Quando pensava em supervisão na graduação, sempre me pareceu um espaço de aperfeiçoamento técnico, de tirar as dúvidas, receber direcionamentos pragmáticos, de auxílio prático para o caso “voltar a andar”. E não que essa percepção esteja totalmente equivocada, mas hoje, após anos de prática como supervisora e supervisionanda, abri o meu olhar para outros ângulos da supervisão.
Em termos de Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), o eixo central da abordagem é trabalhar e ampliar flexibilidade psicológica. E não que esse constructo seja uma linha de chegada e algo estático, mas sim uma construção e um constante aperfeiçoar e vir a ser. Nesse sentido, a supervisão se torna mais do que um espaço para corrigir condutas. “Reconhecer as próprias vulnerabilidades pessoais e cultivar uma presença genuína também faz parte de praticar ACT com competências” (Luoma, Hayes & Walser, 2022, pág. 373).
Quem se propõe a ser supervisor precisa se abrir a ouvir além do caso e ver a pessoa do terapeuta também presente na narrativa. Afinal, se dentre todos os atendimentos aquele caso é o selecionado por esse profissional para ir à supervisão, isso por si só já é um dado. Afinal, o que esse caso em específico tem de tão diferente e desafiador? Como ele ativa/provoca/amedronta a pessoa do terapeuta?
Podemos dizer inclusive que a supervisão é como uma réplica do que acontece no processo terapêutico, onde há uma relação a ser construída e consolidada entre supervisor-supervisionando, tal como terapeuta-paciente e onde é essencial um vínculo seguro e uma abertura à vulnerabilidade. A supervisão é então esse contexto e oportunidade de modelagem de aceitação, presença e compromisso. “É importante que o terapeuta não só mire os processos de flexibilidade psicológica do cliente, mas também demonstre essas habilidades” (Hayes, Strosahl & Wilson, 2021, pág. 116). E assim, como essa é a proposta entre terapeuta-cliente, também é entre supervisor-supervisionando.
O supervisor não deve ser um juiz, que contém todas as regras de certo/errado, mas na verdade ele deve saber evocar o self do seu supervisionando, seus medos, incertezas e desafios, através de um espelho compassivo. E como todo espelho, também deve se abrir a oportunidade de se observar, e ver esse espaço como uma bela oportunidade de uma jornada conjunta de crescimento de viver com mais presença – dentro e fora do consultório.
Por fim, deixo um questionamento a você leitor, seja você supervisor ou supervisionando: “Como você tem se colocado nas suas supervisões: buscando aprovação ou praticando presença e crescimento?”. Lembre-se sempre: ACT é um convite a um modo de ser e estar no mundo, mais do que um conjunto de protocolos, técnicas e direcionamentos estáticos. Supervisão em ACT não é um processo de correção, mas de expansão de consciência. No fim das contas, a supervisão em ACT é um espelho da própria abordagem: não se trata de eliminar o desconforto, mas de se relacionar com ele de modo mais flexível e coerente com o que tem valor.
Referências Bibliográficas
Hayes, S. C., Strosahl, K.D. & Wilson, K. G. (2021). Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança. Porto Alegre: Artmed
Luoma, J.B., Hayes, S.C. & Walser, R.D. (2022). Aprendendo ACT: Manual de habilidades da terapia de aceitação e compromisso para terapeutas. Novo Hamburgo: Sinopsys Editora

