Escrito por Aline Silva, Camila Lourenço e Julia Moreira
Este texto é uma continuação do primeiro texto sobre Rivalidade Feminina, escrito pelas mesmas autoras na coluna do SIG Mulheres. Para ler a primeira parte, acesse aqui.
No primeiro texto sobre essa temática, discorremos sobre o conceito de “rivalidade feminina”, definindo-o não como uma “característica natural” das mulheres, mas sim como um conceito que é construído socialmente, sendo ensinado e reforçado pela comunidade verbal patriarcal e machista. Apresentamos alguns contextos sociais em que a rivalidade feminina está presente e como isso pode afetar a saúde mental e as relações interpessoais das mulheres. Nesta segunda parte iremos focar na prática clínica, a partir das perspectivas da ACT e da FAP, abordando como podemos, como terapeutas, auxiliar nossas clientes a se comportarem menos sob controle de tais regras sociais, aumentando a probabilidade de desenvolverem sua autoestima e estabelecerem relações mais saudáveis com outras mulheres de seu convívio. Também ampliaremos um pouco mais a discussão sobre sororidade e empoderamento, como formas de contracontrole.
Dentro do setting clínico, primeiramente, é essencial que parte da intervenção da terapeuta no atendimento de mulheres consista em promover sensibilização sobre o controle coercitivo que controla diferencialmente o comportamento feminino, auxiliando a cliente a identificar esse controle nos contextos em que está inserida. Conforme apontado por Maria Ruiz, é comum que exista um controle condicional discreto nas práticas de gênero, o que pode dificultar que o indivíduo identifique essas variáveis e consiga emitir tatos sobre as contingências que controlam seu comportamento (Ruiz, 2003; Ferraz et al, 2019). Algumas das práticas de rivalidade feminina podem se manifestar de maneira mais sutil, como comentários, comparações, piadas, propagandas expostas na mídia, postagens em redes sociais, entre outros comportamentos que incentivem tal competição. Portanto, auxiliar a mulher a se perceber nessa cultura e compreender que seu sofrimento é socialmente construído já é uma valiosa intervenção, que pode contribuir para a redução de sentimentos como culpa e inadequação (de Lima, 2025).
A partir da discriminação destas variáveis presentes em nossa sociedade, possibilita-se a discussão com a cliente sobre as regras sociais presentes nesses contextos e na realidade dela, que estejam relacionadas à competição e rivalidade entre mulheres. Como foi a história de vida dessa mulher? O que ela aprendeu sobre amizade, vínculo entre mulheres? Sobre comparação, competição ou inveja ao se relacionar com outras mulheres? Isso estava presente em sua família, escola, círculo de amigos, namoro, trabalho? Como essas regras sociais podem ter influenciado em seus comportamentos?
Ao compreendermos as contingências culturais que moldam essa classe de comportamentos chamada rivalidade feminina, torna-se possível analisar as regras que a governam e como elas atuam na vida das mulheres. Na ACT, muitas dessas regras são seguidas rigidamente porque foram estabelecidas em contextos coercitivos e reforçadas ao longo da história de vida (Hayes, Strosahl & Wilson, 2012). Frases como “mulheres são naturalmente competitivas”, “ela é melhor do que eu” ou “se eu não for escolhida, não tenho valor” tornam-se verdades literais, produzindo fusão cognitiva e restringindo a flexibilidade psicológica. Assim, a cliente passa a agir menos sob controle de suas experiências diretas e mais sob controle dessas regras internalizadas, que raramente a aproximam da vida que deseja viver.
Esse processo se articula a um self conceitualizado rígido, sustentado por padrões patriarcais de valor como aparência, juventude, magreza, desempenho e aprovação masculina, aquilo que Zanello (2022) chama de “prateleira da feminilidade”. Quando a identidade se reduz a essas narrativas, a comparação social se intensifica. A ACT contribui ao permitir que a cliente experimente o self como contexto, observando pensamentos como eventos mentais e não como comandos, abrindo espaço para ações mais coerentes com seus valores.
Com essa abertura, viabiliza-se explorar valores de forma mais profunda. Perguntas como “Que tipo de mulher você quer ser nas suas relações?” ou “Como deseja se vincular a outras mulheres, sem estar sob controle dessas regras?” ampliam repertórios e orientam ações comprometidas. Esses movimentos incluem pequenos gestos que rompem com a lógica patriarcal da competição automática: reconhecer qualidades em outras mulheres, oferecer apoio sem se diminuir, recusar comparações e construir vínculos mais autênticos. Como destacam Hayes et al. (1999), valores se tornam transformadores quando acompanhados de ação.
A relação terapêutica é um contexto privilegiado para modelar novos repertórios. A FAP pode ajudar a identificar padrões relacionais associados à rivalidade, assim como desconfiança, retraimento, comparação ou desvalorização de outras mulheres (ou de si mesma em comparação a outras), que emergem no aqui-e-agora da sessão (Kohlenberg & Tsai, 1991). Na díade terapeuta mulher e cliente mulher, esses padrões podem se manifestar também em relação à terapeuta. Exemplo: A cliente pode criticar sutilmente a aparência ou as escolhas da terapeuta, ou se colocar em posição de inferioridade/superioridade.
