Quando o conflito vira violência: limites clínicos, ética e gênero na terapia de casal

Em nossa prática clínica, o acolhimento de casais imersos em crises agudas e desregulação emocional é uma demanda constante. Quem atua sob a lente da Terapia Comportamental Dialética (DBT) foi treinada(o) para mapear vulnerabilidades biossociais, identificar hierarquia de alvos, conduzir análises em cadeia e treinar repertórios de efetividade interpessoal e de regulação emocional [1]. Entretanto, diante de um casal em sofrimento, há uma pergunta essencial que precisa orientar o nosso raciocínio desde o primeiro contato na triagem: quando é que a crise que estamos avaliando deixa de ser um déficit de repertório e passa a ser uma dinâmica estruturada de violência?

Chamar violência doméstica de “conflito intenso” é um erro que pode produzir revitimização e violência institucional dentro do próprio consultório [2]. Para evitar a armadilha de reduzir a opressão interpessoal a um mero “problema de comunicação a dois”, precisamos afinar nossa escuta através da análise funcional do comportamento e de um letramento indispensável sobre as dinâmicas de gênero.

Conflito intenso situacional ou relacionamento abusivo?

Nem todo relacionamento difícil ou acalorado é um relacionamento abusivo. O conflito interpessoal faz parte das relações humanas e pode funcionar inclusive como oportunidade de diferenciação e negociação de limites [1]. Casais podem divergir intensamente sobre finanças, rotina doméstica ou educação de filhos. A marca definidora do Conflito Intenso Situacional é a existência de uma relativa simetria de poder. O poder, segundo Nicolodi, é definido pela possibilidade de dispor contingências, reforçadoras ou punitivas, para o comportamento de outra pessoa. Ou seja, quem detém maior controle ou “domínio” sobre os reforçadores e punidores que afetam a vida do outro é quem possui mais poder na relação.[5] Em um conflito simétrico, ambos os parceiros conseguem verbalizar seus incômodos, influenciar o curso da interação e sustentar concessões mútuas, sem que a liberdade básica de nenhum deles esteja sendo sequestrada. 

Por outro lado, a Violência não se mede primariamente pela frequência dos gritos ou pela presença de lesões físicas imediatas, mas pela instalação progressiva de um padrão de dominação contínua, vigilância, isolamento e cerceamento da autonomia de um dos cônjuges, mais comumente da mulher [4]. Há a presença do medo crônico e a alteração drástica do repertório comportamental da vítima. A parceira passa a monitorar cada gesto, altera o tom de voz, muda a forma de se vestir, afasta-se de familiares e amigos e passa a viver em constante hipervigilância, moldando sua conduta não apenas para tentar adiar, evitar ou atenuar a próxima punição, mas também pelas “gaiolas douradas” do reforçamento positivo (os momentos de lua de mel, as promessas de mudança e os elogios dirigidos à submissão da parceira) que são ferramentas altamente eficientes do patriarcado para paralisar a mulher e impedir que ela consiga reagir.[5] 

Embora no campo da sociologia o termo “controle coercitivo” (de Evan Stark) seja amplamente aceito para descrever o terrorismo íntimo e o monitoramento invisível, na análise do comportamento, a crítica de Nicolodi nos alerta: não podemos olhar para o controle procurando apenas agressões físicas ou medo explícito[5]. O que está em jogo aqui não é uma “discussão passional desregulada”, mas a imposição de um estado de sítio subjetivo. É comum a vítima sentir intensa culpa, medo de “chatear” o parceiro e vergonha intensa, o que dificulta que ela relate para outras pessoas, inclusive terapeuta, sobre os abusos que vive diariamente, agravando o estado de isolamento e de “confusão mental” em que vive. 

A ilusão da neutralidade clínica e o patriarcado na análise do comportamento

Muitos modelos tradicionais de atendimento conjugal sustentam uma premissa perigosa de “neutralidade clínica” e causalidade estritamente circular, tratando as desavenças como se ambos os parceiros fossem invariavelmente corresponsáveis pelo padrão destrutivo. Na clínica das relações íntimas, essa postura de suposta isenção é um equívoco ético! A violência contra a mulher não decorre de uma contingência puramente individual; ela opera alicerçada em uma assimetria estrutural de poder! 

