
Publicado em 2019, o romance A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante, apresenta a trajetória de Giovanna, adolescente napolitana que vê sua vida se transformar a partir de um único comentário do pai: ela estaria “ficando parecida com a tia Vittoria”. Essa frase, aparentemente trivial, cai como uma sentença. A partir dela, Giovanna mergulha em comparações, rebeldias e manipulações, tentando compreender quem é e quem deveria ser. A força da literatura de Ferrante está justamente em mostrar como palavras, muitas vezes soltas e ditas sem pensar, podem operar como gatilhos de transformações profundas.
A tia Vittoria, marginalizada pela família e descrita como vulgar, desonesta e excessivamente passional, representa exatamente aquilo que os pais de Giovanna rejeitam: a ruptura com os valores de respeitabilidade, beleza e controle social. Ser comparada a Vittoria, portanto, equivale a ser marcada como “fora do padrão”, alguém indesejável. É nesse sentido que o comentário do pai funciona como um estímulo poderoso: não apenas descreve uma contingência, mas estabelece uma regra que associa a identidade de Giovanna àquilo que deve ser evitado a qualquer custo.
Na perspectiva da Análise do Comportamento, identidade não é uma essência oculta no indivíduo, mas um repertório em constante construção, modelado pela história de contingências às quais cada sujeito esteve exposto (BAUM, 2006; SKINNER, 1953/2003). Nesse sentido, a identidade de Giovanna não é algo que “nasce” com ela, mas aquilo que se constrói ao longo de interações, reforços e punições. O comentário do pai funciona, simultaneamente, como regra verbal e como estímulo discriminativo. A partir desse momento, a adolescente passa a agir sob o controle dessa regra, que segundo Matos (2001), torna o comportamento menos sensível às contingências ambientais. Esse efeito, ao manter padrões estáveis mesmo diante de mudanças, reduz a variabilidade de respostas da personagem. A regra se transformou em um critério rígido de autoavaliação.
O romance mostra diversas respostas de Giovanna que podem ser organizadas em termos de análise funcional. Diante do espelho, a jovem observa o próprio rosto com autocrítica, procurando sinais da semelhança com Vittoria. Mente ao interagir com os pais, a fim de evitar punições ou manter uma imagem aceitável. Em outros momentos, manipula situações para obter atenção ou escapar de responsabilidades. Também busca a tia Vittoria, ora para desafiar os pais, ora para encontrar nela um modelo alternativo. Em todas essas ocasiões, o que vemos são comportamentos operantes públicos, mantidos por consequências específicas. Embora distintos em topografia, cumprem funções semelhantes: reduzir o contato com estímulos aversivos (críticas, comparações, rejeições) e produzir reforços imediatos (atenção, alívio, sensação de poder).
Tomemos um exemplo concreto: quando Giovanna mente para esconder um encontro, não se trata de mera desonestidade moral, mas de uma resposta funcional. Mentir a protege momentaneamente do confronto com os pais, permitindo-lhe escapar de punição ou desaprovação. Da mesma forma, quando se olha no espelho e se declara “feia” ou “detestável”, não é apenas autodepreciação, mas a internalização da regra paterna. Como observa Catania (1999), o comportamento governado por regras pode restringir a variabilidade, levando o sujeito a agir em função de descrições verbais, mesmo quando as contingências diretas poderiam indicar outras interpretações. Giovanna insiste em se ver como feia porque segue a regra, não porque o ambiente social lhe ofereça necessariamente esse feedback.
A lógica da contingência de três termos ajuda a organizar esse repertório. Os antecedentes incluem críticas dos pais, expectativas relacionadas à beleza e desempenho, comparações sociais constantes entre Giovanna, a mãe e a tia. As respostas vão desde autocríticas diante do espelho até manipulações, mentiras e rebeldias. As consequências imediatas incluem o alívio momentâneo da tensão, a fuga de punições e a atenção conquistada. Já as consequências de longo prazo são mais custosas: vínculos frágeis, autoimagem negativa e dificuldade em consolidar repertórios de autoestima e autoconfiança.
