Perspectivas de gênero: a influência da religião na subjetividade feminina sob uma ótica psicológica

Escrito por Amanda Rosa e Carolina Silva

Este texto é uma continuação do texto “O lugar da religião no setting terapêutico”, escrito pelas mesmas autoras na coluna do SIG Mulheres. Para ler a primeira parte, acesse aqui.

O gênero atravessa diversas dimensões, principalmente da vida das mulheres (cisgênero ou transgênero), todas somos impactadas pelas perspectivas de gênero que nos colocam em lugares de subjugação, rivalidade e controle. Quando essa lógica se alia ao campo religioso, o resultado é um sistema simbólico e institucional que não apenas regula o comportamento, mas também molda a forma como as mulheres percebem a si mesmas e seus corpos, e também como o mundo nos percebe. 

Como afirma Souza (2004, p. 123) a religião, ainda hoje, exerce uma importante função de produção e reprodução de sistemas simbólicos que influenciam diretamente as relações sociais de sexo. As representações sociais acerca do que é ser homem e do que é ser mulher não podem ser compreendidas sem lançar o olhar sobre o papel da religião e suas implicações na construção social desses lugares de gênero. 

O pensamento feminista teológico latino-americano revela como a religião, historicamente estruturada sobre bases patriarcais, moldou não apenas instituições, mas também a subjetividade feminina. A construção simbólica do “feminino” como dócil, submisso, voltado ao cuidado e à fé silenciosa, não nasceu de uma natureza essencial, mas de uma engenharia cultural legitimada como vontade divina. A mulher foi ensinada a se perceber como extensão do lar e da Igreja, encarregada da catequese infantil, mas excluída dos espaços de decisão e formulação teológica. Nesse processo, sua espiritualidade foi domesticada, e seu desejo de transcendência, confinado à obediência (Gebara, 2000).

A fé, quando mediada por estruturas de poder masculinas, se converte em instrumento de alienação. O “divino” é projetado como masculino, e a mulher aprende a se ver sempre em relação ao outro, ao homem, a Deus, à norma. Esse modelo espiritual hierarquizado gera um tipo de sofrimento psicológico silencioso, pois exige da mulher uma decisão interna entre fé e autonomia, entre ser devota e ser sujeito de si mesma (Gebara, 2000).

Nesse sentido, compreender a religião sob esta perspectiva é fundamental para reconhecer como certos discursos espirituais foram historicamente usados para legitimar desigualdades, e como ainda hoje influenciam a subjetividade feminina, ora como fonte de opressão, ora como espaço de resistência e ressignificação.

Ao mesmo tempo, o feminismo propõe uma ruptura simbólica e subjetiva profunda, ele convida a reimaginar o sagrado a partir da experiência encarnada das mulheres, recuperando a “memória subversiva” daquelas que desafiaram a norma e se encontraram no ato de resistir. Essa releitura rompe com o ideal de submissão e introduz uma nova ética relacional. A fé, como espaço de liberdade e construção de sentido, não de controle. Do ponto de vista feminista, trata-se de um movimento de emancipação e de um processo de descolonização, em que o feminino deixa de ser objeto de discurso e passa a ser sujeito da própria espiritualidade (Gebara, 2000).

O ambiente religioso tem operado historicamente como um dispositivo de controle do corpo e da subjetividade feminina, sustentado por regras e narrativas que atuam não apenas na esfera da espiritualidade, mas também na manutenção de estruturas de poder. Autoras como Ivone Gebara (1999) apontam que, dentro das tradições cristãs, as mulheres foram frequentemente enquadradas como “filhas de Eva”, carregando a culpa e a responsabilidade pelo “pecado original”, o que legitima práticas de submissão e silenciamento em nome de uma fé que muitas vezes reforça estruturas de opressão. Como mencionado anteriormente, trata-se de uma visão à luz do cristianismo. 

