Por que ser assertiva custa mais para mulheres? Uma análise cultural e contribuições da FAP para a prática clínica

Escrito por Bruna Petinatti e Camila Lourenço

Por vezes, o processo de tornar-se mulher em uma sociedade patriarcal implica a incorporação de padrões de feminilidade culturalmente definidos, conforme normas sociais e expectativas de gênero. Por meio da transmissão de práticas culturais, mediadas por instituições sociais, as mulheres são reforçadas a serem agradáveis, submissas, disponíveis e a priorizar o bem-estar alheio em detrimento do próprio. Essas agências moldam comportamentos distintos e hierarquizados pelo gênero, diferenciam oportunidades e papéis sociais e delimitam quais padrões se tornam mais prováveis em cada grupo. Em geral, essas contingências não são explicitadas e, quando o são, raramente evidenciam seu impacto na manutenção das desigualdades entre homens e mulheres (Laurenti & Fontana, 2020; Nicolodi & Hunziker, 2021).

Essa diferenciação ajuda a compreender por que repertórios como a assertividade, a passividade e a agressividade aparecem de formas distintas e são interpretados de maneira desigual, dependendo do gênero de quem os emite. Esses repertórios se manifestam em contextos sociais e produzem consequências tanto para o indivíduo quanto para o grupo ao qual ele pertence, podendo ser imediatas ou tardias (Marchezini-Cunha e Tourinho, 2010).

O comportamento assertivo é caracterizado pela produção, manutenção ou aumento dos reforçadores, ao verbalizar sentimentos em uma interação social, que possui o risco de uma consequência aversiva. A assertividade, por envolver a tolerância a consequências aversivas no curto prazo em favor de benefícios a longo prazo, assemelha-se funcionalmente ao autocontrole. Já a passividade e a agressividade, por buscarem alívio ou reforço imediato mesmo que resultem em prejuízos futuros, podem ser comparadas a respostas impulsivas. Essas semelhanças funcionais envolvem também as consequências produzidas sobre o grupo social ao qual o indivíduo pertence (Marchezini-Cunha e Tourinho, 2010).

Apesar de ser uma habilidade socialmente valorizada pelos impactos positivos para o grupo e para o indivíduo, a assertividade, assim como outros comportamentos emitidos por mulheres, é consequenciada diferencialmente em razão do gênero (Nicolodi e Hunziker, 2021). Em muitos contextos, mulheres aprendem que respostas assertivas geram punições ou perdas sociais, o que favorece a emissão de respostas passivas ou agressivas como alternativas mais imediatas, ainda que menos eficazes a longo prazo.

No entanto, em situações de opressão, a assertividade pode assumir também a função de contracontrole, que é uma resposta complexa, aprendida socialmente e visa desafiar o controle aversivo em uma relação e nas estruturas sociais. Essa função, ainda que às vezes seja topograficamente confundida com agressividade, visa preservar os direitos da pessoa que a emite, alinhando-se mais ao autocontrole do que à impulsividade (López, Fontana e Laurenti, 2023).

Assim, um comportamento assertivo pode, em determinados contextos de opressão, assumir também a função de contracontrole, quando é emitido para contestar um desequilíbrio de poder ou resistir a práticas opressivas. Por outro lado, nem toda resposta de contracontrole é assertiva, pois ela pode se manifestar por meio de agressividade ou outras formas de enfrentamento.

E como se dá na prática clínica?

Pinheiro e Oshiro (2019) destacam que, no atendimento clínico voltado à mulheres, é fundamental que o terapeuta esteja atento à invalidação sistemática de suas queixas e sentimentos, às exigências sociais desproporcionais impostas em comparação aos homens, bem como à recorrente exposição a situações de abuso e violência. Tais aspectos devem ser considerados como elementos estruturais que atravessam a experiência subjetiva dessas pacientes, exigindo sensibilidade ética e escuta qualificada por parte do profissional.

Terapia Feminista e Psicoterapia Analítica Funcional (FAP)

Fideles e Vandenberghe (2014) propõem uma articulação entre a Terapia Feminista (TF) e a FAP como estratégia clínica para abordar questões de gênero, destacando a compatibilidade entre ambas devido ao viés contextual, à relação terapêutica igualitária, à validação da experiência da cliente e ao envolvimento genuíno da terapeuta. Enquanto compartilham elementos comuns, TF e FAP também se complementam: a primeira pelo engajamento político e a segunda pela orientação pragmática.

A FAP tem como princípio estabelecer uma relação genuína de intimidade entre terapeuta e cliente. Uma relação bem construída favorece um ambiente colaborativo, no qual as respostas da terapeuta funcionam como reforçadores para a cliente e impactam na mudança dos comportamentos-alvo (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2022; Braga & Vandenberghe, 2006). A história de reforçamento da cliente em outras relações também influencia como ela estabelece vínculo com a terapeuta. Para muitas mulheres, comportamentos assertivos como discordar, frustrar expectativas ou dizer “não” podem ter sido historicamente punidos, o que dificulta sua emissão inclusive na terapia.

Por essa razão, cabe à terapeuta estar atenta tanto ao que sente durante as interações, para inferir como outras pessoas podem se sentir diante da cliente, quanto às funções dos comportamentos emitidos em sessão. É igualmente importante analisar as dinâmicas sociais às quais a cliente está exposta e ajudá-la a identificar o lugar que ocupa na matriz interseccional, bem como as consequências dessa posição (López, Fontana & Laurenti, 2023; Costa, 2019). Com esses dados, terapeuta e cliente podem avaliar a função das respostas para além da topografia de assertividade, agressividade e passividade, discutindo também a importância de desenvolver habilidades de enfrentamento, como o contracontrole (Holman et al, 2022).
           

