Dificuldades na utilização do comportamento verbal como uma fonte de informações em psicoterapia: uma introdução

“Refraseando Skinner: não acredite no comportamento verbal; acredite no que determina o comportamento verbal.” – Hélio José Guilhardi, 2012

Na perspectiva da Análise do Comportamento, os seres humanos sofrem devido à impossibilidade de produzir reforçadores positivos e/ou eliminar estímulos aversivos, no curto e no longo prazo (Guilhardi, 2004). Dessa maneira, para auxiliar um cliente que o procura, o psicoterapeuta que atua com a Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR) precisa identificar os déficits e/ou os excessos comportamentais que mantêm o cliente em uma condição de escassez de reforçadores positivos e/ou abundância de estímulos aversivos, e as contingências de reforçamento que mantém essas dificuldades comportamentais. A partir do levantamento dos possíveis eventos ambientais que controlam os comportamentos de interesse, é possível traçar os objetivos da psicoterapia (quais os comportamentos a se desenvolver) e definir os procedimentos psicoterapêuticos (Aranha et al., 2021).

Para ilustrar o modelo de sofrimento humano utilizado pela TCR, tomemos como exemplo uma pessoa que apresenta excessos de comportamentos com fenótipo agressivo (e.g., gritar) em situações sociais que possuem função aversiva para ela (e.g., ao ser criticado). As consequências imediatas do comportamento agressivo incluem remover os estímulos aversivos sociais presentes (e.g., quando emite o comportamento agressivo, o interlocutor interrompe as suas verbalizações). Mais tarde, a expressão de tristeza e o afastamento dos colegas, eventos que também possuem função aversiva, produzem sentimentos de culpa e arrependimento no indivíduo que emitiu a agressão. Impossibilitado de desenvolver comportamentos sociais mais construtivos e amenos, por não existirem variáveis ambientais capazes de instalar e manter tais comportamentos, o indivíduo continua interagindo da mesma forma com os demais, produzindo um ambiente social aversivo, e os sentimentos provenientes dessas interações continuam sendo a raiva, a culpa e o arrependimento. Nessa condição, dizemos que ele está sofrendo.

As dificuldades comportamentais que os clientes apresentam são aprendidas e mantidas pelas contingências de reforçamento ao longo da vida do sujeito (Guilhardi, 2010). Utilizando o exemplo do parágrafo anterior, no passado, o pai do indivíduo pode ter apresentado comportamentos com fenótipo agressivo (e.g., gritar) que teriam função aversiva para o comportamento do filho (e.g., quando o pai gritava contingente às brincadeiras do filho, o filho interrompia as brincadeiras) e, adicionalmente, teriam servido como um modelo. O filho passou a responder de forma agressiva (imitou o modelo do pai) em situações que lhe eram aversivas e os comportamentos agressivos foram sendo reforçados negativamente até o momento presente (retirando ou atenuando os comportamentos de terceiros com função aversiva). Como descrito anteriormente, o comportamento se manteve porque não houve novas contingências capazes de alterá-lo.

            A tarefa de identificar comportamentos relevantes para a psicoterapia e as variáveis controladoras desses comportamentos é difícil. Diferentemente do ambiente de pesquisa, em que o experimentador pode observar diretamente o comportamento-alvo (e.g., pressão à barra) e pode observar e manipular as possíveis variáveis controladoras (e.g., água contingente à pressão à barra), o psicoterapeuta convive com, no mínimo, dois  problemas: 1) não poder observar diretamente os comportamentos do cliente que ocorrem fora da sessão e se relacionam com seu sofrimento, e 2) não poder observar e manipular diretamente as variáveis controladoras, inicialmente hipotetizadas, a fim de checar se elas são funcionalmente vinculadas com os comportamentos objetos de estudo (Starling, 2010).

            Sobre o item 1., diante da impossibilidade de observar diretamente os comportamentos do cliente que ocorrem fora da sessão e o mantêm em condições que o fazem sofrer, o psicoterapeuta utiliza as seguintes fontes para coletar as informações: a) os comportamentos verbais e não verbais do cliente que ocorrem dentro da sessão; b) os comportamentos verbais e não verbais dos familiares e outras pessoas relevantes do cliente que ocorrem dentro da sessão (Guilhardi, 2004); c) os produtos comportamentais resultantes dos comportamentos do cliente (Poling et al., 1995); d) o relato de observadores capacitados a observar eventos comportamentais e que tenham contato com o cliente fora da sessão (e.g., acompanhantes terapêuticos); e, em poucos casos, apenas quando possível, e) a observação direta dos comportamentos do cliente fora da sessão (Guilhardi, 2004). Assim sendo, o psicoterapeuta, em grande parte, baseia suas análises nos relatos do cliente sobre seus comportamentos e os eventos ambientais. É importante, portanto, o psicoterapeuta conhecer os princípios comportamentais que regem o comportamento verbal. Nessa discussão, em especial, o comportamento verbal de relatar.