Esse enquadramento linguístico é um exemplo claro do que a RFT descreve. Algumas molduras relacionais arbitrárias transformam “mulher” em “pecadora”, “submissão” em “virtude”, e “obediência” em “salvação”. Essa lógica também se estende ao campo do corpo e da sexualidade (Eisler, 1996) em que o prazer feminino é demonizado e o silenciamento, sacralizado. Em termos comportamentais, vemos mulheres sendo governadas por regras (Silva, 2023) que não foram escolhidas por elas, mas impostas por sistemas que confundem fé com disciplina e espiritualidade com servidão. Em grande parte das vezes, aquilo que se chama de “vida religiosa” para as mulheres se enquadra como um roteiro coercitivo, que perpetua desigualdades e impede a emancipação, ao mesmo tempo em que se esconde sob a máscara de valores espirituais. 

Atualmente, observa-se que também dentro das tradições cristãs começam a emergir movimentos de ruptura com antigos padrões de submissão e silenciamento feminino. A abertura progressiva de algumas denominações ao diálogo sobre temas como o divórcio, a homossexualidade e os novos arranjos familiares indica um deslocamento simbólico importante. Um reconhecimento de que a experiência humana, inclusive a das mulheres, não pode ser reduzida à culpa ou à obediência cega. Essas transformações, embora ainda fortemente marcadas por tensões internas, resistências institucionais e violência simbólica, apontam para interpretações à luz da dignidade e da autonomia. O sagrado, antes obrigatoriamente associado à renúncia e ao sofrimento, começa a ser revisitado como espaço de acolhimento, justiça e liberdade psíquica, abrindo caminho para uma espiritualidade que reconhece a diversidade como expressão legítima da fé (Junior, 2022).

Ao observarmos as religiões de matriz africana, também é possível identificar dois vieses. De um lado, como destacam Frota, Sousa e Silva (2022), as figuras femininas, quando analisadas nesse contexto, rompem com a perspectiva cristã que coloca a mulher como submissa e passiva. Nessas tradições, elas ocupam papéis centrais, exercendo funções de grande relevância dentro do terreiro, simbolizando independência, criação e harmonia entre divindades e seres humanos (Bastos, 2011). Por outro lado, persiste o estigma da mulher vinculada à maternagem e às atividades de cozinha e limpeza. Além disso, há cultos dos quais elas não podem participar, limitando sua autonomia e reforçando papéis de gênero. Assim, evidencia-se que as discussões sobre o controle dos atos das mulheres não se limitam a uma vertente das práticas religiosas, revelando aspectos de valorização e restrição. 

Ao fazermos um recorte racial dentro do campo religioso, percebe-se uma forte herança colonizada que invalida saberes africanos e indígenas, desqualificando as práticas e espiritualidades que delas derivam. Essa lógica atinge especialmente as mulheres que seguem religiões de matriz africana, cujas crenças e corpos são frequentemente demonizados e estigmatizados. Produzindo ainda mais sofrimento psíquico e sentimento de não pertencimento. Muitas vezes, essas mulheres  são colocadas em posições em que precisam ocultar sua fé ou questionar sua legitimidade. Além disso, quando inseridas em religiões consideradas “brancas”, também podem se sentir deslocadas, como se aquele espaço não lhes pertencesse, reafirmando, assim, a exclusão racial e simbólica.

Segundo Souza (2004, p. 123), “A religião é, antes de tudo, uma construção sócio-cultural. Portanto, discutir religião é discutir transformações sociais, relações de poder, de classe, de gênero, de raça/etnia; é adentrar num complexo sistema de trocas simbólicas, de jogos de interesse, na dinâmica da oferta e da procura; é deparar-se com um sistema sócio-cultural permanentemente redesenhado que permanentemente redesenha as sociedades.”

Dessa forma, torna-se fundamental  legitimar a narrativa religiosa  no setting terapêutico, sobretudo no trabalho com mulheres que representam a maioria das pessoas vinculadas a práticas, como aquelas que ocupam frequentemente lugares de matriarcas, conselheiras e apoiadoras em suas comunidades de fé. Essas experiências moldam dimensões importantes da vida psíquica e relacional, podendo atuar tanto como fonte de apoio e pertencimento quanto como espaço de controle e sofrimento. 

