Escrito por Aline Silva, Camila Lourenço e Julia Moreira
A rivalidade feminina não é natural, mas aprendida por meio de regras sociais transmitidas pela cultura. Essas regras reforçam comparações e estereótipos, sustentando a lógica patriarcal e contribuindo para a manutenção da desigualdade de gênero (Zanello, 2022). A partir da Análise do Comportamento, é possível compreender esse fenômeno como produto de contingências sociais e, assim, propor repertórios alternativos que favoreçam a sororidade como prática política e de apoio mútuo (Mendes & Fontana, 2021).
Os comportamentos governados por regras, segundo Skinner (1969), são respostas controladas por estímulos verbais que descrevem contingências, aumentando a probabilidade de certos comportamentos sem necessidade de modelagem. Para exercer função discriminativa, a regra depende de uma história prévia de reforçamento. Regras sociais, por exemplo, condicionam comportamentos culturalmente, orientando o que é considerado aceitável ou inaceitável e moldando valores compartilhados.
Como citado em textos anteriores, como “Pressões estéticas como uma forma de violência” e “Considerações sobre imagem corporal feminina e inflexibilidade psicológica em uma sociedade machista” – também publicados pela equipe do SIG Mulheres -, desde a infância as mulheres são ensinadas pela comunidade verbal a seguir determinados padrões, aprendendo o que é socialmente “aceitável” e o que é passível de punição social. Tais regras sociais descrevem diversas características e comportamentos, desde padrões de beleza até como uma mulher deve agir socialmente, seja entre outras mulheres ou em relação aos homens.
Quem se encaixa nos padrões socialmente impostos têm maior acesso a reforçadores; já quem não se encaixa perde o acesso aos mesmos, e sofre punições (tanto positivas quanto negativas), que podem ser desde críticas veladas até isolamento social, menos acesso à oportunidades, ridicularização, rejeição de grupos, bullying, entre outros.
Um dos fenômenos que é resultado desta perpetuação de regras sociais machistas na cultura é o da rivalidade feminina, que pode ser percebido em diversos ambientes, como na mídia, no mercado de trabalho, no ambiente acadêmico e também em círculos pessoais. Tal fenômeno influencia a competição entre mulheres, partindo de um pressuposto de que algumas mulheres são “melhores” do que outras, ao possuírem determinadas características ou conquistas, reforçando estereótipos e expectativas sociais. Em muitos contextos, a rivalidade entre mulheres é incentivada e reforçada, seja em relação à beleza, ao peso corporal, ou ao “sucesso” na vida amorosa, comparando mulheres que estão em um relacionamento afetivo e mulheres solteiras.
Desde cedo, instituições como a escola, a mídia e até a família transmitem mensagens distintas para meninos e meninas. Como observa Fontana (2019), as mulheres muitas vezes são associadas a papéis de menor prestígio, com menos espaço de fala e menor reconhecimento social. Esse ambiente gera a percepção de que os recursos, como oportunidades de trabalho, visibilidade ou valorização, são escassos, intensificando a comparação entre mulheres. Nesse cenário, comportamentos como crítica, exclusão ou não compartilhamento de oportunidades tendem a se manter porque produzem consequências imediatas: reforçam a autoestima baseada na comparação, garantem aprovação de certos grupos e ajudam a preservar um status relativo. Assim, a rivalidade pode ser entendida como um produto cultural, sustentado dentro de um sistema que privilegia os homens e distribui reforços de forma desigual (Fontana, 2019).
No contexto dos relacionamentos, partindo de um recorte de relacionamentos heterossexuais, é muito comum presenciar em círculos sociais a comparação entre a “ex e a atual”, incentivando a rivalidade entre a ex-namorada e a atual namorada de um mesmo homem, como se fosse uma disputa entre qual foi a melhor escolha para ele. É quase esperado que essas mulheres devam se “odiar”, por estarem – supostamente – em uma posição de disputa e rivalidade.
Em seu livro “A prateleira do amor: Sobre mulheres, homens e relações” (2022), Valeska Zanello aprofunda-se nessa temática das variáveis de gênero nas relações amorosas. A partir da metáfora da prateleira, a autora analisa os padrões sociais impostos às mulheres nas relações amorosas; quanto mais dentro do padrão (branca, magra, loira, jovem, etc.) a mulher está, mais alta é a sua posição na prateleira, sendo assim maior a probabilidade de ser “escolhida” por um homem. Por sua vez, quanto mais longe de tais ideais, mais baixa é a posição da mulher, tendo menos chances de ser “escolhida” e entrar em um relacionamento. E, por estarem sujeitas a esta prateleira simbólica, se estabelece a rivalidade entre as mulheres. “(…) Cada uma das mulheres é interpelada a brilhar mais do que as outras, rivais na prateleira, ou a apagar o brilho das demais. Quem avalia física e moralmente as mulheres são os homens.(….) A vivência da rivalidade, por parte das mulheres, perpetua o poder dos homens.” (p. 68)
Podemos definir a estrutura patriarcal como uma das agências de poder que operam no comportamento da sociedade, visto que nesta, o masculino é valorizado socialmente e o feminino é desvalorizado. Sendo assim, podemos dizer que a rivalidade feminina seria um subproduto do patriarcado, visto que ela contribui para fortalecer esse sistema.