Green FAP

Diferentemente da FAP tradicional, que evita alinhamentos valorativos, a Green FAP, proposta por Tsai, Kohlenberg, Bolling e Terry (2011) enfatiza a necessidade de posicionamentos éticos frente aos desafios globais contemporâneos e introduz uma abordagem clínica comprometida com os valores das políticas verdes, como sustentabilidade, justiça social e democracia alternativa.

Fundamenta-se na premissa de que a consciência social desempenha um papel essencial na prática clínica, promovendo o bem-estar do cliente e contribuindo simultaneamente para transformações sociais mais amplas. Nesse sentido, é indispensável uma comunidade verbal que ensine e valorize repertórios de contracontrole voltados para desafiar as estruturas de poder, rompendo com os ensinamentos tradicionais que apenas mantêm as desigualdades. A terapeuta pode ocupar esse papel, funcionando como parte dessa comunidade (López, Fontana e Laurenti, 2023).

Metas terapêuticas

Além disso, é fundamental que as metas terapêuticas respeitem a singularidade da cliente, considerando seus múltiplos eixos de opressão e os custos sociais que determinadas respostas podem ter em contextos específicos. Em algumas situações, por exemplo, adotar um comportamento assertivo pode representar um risco para a cliente, sendo necessário avaliar cuidadosamente quais habilidades são mais viáveis e seguras naquele contexto. Essa análise permite que a intervenção seja mais ética e alinhada com as condições culturais e sociais em que a cliente está inserida.

Com isso, a prática clínica deve assumir um compromisso ético com o reconhecimento das dinâmicas de opressão e suas consequências subjetivas. E ao compreender o contexto sociopolítico da cliente e adaptar as metas terapêuticas à sua realidade o terapeuta não apenas potencializa o cuidado, como torna a psicoterapia um espaço de resistência, acolhimento e transformação da sociedade como um todo.

Referências

Braga, G. L. de B., & Vandenberghe, L.. (2006). Abrangência e função da relação terapêutica na terapia comportamental. Estudos De Psicologia (campinas), 23(3), 307–314. https://doi.org/10.1590/S0103-166X2006000300010

Callaghan, G. M. (2011). Um guia para a Psicoterapia Analítica Functional (FAP): consciência, coragem, amor e behaviorismo. (pp.249-265). Santo André, SP: ESETEc

Costa, A. I. (2019) Contribuições do feminismo para a compreensão e intervenção em casos de relacionamento abusivo. In R. Pinheiro & T. Mizael (Orgs), Debates sobre feminismo e análise do comportamento. (pp. 244-263). Imagine Publicações.

Fideles, M. N. D., & Vandenberghe, L. (2014). Psicoterapia Analítica Funcional feminista: possibilidades de um encontro. Psicologia: Teoria e Prática, 16(3), 18-29.

Fontana, J., & Laurenti, C. (2020). Práticas de violência simbólica da cultura de dominação masculina: uma interpretação comportamentalista. Acta Comportamentalia: Revista Latina De Análisis Del Comportamiento, 28(4). Recuperado a partir de https://www.revistas.unam.mx/index.php/acom/article/view/77327

Furini, L. G., Henzel, G. A., Müller, S. A. A. S. e Passos,  J. A. F. (2023). Multiculturalidade e interseccionalidade nas terapias comportamentais contextuais. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 138–153. https://doi.org/10.18761/vecc291122

Holman, G., Kanter, J., Tsai, M. e Kohlenberg, R. (2022). Psicoterapia Analítica Funcional descomplicada: guia prático para relações terapêuticas. Sinopsys Editora.

López, D. B., Fontana, J. e Laurenti, C. (2023) O contracontrole político feminista como enfrentamento à noção individualista de resistência. In R. Pinheiro & T. Mizael (Orgs), Debates sobre feminismo e análise do comportamento. (Vol. 2, pp. 121-136). Instituto PAR Educação.

Marchezini-Cunha, V., & Tourinho, E. Z.. (2010). Assertividade e autocontrole: interpretação analítico-comportamental. Psicologia: Teoria E Pesquisa, 26(2), 295–304. https://doi.org/10.1590/S0102-37722010000200011

Nicolodi, L., & Hunziker, M. (2021). O patriarcado sob a ótica analítico-comportamental: considerações iniciais. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, 17(2). doi:http://dx.doi.org/10.18542/rebac.v17i2.11012

Pinheiro, R. D. C. D. S., & Oshiro, C. K. B. (2019).Variáveis de gênero que terapeutas devem estar atentas   no   atendimento   a   mulheres.   Em   R. Pinheiro  &  T.  Mizael  (Orgs.) Debates  sobre feminismo  e  análise  do  comportamento,  220-243. Imagine Publicações.

Tsai, M., Kohlemberg, R. J., Bolling, M. Y., Terry, C. (2011).Valores na terapia e Green FAP. Em Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Kohlenberg, B., Follete, W. C., &

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Escrito por SIG Mulheres na ACBS

Coluna do Grupo de Interesse Especial (SIG) em Mulheres na ACBS Br. Espaço para discussão de variáveis de gênero nas terapias comportamentais contextuais. Projeto organizado por Isla Cezzani, Julia Moreira, Aline Cristina da Silva, Amanda Rosa, Ana Patricia Cavalheiro, Bruna Petinatti, Camila Lourenço, Carolina da Silva, Juliana Melo

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