Essa articulação ganha sustentação teórica direta no estudo de Laís de Godoy Nicolodi [5], que analisou as contingências do patriarcado sob a perspectiva analítico-comportamental, demonstrando como práticas culturais mantêm repertórios de dominação masculina e subordinação feminina por meio de regras, contingências, e arranjos sociais que legitimam privilégios. Como a socióloga Heleieth Saffioti [6] já demonstrava, o patriarcado opera como uma estrutura social objetiva em que a violência é o instrumento de controle da ordem de dominação-exploração.

No patriarcado, o fato de pertencer ao sexo masculino garante aos homens maior controle sobre recursos socioeconômicos e políticos. Esse poder histórico permite que eles arranjem as contingências das relações íntimas, mantendo as mulheres subordinadas e restritas a um repertório comportamental limitado e com menores graus de escolha genuína (a opressão).[5]  Baum define a exploração como a prática controladora em que a parte mais poderosa aumenta seu próprio acesso a reforçadores enquanto reduz ou restringe o acesso da parte menos poderosa. A violência é, portanto, o mediador físico e simbólico dessa exploração.[12]

Como aponta Nicolodi, a Análise do Comportamento e o feminismo crítico compartilham de uma postura epistemológica radicalmente contextualista e interacionista, rejeitando explicações mentalistas e essencialistas.Tratar um cenário de controle coercitivo como se fosse “briga de casal” camufla as contingências patriarcais sob um discurso psicologizante. A(o) terapeuta que assume essa “neutralidade” e investiga “o que a mulher fez para desencadear a fúria do parceiro” não está sendo técnico: está reforçando as regras do agressor e prestando um desserviço ético à proteção da paciente [2].

A armadilha da psicopatologização e as armaduras do “dispositivo amoroso”

Mulheres expostas a ambientes cronicamente hostis e aterrorizantes costumam chegar à clínica apresentando manifestações severas de sofrimento psíquico, como sintomas de ansiedade generalizada, depressão profunda e sinais consistentes com Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo (TEPT-C). Diante desse quadro de extrema sobrecarga, é frequente que profissionais desatentos cometam o erro da psicopatologização da vítima, diagnosticando-a apressadamente como “emocionalmente instável”, “dependente disfuncional” ou atribuindo-lhe traços de transtorno de personalidade. Transforma-se uma resposta adaptativa de sobrevivência a um contexto aversivo crônico em um defeito intrapsíquico individual.

Para compreender por que tantas mulheres permanecem ou encontram imensas barreiras para romper esses vínculos, a leitura de Valeska Zanello [7] sobre os processos de subjetivação de gênero é indispensável. Zanello conceitua o dispositivo amoroso, demonstrando como as mulheres em nossa cultura são ensinadas a medir seu valor identitário na “prateleira do amor”, isto é, na condição de serem escolhidas e de sustentarem a relação afetiva e familiar a qualquer custo, frequentemente sobrecarregadas pelo ideal do auto anulamento e do cuidado abnegado.

Enquanto os homens são historicamente socializados no dispositivo da eficácia (reforçados pelo domínio, virilidade e ocupação do espaço público), a mulher internaliza que o fracasso da relação ou as agressões do parceiro decorrem de sua própria incapacidade de “ter paciência” ou “cuidar melhor” [7]. Quando a paciente verbaliza autorregras como “se eu agir diferente, ele vai mudar” ou “eu sou fraca por não conseguir lidar com ele”, ela está sob controle das contingências do dispositivo amoroso. A desregulação emocional que ela exibe no consultório é fruto do ambiente invalidante e da coerção contínua, e não a causa da violência sofrida.

