Em 2022, o filme “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” contava a história de Evelyn Wang (Michelle Yeoh), uma imigrante chinesa de meia-idade nos Estados Unidos que enfrentava uma vida de fracassos cotidianos: relações conflituosas na família, um casamento em ruínas, o negócio da família à beira da falência e uma relação esfacelada com sua filha, Joy Wang (Stephanie Hsu). Joy vivia um momento de alto risco de suicídio, sem que Evelyn ou os demais familiares percebessem. A aposta para essa história de uma família diaspórica em crise foi representar o caos afetivo por meio de recursos de ficção científica e da noção de multiverso, com cenas de ação frenética e um humor nonsense e escatológico. Uma combinação original e ousada, que renderia sete estatuetas do Oscar em 2023, incluindo o prêmio de Melhor Filme e a coroação de Michelle Yeoh como a primeira atriz amarela a ganhar o Oscar de Melhor Atriz na história.
O ano de 2022 foi decisivo para o mercado cinematográfico, que ainda sofria os impactos do fechamento prolongado de salas durante a pandemia de COVID-19. Nesse contexto, um outro filme que teve grande destaque foi “Top Gun: Maverick”, com Tom Cruise no papel de Pete “Maverick” Mitchell, um capitão da Marinha dos Estados Unidos que treinava jovens pilotos para uma missão arriscada, enquanto lidava com fantasmas do passado e desafios impostos pelas novas tecnologias. A obra foi amplamente exaltada como o filme que “salvou o cinema”, e celebrada por seu apelo com as massas e por fomentar o retorno ao espetáculo das telas grandes. Esse convite às salas de cinema vinha por meio de uma estética realista impactante, que apostava em coreografias de ação ousadas realizadas por Cruise, em efeitos práticos e no uso de locações e aeronaves reais das forças armadas do país norte-americano.
Ao redor de Top Gun se consolidava um discurso de retorno a um certo cinema universal, que era para todo mundo, capaz de restaurar a indústria de Hollywood. Esse imaginário ganhou força no debate sobre a premiação do Oscar de 2023, criando um contraste evidente com a proposta disruptiva de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. Afinal, este último era um filme independente, centrado em uma família asiático-americana (grupo raramente protagonista em Hollywood), com um estilo frequentemente associado pejorativamente à linguagem das gerações mais jovens, como memes e conteúdos virais do TikTok. Era fácil apreender a ideia geral em declarações de críticos de cinema brasileiros que eu acompanhava:
“Os números são um triunfo não só para Cruise ou para a Paramount, estúdio que bancou a conta. Indicam também que uma fatia enorme do público está disposta a sair de casa para aproveitar uma aventura que, veja só, funciona para todo mundo.” (Roberto Sadovski, maio de 2022, itálico adicionado)
“A primeira razão pela qual eu acho que Top Gun: Maverick seria um vencedor muito legal [do Oscar de Melhor Filme] é que é praticamente o único filme deste ano que conseguiu encontrar algo que o cinema perdeu faz vários anos e não acha mais em lugar nenhum: o território comum. Eu tenho reparado que uma parte do público, que é um pouco mais velha, por exemplo, não curte muito Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, acha o filme confuso, acha ele rápido, acha ele irrelevante até.
(…)
Ele [Tom Cruise] resgatou algo que estava meio esquecido na última década, ou duas décadas da história de Hollywood, e fez um filme pelo qual, eu arrisco dizer, muito pouca gente se importaria de torcer.” (Isabela Boscov, março de 2023, itálico adicionado)
Lembro de como essa narrativa me incomodava na época. A ideia de um filme de guerra sob a perspectiva de um militar estadunidense como algo “para todos” me espantava. Ao mesmo tempo, era perceptível que grande parte das reações negativas mais exageradas contra Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo vinha de uma irritação ligada à recusa das pessoas em se conectar com uma história pessoal e afetiva que não centrava imediatamente suas próprias referências. Muito foco era dado a uma rejeição estética ao longa, como se ele fosse uma obra forçada ou esvaziada de um conteúdo de valor com o qual se relacionar. A sensação que ficava para quem se permitiu afetar por certas camadas da narrativa era de que, no fundo, as pessoas estavam incomodadas com a ideia de tratar temas relacionados às particularidades da vida de pessoas amarelas nas Américas como um assunto válido e de interesse geral (como exemplo, ver o texto de Jéssica Nakamura, março de 2023).