A rivalidade entre as mulheres, portanto, não é uma “característica natural” do gênero feminino, e sim uma construção social, sustentada por regras culturais que valorizam a validação masculina e alimentam a ideia de que as mulheres são, inevitavelmente, inimigas ou concorrentes. Essa lógica fomenta comparações constantes e sentimentos como inveja, desconfiança e hostilidade, enfraquecendo vínculos e diminuindo a força das redes de apoio entre mulheres.
Se a rivalidade é aprendida, também pode ser transformada. A mudança ocorre quando novos contextos reforçam práticas alternativas. Isso significa valorizar apoio, cooperação e reconhecimento mútuo. Na prática, essas mudanças se manifestam em gestos cotidianos: celebrar conquistas de colegas, compartilhar oportunidades, oferecer suporte emocional ou dar visibilidade ao trabalho coletivo. Quando esses comportamentos são reconhecidos e reforçados, passam a substituir práticas competitivas. Redes e grupos de mulheres desempenham papel importante nesse processo, pois criam ambientes que favorecem solidariedade e colaboração em vez de rivalidade (Mendes & Fontana, 2021).
Couto (2017), através de seus estudos sobre o empoderamento feminino e Análise do Comportamento, descreve o empoderamento das mulheres como o processo pelo qual desenvolvem novos comportamentos que estão, de alguma forma, ligados à transformação de contextos aversivos relacionados ao seu gênero. O que se assemelha ao conceito de contracontrole proposto por Skinner (1974), no qual refere-se à resposta dos organismos frente ao controle exercido predominantemente por uma agência de controle ou por outros indivíduos. Esse controle pode ser implementado através da imposição de contingências aversivas imediatas ou de exploração prolongada ao longo do tempo. Sendo assim, o empoderamento feminino se configura como uma das possibilidades de modificação na distribuição de poder entre indivíduos.
Fora do consultório, o processo de empoderamento da mulher ocorre, principalmente, entre outras mulheres que, baseando-se em suas próprias experiências de vida, fornecem reforços para os comportamentos das mulheres aprendizes que não estão alinhados com as práticas culturais estabelecidas pela sociedade em geral. (Couto, 2017). Em contextos organizacionais e educacionais, modelar práticas colaborativas e revisar políticas que sustentam competitividade nociva; e, de forma mais ampla, produzir conteúdos psicoeducativos que disseminem a importância da sororidade (Mendes & Fontana, 2021). Quanto mais se demonstra que a colaboração é possível e desejável, mais ela tende a se fortalecer (Silva & Laurenti, 2016).
E em sessão, cabe a nós, terapeutas, fomentar a conscientização das coerções que afetam diferencialmente o comportamento de homens e mulheres, destacando as desvantagens dessa diferenciação e promovendo o desenvolvimento do autoconhecimento das clientes. Revelando assim o controle aversivo e as diversas táticas empregadas para manter tais desvantagens.
Compreender a rivalidade feminina como uma estratégia que mantém o patriarcado nos permite enxergar como esse padrão funciona. No entanto, quando as contingências sociais passam a reforçar a cooperação, o apoio mútuo e o reconhecimento entre mulheres, surgem novos padrões. Quanto mais as mulheres ampliam seu repertório de comportamentos e encontram reforços fora da validação masculina ou da competição com outras mulheres, maior é a chance de construir redes de apoio reais e contribuir para uma sociedade mais equitativa.
Referências bibliográficas
Couto, A. (2017). Uma análise behaviorista radical da discussão feminista sobre o empoderamento da mulher. 336f. (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal do Paraná, Curitiba.
Fontana, J. (2019). Uma análise da dominação masculina à luz da noção skinneriana de cultura (Dissertação de mestrado). Universidade Estadual de Londrina, Londrina, PR, Brasil.
Mendes, N., & Fontana, J. (2021). A sororidade sob uma perspectiva analítico-comportamental. Anais Eletrônico XII EPCC, UNICESUMAR – Universidade Cesumar. Recuperado de http://www.unicesumar.edu.br/epcc2021
Silva, E. C., & Laurenti, C. (2016). B. F. Skinner e Simone de Beauvoir: “a mulher” à luz do modelo de seleção pelas consequências. Revista Perspectivas em Análise do Comportamento, 7(2), 197–211. https://doi.org/10.18761/pac.2016.009
Skinner, B. F. (1969). Contingências de reforçamento: análise teórica. Tradução de Rachel Moreno. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural. (Trabalho original publicado em 1963).
Skinner, B. F. (1974). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Ed. Cultrix.
Zanello, Valeska. (2022). A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações. Curitiba: Appris.