Terapia de casal na violência ativa: uma contraindicação

A psicoterapia conjunta de casal é formalmente contraindicada diante de violência [8]. Sustentar atendimentos conjuntos nesses cenários viola princípios basilares da conduta terapêutica:

  1. Quebra da Não-Maleficência e Risco de Letalidade: Expor vulnerabilidades, queixas ou episódios de violência dentro de uma sessão conjunta coloca a mulher sob risco agudo de retaliação e agressões físicas severas assim que ela cruza a porta do consultório [8]. Além disso, a terapia de casal pode contribuir para que o abusador refine suas táticas de controle e coerção.
  2. Instrumentalização do Enquadre Clínico: Agressores coercitivos utilizam estratégias contínuas de manipulação e desqualificação da realidade da mulher (gaslighting). Na sessão conjunta, o autor da violência frequentemente utiliza falas do terapeuta ou exposições da parceira para reforçar sua narrativa culpabilizadora no ambiente doméstico.
  3. Inviabilidade de Comunicação Segura: Sob o olhar vigilante do parceiro, a paciente é forçada a omitir fatos cruciais por medo das consequências, tornando a intervenção inviável e fictícia [8].

Validação sem conivência: o manejo dialético na DBT

Ao recebermos pessoas em contextos de vulnerabilidade relacional, o caminho da DBT apoia-se no equilíbrio dialético entre a aceitação radical da experiência e o compromisso ético com a mudança segura [9]. Pela via da validação, a terapeuta compreende e acolhe com empatia genuína a dor, a sobrecarga e a profunda ambivalência da paciente. Compreendemos funcionalmente que a dificuldade em romper a relação decorre de barreiras materiais, financeiras, afetivas e, acima de tudo, do medo real do perigo associado à separação . Isentamos a vítima de qualquer culpa pela violência sofrida!

Ao mesmo tempo, praticamos rigorosamente a validação sem conivência [1, 9].Como pontua Alan Fruzzetti [1], validar a dor e os sentimentos jamais significa normalizar, relativizar ou tolerar a conduta violenta. Nosso papel não é compactuar com a ilusão da “lua de mel” do ciclo abusivo, mas sim atuar como âncora de realidade, auxiliando a paciente a discriminar as contingências de coerção e a resgatar a clareza sobre seus próprios limites e segurança.

Diretrizes para uma prática clínica protetiva

Para desenhar uma conduta terapêutica ética e protetiva no cotidiano clínico, recomendo a estruturação dos seguintes passos:

Triagem Individual Obrigatória: Nunca inicie um processo de casal sem realizar ao menos uma sessão individual, confidencial e sigilosa com cada parceiro [8]. É nesse espaço de segurança que se rastreia a presença de violência e controle.

Investigação Funcional do Medo: Pergunte diretamente e com acolhimento: “Você sente medo de expressar discordâncias em casa?”, “Você teme pela sua segurança ou pela integridade dos seus filhos quando ele se irrita?”.

Avaliação de Risco e Rastreio de Letalidade: Diante da suspeita de violência, investigue ativamente fatores críticos como histórico de asfixia/enforcamento, ameaças explícitas de morte, perseguição (stalking) e acesso a armas de fogo e/ou outros meios letais[10].

Coconstrução de um Plano de Segurança: O momento da separação é estatisticamente o período de maior risco de letalidade e feminicídio. Por isso, não pressione a paciente para um rompimento intempestivo; em vez disso, estruture colaborativamente planos de contingência (redes de contato de emergência, documentos guardados em local seguro, palavras-código e rotas de apoio).

Atuação em Rede Intersetorial: A psicologia clínica não atua isolada. O cuidado deve ser articulado com a rede pública de proteção, como CREAS, Centros de Referência da Mulher, Defensorias Públicas e serviços de assistência social e jurídica [11].

Nos encontramos no I Congresso Brasileiro de DBT

Essas fronteiras clínicas, éticas e de gênero exigem aprofundamento contínuo e responsabilidade técnica de todos nós. Terei a honra de debater esses critérios operacionais e o manejo da diferenciação entre conflito e violência na Mesa 8 do I Congresso Brasileiro de DBT da ABDBT, que acontecerá no dia 02 de outubro de 2026, às 14h, com o tema: “DBT para Casais: Quando o conflito deixa de ser apenas conflito: Limites clínicos, ética e violência nas relações íntimas”.