Minha experiência com o longa da A24 foi marcante e intensa. Assisti com minha companheira à época, que foi muito tocada pelo filme. Havia identificações claras, ela era uma mulher nipo-brasileira, com um quadro depressivo grave e traumas profundos de uma vida familiar que nunca conseguiu curar, apesar de todo seu esforço. Nunca havíamos chorado tanto.
Após a vitória na noite do Oscar, a polêmica se intensificou nas redes sociais e dominou as discussões no Twitter por semanas. A dimensão racial sempre esteve presente, mas raramente explicitada; bem como estamos acostumados a lidar com a racialidade amarela. Um caso que repercutiu nas semanas anteriores à premiação foi o de uma professora universitária que criticou o filme, caracterizando como um “Scott Pilgrim Against the World sino-americano escrito pelo Charlie Kauffman da Shopee”. Após a reação contra o seu post, a defesa da autora foi de que ela teria mencionado “da Shopee” como gíria para “versão piorada”, sem relação alguma com raça, nacionalidade ou etnia.
Foi logo após a premiação que o tema chegou ao meu trabalho como psicoterapeuta. Uma cliente nipo-brasileira que se identificou, amou o filme e ficou feliz com as premiações, estava triste e abalada com os ataques no debate público. O sentimento de não pertencimento e solidão que ela relatou era completamente compreensível. A cliente chegou a duvidar de sua percepção da realidade: questionou se o filme era realmente bom ou se ela e sua amiga haviam avaliado de forma eufórica por se identificarem. Precisei me posicionar com clareza: pessoas brancas não se perguntam isso quando se identificam e gostam de algo; eu não me perguntei.
Não é à toa que, ao escrever o artigo em que apresentamos a relação entre o universal e o particular como problema teórico fundamental da psicologia social comportamentalista radical, fiz questão de incluir um exemplo sobre a racialidade amarela (Flores Júnior et al., 2024). Os mecanismos de opressão racial contra essa população operam de maneira especialmente perniciosa. Constantemente, se impõe às pessoas amarelas brasileiras o lugar do diferente, a vivência concreta de que elas não pertencem à branquitude; ao mesmo tempo, porém, qualquer explicitação política de suas particularidades tende a ser invalidada. Isso produz uma experiência racial reiteradamente reafirmada pelas opressões cotidianas, mas negada no nível do discurso. À racialidade amarela no Brasil é negado tanto o lugar de poder da universalidade quanto o lugar de identificação da particularidade.
A ideia de um sujeito humano universal é uma invenção muito específica do pensamento europeu moderno. A ideologia contemporânea a respeito do sujeito universal envolve a pressuposição de uma inquestionabilidade em sua legitimidade, designando uma categoria do humano de maneira fixada e absoluta, organizada a partir do lugar de poder masculino e dos demais marcadores sociais privilegiados, como a branquitude e a heterossexualidade (Guimarães, 2022). Pensemos no quão vantajoso é que todos acreditem que os interesses do meu grupo são os interesses da sociedade como um todo; que as minhas necessidades são necessidades básicas de qualquer pessoa; que o meu sofrimento é o legítimo sofrimento humano; e que a minha visão de mundo é uma norma à qual todo o conhecimento humano deve se adequar. Tal ideal acompanha a constituição do indivíduo liberal-burguês que funda os parâmetros culturais do mundo capitalista contemporâneo.