Ao invés de ignorar, a terapeuta observa o CRB1 (Regra 1), evoca seu surgimento (Regra 2) e reforça diferencialmente os comportamentos de melhora (CRB2s), que sinalizam formas mais saudáveis de se relacionar, como a autoaceitação, a validação de outras mulheres ou a expressão assertiva de sentimentos (Regra 3). Dessa forma, a resposta da FAP à rivalidade permite que a terapeuta mulher confronte o CRB1 com consciência, coragem e amor, oferecendo uma experiência baseada em parceria, validação e não-competição. Ao modelar uma rede de apoio em vez de competição, a terapeuta contribui para desconstruir o mito da rivalidade feminina e promove relações mais autênticas e solidárias entre mulheres. O vínculo terapêutico torna-se, assim, uma experiência relacional que escapa ao padrão cultural da competição, abrindo possibilidades de novas aprendizagens.
É essencial reconhecer que a rivalidade não afeta todas as mulheres da mesma maneira. A interseccionalidade (Crenshaw, 1989) mostra que raça, classe, idade, corporalidade, orientação sexual e migração modulam acesso a reforços e intensidades de punições sociais. Mulheres negras, gordas, mais velhas, lésbicas ou imigrantes ocupam posições de maior vulnerabilidade na prateleira, sendo mais socialmente penalizadas. Ignorar essas diferenças seria reproduzir a invisibilização cultural. A prática clínica precisa reconhecer e validar essas camadas estruturais. Outro ponto a ser destacado é a necessidade da terapeuta mulher atentar-se ao seu próprio lugar social e possíveis privilégios. O comportamento da cliente em relação à terapeuta (CRBs) pode ser uma função das diferenças de poder percebidas (ou reais) baseadas nessas interseccionalidades.
Quando novas contingências são oferecidas na terapia, em grupos ou em relações significativas, comportamentos de acolhimento e cooperação tendem a ser reforçados. Esse movimento pode ser compreendido como contracontrole (Skinner, 1953): ações por meio das quais a mulher se posiciona menos submissa às regras patriarcais, escolhendo responder a partir de seus valores. Recusar conversas que objetificam mulheres, apoiar colegas, questionar injustiças e construir redes de apoio são exemplos de comportamentos que enfraquecem o controle coercitivo cultural.
De acordo com Ferraz et al (2019), “a sororidade é a construção de alianças de solidariedade entre mulheres e o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre a cultura misógina existente, com o objetivo de diminuir as formas de opressão social” (p.189). A sororidade, nesse sentido, não é um ideal abstrato nem uma exigência de bondade, mas um repertório comportamental aprendido, dependente de oportunidade, discriminação e reforçamento, como qualquer comportamento humano. Couto & Dittrich (2017) destacam que o empoderamento ocorre quando a mulher amplia seu repertório e passa a acessar reforços que antes lhe eram negados, especialmente por meio de outras mulheres. A clínica pode ser um dos primeiros contextos em que relações femininas não competitivas são vividas, facilitando sua generalização.
Assim, a sororidade emerge como uma construção ativa: nasce da compreensão histórica da rivalidade, da flexibilização de regras internalizadas, da reconexão com valores e da prática intencional de novos comportamentos. Cada gesto de apoio, validação ou recusa à comparação fragiliza o sistema que sustenta a rivalidade feminina e fortalece comunidades de mulheres que se apoiam mutuamente. A terapia, ao oferecer um espaço seguro e reforçador, torna-se parte essencial desse processo de transformação individual e cultural.
Ao compreendermos a rivalidade feminina como um fenômeno historicamente construído e mantido por práticas culturais coercitivas, abrimos espaço para intervir de forma mais precisa, ética e transformadora na clínica. ACT e FAP nos oferecem caminhos para flexibilizar regras internalizadas, ampliar repertórios, fortalecer valores e modelar relações femininas mais autênticas, solidárias e libertas da lógica comparativa patriarcal. Quando a mulher começa a reconhecer esses controles, escolher responder de forma mais alinhada ao que realmente importa e vivenciar vínculos que reforcem a mutualidade, pequenos movimentos cotidianos tornam-se atos de contracontrole e resistência. Assim, cultivar sororidade deixa de ser um ideal distante e passa a ser uma prática possível, que se constrói na relação terapêutica, nas comunidades de mulheres e na vida diária, gerando efeitos que ultrapassam o consultório e contribuem para uma mudança cultural mais ampla.
Referências
Couto, A., & Dittrich, A. (2017). Feminismo e análise do comportamento: caminhos para o diálogo. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 8(2), 147-158
Crenshaw, K. (1989). Demarginalizing the intersection of race and sex: A Black feminist critique of antidiscrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics. University of Chicago Legal Forum, 1989(1), 139–167.
de Lima, A. C. R. (2025). Olhando contextualmente para o cuidado psicológico com mulheres. Dicas do LADS – Laboratório de Aprendizagem, Desenvolvimento e Saúde – UNESP. https://sgcd.fc.unesp.br/#!/lads/dicas-do-lads/anteriores/dica-do-lads-n56-v6-2025/
Ferraz, J. L., Peixinho, H. L. S., Vichi, C., Sampaio, A. A. S. (2019). Uma análise de metacontingências e macrocontingências envolvidas em práticas de gênero. Em Pinheiro, R. & Mizael, T. (Orgs.), Debates sobre feminismo e Análise do Comportamento (p.174-194). Fortaleza, Imagine Publicações.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (1999). Acceptance and Commitment Therapy: An experiential approach to behavior change. Guilford Press.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). Guilford Press.
Kohlenberg, R. J. y Tsai, M. (1991). Functional analytic psychotherapy. Creating intense and curative therapeutic relationship. Nueva York: Plenum.
Ruiz, M. R. (2003). Inconspicuous sources of behavioral control: the case of gendered practices. The Behavior Analyst Today, 4, 12-16.
Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. Macmillan.
Zanello, V. (2022). Saúde mental e gênero: Facetas gendradas do sofrimento psíquico. Fractal: Revista de Psicologia, 27(3), 238–246.

