações voltadas à garantia de direitos e ao enfrentamento da violência de gênero. Tem formação em ACT e capacitação em atendimento a mulheres. Seus principais temas de interesse incluem saúde mental das mulheres.

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