Essa noção universalista de humanidade afeta diretamente a nossa produção de conhecimento nas universidades. Por um lado, ela serve como parâmetro de quem deveria ser o sujeito do conhecimento e deter o poder de validar a verdade científica; por outro lado, é essa ideia de universalidade que vai balizar nossas generalizações do conhecimento sobre a humanidade. Esse problema nos desafia constantemente na psicologia, na medida em que buscamos teorizar e intervir a partir de conhecimentos que, mesmo quando não são produzidos nos centros do Norte Global, ainda assim seguem os parâmetros e normas por eles estabelecidos.
A questão da generalização do conhecimento na clínica e de como lidar com a diversidade de contextos, populações e condições particulares de clientes e psicoterapeutas é um objeto de controvérsia fundamental na atualidade. No fim das contas, é sobre isso que trata o debate a respeito da ideia de PBE (psicologia baseada em evidências) e alternativas críticas à proposta, como a psicologia baseada em processos. Mas, de modo muito mais prático e cotidiano, o que fica evidente no que comentei até aqui é a necessidade de tomarmos cuidado com a pressuposição automática que nos acostumamos a ter a respeito da universalidade. Precisamos buscar compreender ativamente como estamos expostos a essa ideologia de maneira constante, o que sempre exigirá seu tensionamento ao lidarmos com a história de cada pessoa e com a nossa perspectiva sobre essas histórias.
A construção do dispositivo ideológico do sujeito universal está fundamentalmente conectada também com a invenção da ideia do “Oriente”, como uma visão exotificada de um Outro estrangeiro que estabelece por contraste o parâmetro de um “nós” ocidental (ver Said, 2011). Essa construção vai marcar profundamente a relação da nossa cultura com as pessoas de origem asiática, e outros grupos que estão fora dessa ideia de ocidentalidade. Então, você que está lendo este texto pode pensar que ainda estou falando sobre o tal particularismo pós-moderno de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, certo? Mas e quanto a Top Gun: Maverick? Qual era a missão para a qual aqueles jovens heróis estadunidenses estavam treinando? Contra quem eles estavam lutando?
A história de Top Gun: Maverick girava em torno do ataque a uma base nuclear de um país inimigo, uma ação preventiva contra o mal maior que seria causado caso aquela base continuasse em funcionamento. O país inimigo propositalmente não foi identificado; afinal, estamos falando do bem para todos, não estamos? Desumanizar e retirar a identidade do inimigo é uma estratégia comum ao imperialismo e à sua produção cultural, e permite a caracterização do outro como apenas um mal essencial a ser combatido. No entanto, algumas coisas ficam claras: tratava-se de um país do Oriente Médio, nas proximidades do Irã; esse país contava com caças F-14, que atualmente só estão em funcionamento no Irã.
Poderia ser alegado que se tratava apenas de uma ideia genérica para servir de pano de fundo para o filme, até que, em 21 de junho de 2025, os Estados Unidos de fato realizaram um ataque a instalações nucleares iranianas, conforme a missão retratada no longa de 2022. O ataque ocorreu dias após o início do conflito militar deflagrado pelo regime sionista de Israel sob a alegação de que o Irã estava prestes a desenvolver bombas nucleares. A acusação de que o Irã estava concluindo a produção de armamentos nucleares era uma retórica repetida pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por mais de trinta anos; e a retórica ecoava a mesma justificativa forjada pelos Estados Unidos para atacar o Iraque em 2003. As coincidências envolvendo o filme logo passaram a ser percebidas e comentadas nas redes sociais.
Igualmente interessante é a reação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao ser questionado pela imprensa quanto às evidências de que o ataque não havia tido tanto sucesso quanto seu governo alegava. De modo inflamado, o republicano tratou o questionamento de jornalistas como uma ofensa à honra dos militares que fizeram uma missão heroica e bem-sucedida. Era a mesma construção simbólica de heroísmo que havia sido propagada a milhões de pessoas alguns anos antes pelo filme de Tom Cruise. Que fique claro: há uma função em produtos culturais que naturalizam a ação imperialista, e isso envolve a designação de quem deve ou não ser humanizado. Para não perder a materialidade do caso de vista, vale lembrar que se trata de uma obra sobre as forças armadas estadunidenses, as quais financiaram, supervisionaram e cederam suas instalações para a produção do filme (como é comum na indústria cinematográfica do país norte-americano).
