Quando conheci a ACT, um dos pilares que mais me encantou foi o eixo de Valores. Sempre o vi como a possibilidade mais concreta de conhecer sobre os reais anseios, propósitos e sentidos de vida (tanto para mim quanto para meus pacientes). Só que na mesma proporção em que é importante, ele é desafiador de ser trabalhado na clínica, pois não é incomum nos depararmos com respostas como: “não sei, não faço ideia, nunca pensei nisso…” se formos questionar de forma diretiva acerca dos valores dos nossos pacientes. E aqui cabe ressaltar que se deparar com respostas vagas, confusas ou mesmo com o silêncio, não necessariamente demonstra resistência por parte do paciente. Na verdade, é um fenômeno absolutamente natural. E sabe por quê? Há uma certa confusão entre o que seriam valores e metas, por isso gostaria de começar trazendo essa diferenciação.
Os valores são formas de se comportar, presentes em vários setores da vida, que direcionam um certo modo de viver, e, portanto, não tem uma linha de chegada ou um fim. Eles são a bússola a direcionar os nossos comportamentos, ou em termos de conceitos do hexaflex, as nossas ações comprometidas. Já as metas são objetivos listados, com início, meio e fim, e, portanto, se encerram em algum momento. De forma concreta, podemos dizer que ser um profissional dedicado é algo contínuo, enquanto passar ou concluir uma pós-graduação, por exemplo, tem uma data a ser alcançada e concluída.
Em geral, os pacientes chegam com as metas bem mais claras do que os valores, e isso costuma acontecer, pois as fontes de incomodo e sofrimento são facilmente descritas e desejosas de serem modificadas. Diante de emoções e pensamentos intensos e desconfortáveis, imaginar direções de vida pode parecer distante ou irrelevante. Por muitas vezes, a busca pela terapia vem em nome de diminuir ou mesmo cessar uma determinada dor emocional, e nesse momento inicial parece não haver espaço para pensar aspectos mais amplos, profundos ou aparentemente abstratos de “como é a pessoa que eu gostaria de ser”. Este será um processo de construção, onde os valores se mostrarão como “direções que organizam os objetivos de forma coerente” (Saban, 2015, pág. 85).
Essa reflexão (da pessoa desejada) pode, inclusive, trazer estranhamento ou insegurança, pois inúmeros pacientes se deparam com essa pergunta pela primeira vez na vida. Refletir sobre o que de fato me importa e é inegociável para mim é um processo, e não traz uma resposta estática.
Diante disso, você, psicólogo, precisa estar ciente de 5 fatos e saber conduzi-los nas suas sessões:
- É preciso diminuir a pressão por respostas imediatas, estruturadas e imutáveis;
- Trabalhar primeiramente os pilares de aceitação ou desfusão pode ser muito importante, para conectar esse paciente com aquilo que de alguma forma tem o afastado de uma vida mais valorosa e significativa;
- Trazer metáforas pode enriquecer e desmistificar o trabalho terapêutico, diminuindo o peso sobre os questionamentos trazidos;
- É possível começar explorando pequenas direções de vida, em vez de grandes respostas existenciais;
- É essencial validar a dificuldade do paciente em acessar essas respostas;
Trabalhar valores com um cliente em intenso sofrimento pode ser como perguntar a alguém, em meio a uma tempestade no mar, para onde ele gostaria de navegar nos próximos anos. Quando as ondas estão altas, o vento é forte e há risco de afundar, a atenção naturalmente se volta para sobreviver àquele momento — manter o barco estável, não naufragar, respirar.
Os valores são como um farol no horizonte: eles indicam direção, sentido, um “para onde ir”. Mas, durante a tempestade, o farol pode até estar visível — e ainda assim não ser o foco principal. Antes de traçar rotas, muitas vezes é preciso ajudar o cliente a atravessar a tempestade com mais estabilidade. Só então o farol volta a fazer sentido como guia.
Por isso, o meu convite a você terapeuta é para que você se atente ao timing do seu paciente para adentrar e aprofundar na temática de valores, e principalmente tenha a clareza de que quando falamos em valores e em uma vida rica e significativa, “queremos dizer rica e significativa segundo os padrões dos nossos clientes” (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021, pág. 239), e esse parâmetro somente ele poderá te dar.
Referências Bibliográficas
Saban, M.T. (2015). Introdução a Terapia de aceitação e compromisso. Belo Horizonte: Editora Artesã
Hayes, S. C. , Strosahl, K.D. & Wilson, K.G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. Porto Alegre: Artmed
