O papel do terapeuta diante dos dilemas de valores dos seus pacientes

Ao falar em Terapia de aceitação e compromisso (ACT), um dos pilares que norteiam a nossa prática são os valores, que são “caminhos escolhidos que o indivíduo define como importantes e significativos” (Stoddard & Afari, 2025, pág. 159). Diante deles, temos a oportunidade de destrinchar junto com os pacientes o que de fato lhes importa e os direcionaria a uma vida mais desejosa e significativa.

Os valores são construções pessoais e contextuais, e nesse sentido, a história de vida pessoal, cultural e contextual do paciente monta esse conjunto de qualidades de ação que lhes são preciosas. Valores são como direções de vida e não metas a serem alcançadas, por isso, não é algo que em dado momento faremos um check de conclusão. Trata-se muito mais de uma bússola que direciona dia a dia as nossas ações.

Considerando que cada um de nós veio e convive com determinados núcleos familiares e sociais, um primeiro desafio que se apresenta é começar um processo de diferenciação entre o que é importante para mim e o que eu deveria valorizar. Afinal, mesmo que eu tenha aprendido determinado conjunto de normas e expectativas sobre “ser” e agir de determinada maneira, é possível que em algum momento eu passe a questionar se realmente aquele determinado modus operandi ainda faz sentido para mim.

Aqui surge um desafio para o psicólogo que está atendendo o paciente com esses questionamentos: não imprimir no paciente os seus próprios valores, como sendo uma verdade universal. O terapeuta também possui a sua história, suas crenças e concepções do que considera como uma vida significativa e, por isso, precisa atentar para não transferir suas próprias referências do que seria uma “boa escolha” para o paciente. Alguns exemplos de temas comuns que surgem: relacionamentos, maternidade/paternidade, carreira, dinheiro, espiritualidade, autonomia, dentre outros. E é importante lembrar que “mesmo os “bons” terapeutas ACT têm questões pessoais e conteúdo psicológico temido” (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021, pág. 129).

Sob esse prisma, cabe uma distinção importante: favorecer mudança x determinar qual mudança deve acontecer. O seu papel enquanto profissional é promover a autorreflexão a partir dos dados e parâmetros do próprio paciente, mas isso não significa exigir que ele tome uma atitude A ou B, baseado no que lhe disse antes. Portanto, o papel do terapeuta não é conduzir para um determinado caminho, que lhe pareça mais saudável ou produtivo e sim criar condições de reflexão para que o paciente perceba possíveis discrepâncias entre valores declarados e ações, e a partir disso reavaliar possibilidades de mudança.

Troque a pergunta: “Qual seria a melhor escolha para esse paciente?” para “Como posso ajudá-lo a construir uma vida que faça sentido para ele, sem precisar decidir por ele?”. Foque em trazer perguntas e não um passo a passo ou a noção de certo/errado.

Para concluir, deixo um lembrete a você psicólogo:

Promover flexibilidade psicológica aos nossos pacientes é um exercício que deve começar conosco. Por isso, acompanhar a lapidação de valores de um paciente envolve trazer a ele questionamentos e não direcionamentos. O processo de escolha é dele, e talvez ele queira escolher um rumo que não seja exatamente aquele que você escolheria. Está tudo bem nisso, pois nem sempre o que é importante e essencial para nós o será para o nosso paciente.

Referências Bibliográficas

Hayes, S.C., Strosahl, K.D. & Wilson, K.G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a pratica da mudança consciente. Porto Alegre: Artmed

Stoddard, J.A. & Afari, N. (2025). O grande livro de metáforas da ACT. Novo Hamburgo: Sinopsys Editora

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Escrito por Mariana Poubel

Graduada em Psicologia pela UFRJ (2012) e mestre em Saúde Mental pelo IPUB/UFRJ (2015). Fez curso de formação em Terapia Cognitivo Comportamental para adultos e infanto juvenil, curso de capacitação em análise do comportamento e formação em terapias contextuais e Terapia de aceitação e compromisso.
Atua como terapeuta, supervisora e mentora.

Email para contato: marianapoubel@gmail.com
Instagram: @marianapoubel.psi

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