A função da terapia nunca foi manter uma relação de pé a qualquer preço. Nosso compromisso primeiro é com a segurança e empoderamento: contribuir para proteger a vida da vítima e fornecer o suporte necessário para que cada mulher possa construir e sustentar uma vida que realmente valha a pena ser vivida com segurança, autonomia e dignidade.

Sugestões de Leitura Complementares

Para compreender como a teoria comportamental analisa criticamente as dinâmicas patriarcais e a coerção social, vale a leitura atenta da dissertação de mestrado Considerações sobre o patriarcado na perspectiva analítico comportamental, de Laís de Godoy Nicolodi, defendida na USP sob orientação da Profa. Dra. Maria Helena Leite Hunziker.

Para aprofundar os estudos sobre o sofrimento psíquico das mulheres e as amarras dos dispositivos de gênero na cultura brasileira, recomendo a obra Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação, de Valesca Zanello.

Referências Bibliográficas

[1] Fruzzetti, A. E., & Levensky, E. R. (2000). Dialectical behavior therapy for domestic violence: Rationale and procedures. Cognitive and Behavioral Practice, 7(4), 435-447.

[2] Curia, B. G., Graff, G. G., Zamora, J. C., & Habigzang, L. F. (2020). Violência institucional na rede de atendimento às mulheres em situação de violência. Psicologia: Ciência e Profissão, 40, e219213.

[3] Johnson, M. P. (2008). A typology of domestic violence: Intimate terrorism, violent resistance, and situational couple violence. Boston: Northeastern University Press.

[4] Stark, E. (2007). Coercive control: How men entrap women in personal life. New York: Oxford University Press.

[5] Nicolodi, L. G. (2020). Considerações sobre o patriarcado na perspectiva analítico comportamental (Dissertação de Mestrado em Psicologia Experimental). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. Orientadora: Maria Helena Leite Hunziker.

[6] Saffioti, H. I. B. (2015). Gênero, patriarcado, violência (2ª ed.). São Paulo: Expressão Popular: Fundação Perseu Abramo.

[7] Zanello, V. (2018). Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris.

[8] Schraiber, L. B., & d’Oliveira, A. F. P. L. (2019). Protocolo de atendimento a mulheres em situação de violência. São Paulo: Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP / University of Bristol.

[9] Linehan, M. M. (2010). Terapia cognitivo-comportamental para transtorno da personalidade borderline. Porto Alegre: Artmed.

[10] Campbell, J. C., Webster, D. W., & Glass, N. (2009). The danger assessment: Validation of a lethality risk marker for intimate partner femicide. Journal of Interpersonal Violence, 24(4), 653-674.

[11] Conselho Federal de Psicologia. (2022). Germinário: Mulheres, psicologia e enfrentamento às violências. Brasília: CFP.

[12] Nicolodi, L. G., & Hunziker, M. H. L. (2021). O patriarcado sob a ótica analítico-comportamental: considerações iniciais. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 17(2), 164-175. http://dx.doi.org/10.18542/rebac.v17i2.11012

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Escrito por Andressa Quednau

Psicóloga clínica graduada pela Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Possui formação Btech em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e atuação como treinadora de habilidades DBT e líder do programa Family Connections.
Realizou treinamentos internacionais de referência na área de trauma e regulação emocional: DBT-PE com Melanie Harned (PhD), DBT-PTSD com Martin Bohus (MD, PhD), TCC para Comportamento Suicida (TCC-B) com Craig Bryan (PsyD) e Justin Baker (PhD), Terapia de Processamento Cognitivo (CPT) com Kathleen Chard (PhD) e Emotion Efficacy Therapy (EET) com Aprilia West. Possui formação em EMDR, formação em terapia de casal e capacitações especializadas no atendimento a mulheres e a adultos com TDAH e TEA.
Atua como supervisora clínica e mentora de psicólogos em formação e em prática clínica.
Sua atuação é voltada ao cuidado de pessoas sensíveis e de alta intensidade emocional, com histórias de sofrimento complexo ou vínculos desafiadores, integrando rigor científico e escuta clínica aprofundada na construção de uma vida emocionalmente sustentável.

Estratégias de autorregulação não convencionais: nem toda regulação parece regulação