O trabalho clínico, nesse sentido, exige coragem para expor como essas narrativas foram internalizadas, ajudando mulheres a diferenciar quais regras as afastam de sua autonomia (Silva, 2023) e quais podem ser reconstruídas em direção a uma espiritualidade libertadora e alinhada a seus valores genuínos.

Como aponta Souza (2004, p. 123), a religião também se constitui como espaço de violência material e simbólica, na medida em que o discurso religioso misógino “é apenas um dos termos que compõem a equação da violência”. Reconhecer esses atravessamentos é essencial para revelar como o sagrado pode, ao mesmo tempo, servir à opressão e abrir caminhos para a reconstrução da autonomia e da fé sob novas molduras de sentido. 

Por meio de processos como desfusão cognitiva, aceitação e self como contexto, o sujeito é convidado a observar seus pensamentos religiosos, como dogmas ou julgamentos morais, sem se confundir com eles, e de se enxergar para além dos estigmas de gênero. Essa capacidade de observar-se a partir de uma perspectiva mais ampla e não julgadora rompe a identificação com narrativas rígidas e abre espaço para uma espiritualidade vivida com liberdade e coerência pessoal (Balog, 2025). A ACT permite romper crenças e fusões limitantes, transformando a função de comportamentos em autoconhecimento e aceitação compassiva das suas experiências internas (dor, sofrimento) e melhora da flexibilidade psicológica. 

Referências:

  1. Balog, L. G. C. (2025). Espiritualidade, consciência e Análise do Comportamento. Perspectivas em Análise do Comportamento, 16(1).
  2. BASTOS, Ivana Silva. Mulheres Iabas: liderança, sexualidade e transgressão no candomblé. 2011. 158 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Universidade Federal da Paraí­ba, João Pessoa, 2011.
  3. EISLER, R. O prazer sagrado: sexo, mito e política do corpo. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
  4. FROTA, Vitória Régia Albuquerque; SOUSA, Narlla Andrade de; SILVA, Lorena Brito da. Diálogos entre gênero, raça e o empoderamento feminino nas religiões de matriz africana: um olhar da psicologia social. In: CONEXÃO UNIFAMETRO 2022, Fortaleza, 2022. Anais […]. Fortaleza: Unifametro, 2022.
  5. GEBARA, I. As incômodas filhas de Eva na Igreja da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1999.
  6. GEBARA, I. Desafios que o movimento feminista e a teologia lançam à sociedade e às igrejas. Estudos Teológicos, v. 40, n. 1, p. 5-17, 2000.
  7. Junior, A. B. (2022). Diversidade Sexual na Igreja: a luta pela inclusão de pessoas LGBTQIA+ na comunidade cristã. Editora Dialética.
  8. Souza SD de. Revista Mandrágora: gênero e religião nos estudos feministas. Rev Estud Fem [Internet]. 2004 Sep;12(spe):122–30. Available from: https://doi.org/10.1590/S0104-026X2004000300014
  9. Silva, J. M. D. S. D., Alcântara, M. E. C. A. C., Rocha, R. W. S. R. S., & Soares, G. G. S. (2023, June). O comportamento governado por regras e sua funcionalidade na manutenção cultural. In Anais do Congresso Nacional Universidade, EAD e Software Livre (Vol. 1, No. 15).
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Escrito por SIG Mulheres na ACBS

Coluna do Grupo de Interesse Especial (SIG) em Mulheres na ACBS Br. Espaço para discussão de variáveis de gênero nas terapias comportamentais contextuais. Projeto organizado por Isla Cezzani, Julia Moreira, Aline Cristina da Silva, Amanda Rosa, Ana Patricia Cavalheiro, Bruna Petinatti, Camila Lourenço, Carolina da Silva, Juliana Melo

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