Quando olhamos para o histórico da psicologia clínica comportamental, nos deparamos com o entendimento da queixa ou sintoma do paciente como sendo algo a ser consertado ou eliminado. Isso fica ainda mais evidente quando lidamos com quadros agudos de transtornos de ansiedade, em que no seu relato o paciente traz um enorme sofrimento de se deparar com sensações físicas e pensamentos altamente catastróficos e desconfortáveis. A fala frequentemente trazida é a de que “quero parar de sentir isso”, colocando a métrica de sucesso terapêutico na redução dos sintomas percebidos.
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) traz uma mudança de paradigma, “baseada na ideia de que a linguagem humana dá origem tanto a realizações humanas quanto ao sofrimento humano” (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021, pág. 12). Ou seja, emoções e pensamentos difíceis são vistos como parte da experiência humana. Nesse sentido, o profissional passa a olhar o problema central não mais como o sentir o desconforto (queixa/sintoma) e sim a forma como a pessoa responde a esse sofrimento.
Para a ACT, “a rigidez psicológica é a causa essencial do sofrimento e do funcionamento humano mal-adaptativo” (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021, pág. 50), o eixo central do processo terapêutico se desloca da queixa/sintoma generalista, com intervenções pré-programadas e estruturadas que visam parar o sintoma, para uma individualização da escuta, que enfoca na função do que é relatado, e prioriza dar voz ao que se sente e ao que se pensa. Para a ACT, “a flexibilidade psicológica nos capacita a aceitar e viver como desejamos com nossa dor, quando ela existir”. (Hayes, 2023, pág 5). A ideia é minimizar as inúmeras e recorrentes tentativas de evitar ou controlar emoções e pensamentos, que só aumentam o sofrimento a longo prazo e trazem uma vida que passa a ser organizada a fim do que se quer evitar.
E aqui cabe a pergunta: como essa mudança de paradigma e de forma de intervir clinicamente torna a vida dos nossos pacientes mais satisfatórias? O que torna a flexibilidade psicológica um ganho clinicamente relevante?
- Sintomas perdem poder de controle sobre o comportamento, afinal, sentimentos passam a ser vistos como sentimentos (que sinalizam elementos que nos são relevantes), pensamentos como pensamentos (histórias que nossa cabeça nos conta) e, portanto, não são rivais a ser evitados ou combatidos.
- A vida deixa de ficar condicionada à ausência de sofrimento, pois a felicidade passa a não ser mais uma meta estática a ser buscada e sim muito mais, um movimento a ser construído cotidianamente.
- Há uma aproximação das áreas valiosas da vida, colocando o foco na construção de uma vida que valha a pena ser vivida.
- Evita promessas irreais de controle emocional, uma vez que a vida terá acontecimentos e com eles as emoções se manifestarão. Isso prepara o paciente para lidar com futuros sofrimentos inevitáveis
- Promove autonomia e responsabilidade pessoal, ou seja, a melhora não está condicionada a eliminar algo, ou a alguém fazer algo, e sim a uma mudança cotidiana na forma de se aproximar de si e do que se sente.
Todo esse processo terapêutico não é fácil ou linear, até porque a própria terapia espelhará o que acontece “na vida real”. Não é sobre uma vida sem dor, e sim uma vida alinhada com valores. Por isso, a eficácia clínica estará em mudar a relação com o sofrimento, não em eliminá-lo.
Referências Bibliográficas
Hayes, S. C., Strosahl, K.D. & Wilson, K. G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança. Porto Alegre: Artmed.
Hayes, S. C. (2023). Uma mente livre: como se direcionar ao que realmente importa. Rio de Janeiro: Alta Books.