Como explica Sidman (1995), ambientes coercitivos tendem a gerar padrões de esquiva e confronto. Em Giovanna, vemos exatamente esse ciclo: cada crítica funciona como estímulo discriminativo para novas respostas de oposição, que são reforçadas momentaneamente, embora mantenham o ciclo de insegurança. Nesse sentido, a personagem ilustra um fenômeno comum a muitos adolescentes submetidos a regras rígidas e reforços inconsistentes.
A análise também ganha profundidade ao se considerar o papel da tia Vittoria. Ela se torna, paradoxalmente, um polo de atração para Giovanna. Aproximar-se dela é, ao mesmo tempo, confrontar os pais e explorar uma alternativa de identidade. Aqui vemos como o comportamento de aproximação não é apenas rebeldia, mas uma forma de ampliar repertórios, testar limites e buscar novos reforçadores. Ainda assim, esse movimento se dá dentro de um contexto de contingências aversivas, em que a adolescente alterna entre submissão e confronto, sem encontrar espaço para variabilidade genuína.
Esse percurso literário nos permite afirmar que a obra de Ferrante funciona como um registro de práticas culturais. Skinner (1971/2003) já defendia que a arte é uma forma poderosa de documentar contingências sociais, e Glenn (1988) reforça que a análise funcional não se restringe a contextos clínicos ou experimentais: ela pode ser aplicada também à compreensão de fenômenos culturais complexos. O caso de Giovanna mostra como palavras, regras e críticas, elementos comuns em tantas famílias, produzem efeitos duradouros sobre a construção da identidade.
Assim, ao analisar Giovanna pela lente da Análise do Comportamento, percebemos que autoestima e autoconfiança não são “coisas” que alguém possui ou não possui. Como aponta Guilhardi (2002), são repertórios aprendidos e mantidos socialmente. Giovanna apresenta um histórico em que as consequências reforçam padrões de autocrítica e insegurança, mais do que de autovalorização. Isso nos leva a reconhecer que, em ambientes coercitivos, o desenvolvimento de autoconfiança e variabilidade comportamental torna-se limitado.
Mais do que um relato de adolescência, A Vida Mentirosa dos Adultos é um estudo sobre como contingências sociais moldam repertórios de insegurança, manipulação e confronto. Ao expor a rede de críticas e regras aversivas que aprisiona Giovanna, Ferrante não está apenas construindo uma personagem de ficção: está oferecendo um retrato das práticas culturais que sustentam esses repertórios.
Conclui-se que a literatura, quando lida pela lente da Análise do Comportamento, se revela um espaço privilegiado de reflexão sobre práticas educativas, familiares e sociais. Reconhecer que identidades são moldadas por contingências é passo fundamental para construir alternativas. Se ambientes coercitivos produzem esquiva, confronto e insegurança, cabe-nos pensar em práticas que favoreçam o reforçamento positivo, a variabilidade e a autonomia. Nesse sentido, a análise funcional de Giovanna não é apenas uma interpretação literária, mas também um convite ético: olhar para os adolescentes não como portadores de essências fixas, mas como sujeitos em constante transformação diante das interações com o mundo.
Referências:
BAUM, W. M. Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
CATANIA, A. C. Aprendizagem: comportamento, linguagem e cognição. Porto Alegre: Artmed, 1999.
GUILHARDI, H. J. Autoestima, Autoconfiança e Responsabilidade. In: GUILHARDI, H. J. Sobre Comportamento e Cognição. Santo André: Esetec, 2002.
GLENN, S. S. Contingencies and metacontingencies: Toward a synthesis of behavior analysis and cultural materialism. The Behavior Analyst, v. 11, n. 2, p. 161–179, 1988.
MATOS, Maria Amélia. Comportamento governado por regras. Rev. bras. ter. comport. cogn. vol.3 no.2 São Paulo dez. 2001.
SIDMAN, M. Coerção e suas implicações. Campinas: Livro Pleno, 1995.
SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1953].
SKINNER, B. F. Além da liberdade e dignidade. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1971].