Será que Top Gun: Maverick era uma obra tão unificadora assim? Será que o seu sentido é o mesmo para as vítimas das bombas de seus heróis e para aqueles que são contra os conflitos que sua narrativa exalta? Afinal, o que é mais relevante e geral? A perspectiva universal das forças armadas dos Estados Unidos ou o multiverso caótico das crises familiares, geracionais e econômicas de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo?
Ao propor modos de compreender os seres humanos, a ciência psicológica se vê constantemente implicada nas disputas a respeito do que caracteriza a humanidade, e de quais serão os referenciais a balizar a nossa construção de conhecimentos gerais sobre as pessoas e os seus comportamentos. Este ensaio é um esforço pontual de sensibilização ao modo como nossa vida e nossa cultura estão permeadas por esses conflitos, mesmo quando isso não está claro à primeira vista. Acredito que a crítica cultural pode cumprir um papel crucial para nos sensibilizar às diversas influências que operam constantemente sobre a nossa percepção do mundo, de nós e dos outros. O texto é um convite para refletir a partir do contato com a minha perspectiva pessoal e situada sobre os temas e as ideias expostas; por isso mesmo, as opiniões e perspectivas aqui apresentadas são de minha responsabilidade. No entanto, o conteúdo do que escrevi é apenas um recurso que busca servir de mediação para tomadas de posição que cabem a cada pessoa, em seus próprios universos.
Referências:
Al Jazeera. (2025, 18 de junho). The history of Netanyahu’s rhetoric on Iran’s nuclear ambitions. https://www.aljazeera.com/gallery/2025/6/18/the-history-of-netanyahus-rhetoric-on-irans-nuclear-ambitions
Amâncio, T. (2023, 20 de março). Premissas falsas para invasão do Iraque custaram credibilidade dos EUA. Folha de S.Paulo. https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/03/premissas-falsas-para-invasao-do-iraque-custaram-credibilidade-dos-eua.shtml
BBC News Brasil. (2025, 24 de junho). Trump rejeita relatório do Pentágono que diz que ataques dos EUA não destruíram programa nuclear do Irã. https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3354kgz43go
Boscov, I. [Isabela Boscov]. (2023, 8 de março). Um último palpite: e se Top Gun ganhasse o Oscar? [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=daUBGH9XISQ
Flores Júnior, C. R., Laurenti, C., Borba, A., & Tourinho, E. Z. (2024). Rumo a uma psicologia social comportamentalista radical. Acta Comportamentalia, 32(4), 647–666. https://doi.org/10.32870/ac.v32i4.88494
Guimarães, G. (2022). Ensaio feminista sobre o sujeito universal. EDUERJ.
Kosinski, J. (2022). Top Gun: Maverick [Filme]. Paramount Pictures.
Kwan, D., & Scheinert, D. (2022). Tudo em todo lugar ao mesmo tempo [Filme]. A24.
Nakamura, J. (2023, 15 de março). Oscar: Por que “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” incomoda tanta gente?. UOL Splash. https://www.uol.com.br/splash/noticias/2023/03/15/oscar-por-que-tudo-em-todo-lugar-ao-mesmo-tempo-incomoda-tanta-gente.htm
Sadovski, R. (2022, 30 de maio). Por que “Top Gun Maverick” é o filme que vai salvar o cinema. UOL Splash. https://www.uol.com.br/splash/colunas/roberto-sadovski/2022/05/30/por-que-top-gun-maverick-e-o-filme-que-vai-salvar-o-cinema.htm
Said, E. W. (2011). Cultura e imperialismo. Companhia de Bolso.

