O manejo da Endometriose sob a ótica da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)

A dor da Endometriose
A endometriose é uma condição crônica que atinge cerca de 10% a 15% das mulheres em idade reprodutiva [2]. Para além da patologia física, ela é acompanhada por dores incapacitantes que exigem uma análise para além do biológico.

Como aponta minha revisão integrativa [3], o tratamento deve ser pautado na compreensão da dor como um fenômeno comportamental complexo, onde a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) surge como uma abordagem mais indicada, focando mais em processos de aceitação, consciência plena e contexto.

Mudando a relação com o sofrimento: a perspectiva da ACT
Diferente das abordagens que tentam “corrigir” pensamentos ou eliminar a dor, a ACT propõe uma mudança na relação que a paciente estabelece com o seu sofrimento. Isto porque, na clínica da endometriose, questionar a veracidade ou a intensidade da dor é contraproducente e invalidante.

Sendo assim, o foco da intervenção não é a dor em si, mas os impactos que ela gera no repertório da paciente e como ela responde a esses eventos privados.

Fuga e Esquiva: Comportamentos que mantêm o sofrimento
Dentre os mecanismos centrais na manutenção do sofrimento na endometriose estão a fuga e a esquiva.

Ou seja, é comum que mulheres reduzam as suas tarefas diárias para evitar ou romper com esse sofrimento, um processo de reforçamento negativo caracterizado pela esquiva (não iniciar a tarefa para prevenir o desconforto que ela sabe que virá) e pela fuga (interromper a atividade assim que a dor se torna insuportável).

Entre a autoproteção e a restrição da vida
Contudo, é fundamental validar que é extremamente difícil manter qualquer nível de atividade sob uma dor física intensa e exaustiva.

E, embora essas respostas de autopreservação gerem um alívio imediato e necessário da crise, a longo prazo elas podem restringir severamente o repertório de vida, gerando um isolamento e privação de reforçadores positivos. 

Flexibilidade psicológica e ação orientada por valores
A ACT trabalha para que a paciente retome ações importantes de forma compassiva, promovendo a flexibilidade psicológica: o foco deixa de ser a luta inglória pelo alívio total do sintoma e passa a ser a orientação por valores, permitindo o agir (dentro do que é possível em cada momento)  mesmo na presença do desconforto.

Reconstruindo a identidade para além do diagnóstico
A revisão integrativa reforça que a endometriose afeta, também, a identidade feminina e a dinâmica familiar [1]. Com a ACT, ajudamos a paciente a mapear o que ainda é valoroso para ela, para além do diagnóstico.

Além disso, processar o luto por planos adiados (como a maternidade, carreira, etc.), validando o sofrimento enquanto se constroem novas formas de agir no mundo.

Os processos terapêuticos da ACT na Endometriose
Neste sentido, o objetivo central é a promoção de flexibilidade psicológica por meio de processos contextuais:

Desfusão e evento verbal: Em vez de tentar “reestruturar” o pensamento “esta dor vai destruir o meu dia”, a paciente aprende a observá-lo apenas como um evento verbal. Ela desfunde-se do pensamento, entendendo que ele é um produto da sua história, mas não precisa ditar o seu comportamento.

Aceitação ativa: Aceitar não é se resignar, mas, sobretudo, permitir que a dor esteja presente sem dedicar toda a energia vital a uma luta exaustiva (e muitas vezes inútil) para eliminá-la antes de começar a viver.

A dor como passageira, não como motorista
Podemos, em uma metáfora, comparar a dor da endometriose a um “passageiro barulhento” num automóvel conduzido pela paciente.

O passageiro (a dor) grita e tenta ditar a rota, mas a motorista aprende que pode manter o automóvel na direção dos seus valores (carreira, família, lazer), mesmo com o barulho indesejado ao fundo.

O objetivo não é expulsar o passageiro para poder conduzir, mas conduzir com ele.

O verdadeiro objetivo do tratamento: retomar o protagonismo da vida
Por fim, manejar a endometriose exige que o terapeuta domine as ferramentas contextuais.

O sucesso clínico não é medido pela ausência de dor, mas pela capacidade da mulher de retomar o protagonismo da sua vida, desenvolvendo uma vida rica e significativa independentemente da cronicidade dos sintomas [3].

Referências Bibliográficas

[1] BENTO, S. P.; MOREIRA, L. V. C. Endometriose e família: uma revisão integrativa. Ciência & Saúde Coletiva, v. 22, n. 9, p. 3023-3032, 2017.

[2] NÁCUL, A. P.; SPRITZER, P. M. Aspectos atuais do diagnóstico e tratamento da endometriose. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 32, n. 6, p. 298-307, 2010.

[3] PIRES, Camila de Oliveira. Terapias Cognitivo-Comportamentais para mulheres com endometriose: Revisão Integrativa. TCC (Especialização em TCC) – PUCRS, 2022.

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Escrito por camilapires

Camila de Oliveira Pires é psicóloga (CRP 06/150047), com licenciatura pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais e Contextuais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Neurologia Clínica pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e em Psicologia Baseada em Evidências. Atua em consultório particular, dedicando-se ao acompanhamento de adultos e ao desenvolvimento de intervenções fundamentadas em evidências científicas. Também atua como supervisora clínica e produtora de conteúdo em Psicologia baseada em evidências.
Contato: @psi.camilapires

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