A Análise do Comportamento compreende o relato verbal como um comportamento de tato, definido como um operante verbal emitido sob controle de estímulos discriminativos não verbais e mantido por reforçamento positivo social generalizado (Skinner, 1957). De maneira simplificada, para instalá-lo, a comunidade verbal apresenta um modelo (a mãe diz “água”) e aguarda a emissão do comportamento verbal ecóico (o filho diz “água”), reforçando positivamente a emissão (“isso!”). Mais tarde, a comunidade pode evocar a resposta verbal diante do evento antecedente a qual ela faz referência (“o que é isso dentro da garrafinha?”) e reforçar positivamente (“isso!”) a resposta verbal do falante (“é água”). A partir disso, a resposta verbal fica sob controle discriminativo do evento ambiental referido pela comunidade verbal (isto é, o indivíduo falará “água” diante do evento ambiental nomeado como água).

Há, pelo menos, dois grupos de dificuldades ao se utilizarem relatos do cliente para coletar informações na psicoterapia. O primeiro grupo de dificuldades se refere à história de contingências de reforçamento do cliente: 1. no momento da aprendizagem do tato, o cliente pode apresentar déficit de respostas de observação e auto-observação, o que não permite que ele fique sob controle discriminativo dos eventos ambientais para, mais tarde, seu comportamento verbal poder ser emitido e reforçado; 2. a auto-observação pode ocorrer, porém as consequências decorrentes da emissão do comportamento de observar podem não produzir reforçadores positivos suficientes para fortalecer a relação antecedente-resposta verbal; e 3. a comunidade verbal pode não ter acesso aos eventos antecedentes para reforçar sua correspondência com o relato (como ocorre com eventos encobertos). Como a resposta verbal não é devidamente colocada sob controle de estímulos e fortalecida, ela não ocorre (De Rose, 1999). Um leigo poderia dizer que o cliente “não se lembra” dos eventos.

O segundo grupo de dificuldades se encontra nas contingências de reforçamento presentes. O tato é instalado por reforçadores generalizados, contudo, após ser estabelecido, pode passar a ficar sob controle de consequências específicas. Quando o ouvinte não tem acesso aos eventos antecedentes para aferir a validade do relato, a resposta verbal pode ser distorcida, pois a alteração do relato pode produzir reforçadores positivos ou eliminar punições sociais (De Rose, 1999). Um leigo poderia dizer que o cliente é “manipulador” ou “mentiroso”.

Mesmo com as dificuldades apontadas, os relatos verbais do cliente são a principal fonte de informação para levantar hipóteses sobre os comportamentos relevantes e as contingências controladoras. É papel do psicoterapeuta determinar se os relatos do cliente têm maior ou menor probabilidade de serem tatos verbais, isto é, descrições precisas sobre os eventos. Duas possibilidades são descritas a seguir.

Uma possibilidade de avaliar se os relatos do cliente são tatos verbais ou não é por meio da coleta de evidências sobre os componentes da contingência de reforçamento em análise. Se o psicoterapeuta desconfia que determinado comportamento do cliente é mantido por uma contingência de reforçamento positivo, ele pode coletar diferentes componentes da contingência que corroborem com sua hipótese (e.g., frequência do comportamento deve ser mantida ou aumentada, sentimentos usualmente descritos como positivos devem ser experimentados, o comportamento deve produzir o reforçador positivo etc.), sendo a identificação de componentes divergentes uma dica de que a hipótese é equivocada (e.g., a frequência do comportamento diminui, os sentimentos descritos são negativos, o comportamento é o de se afastar do estímulo em questão etc.)

Outra possibilidade é avaliar regularidades e discrepâncias nas descrições dos eventos que ocorrem na vida do cliente. Se o cliente descreve que “trabalha para pagar suas contas, porém não paga as contas da casa, deixando que seu cônjuge as pague” (uma possibilidade de comportamento pouco sensível aos impactos que causa no outro), o psicoterapeuta deveria se perguntar se, mais tarde, o relato de que o cliente “foi a uma festa para agradar o cônjuge” é um tato ou, na realidade, se o cliente respondeu a outros reforçadores positivos (por exemplo, foi a festa, para conversar com os amigos e se sentiu indiferente a felicidade do cônjuge).

Referências

Aranha, A. S., Naine, L. P., & Oshiro, C. K. B. (2021). Terapia por contingências de reforçamento (TCR) e dependência de substâncias: Apresentação de caso clínico. In S. M. Oliani, R. A. Reichert, & R. A. Banaco (Orgs.), Análise do comportamento e dependência de substâncias: Teoria, pesquisa e intervenção (pp. 247-286). São Paulo: Paradigma.

De Rose, J. C. C. (1999). O relato verbal segundo a perspectiva da análise do comportamento: Contribuições conceituais e experimentais. In R. A. Banaco (Orgs.), Sobre comportamento e cognição: Aspectos teóricos, metodológicos e de formação em análise do comportamento e terapia cognitivista (2a ed.) (pp. 148-163). Santo André: ARBytes.

Guilhardi, H. J. (2004). Terapia por contingências de reforçamento. In C. N. Abreu & H. J. Guilhardi (Eds.), Terapia comportamental e cognitivo-comportamental: Práticas clínicas (pp. 3-40). São Paulo: Roca.

Guilhardi, H. J. (2010). História de contingências de reforçamento. Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento. Recuperado de http://www.itcrcampinas.com.br/txt/historia.pdf

Poling, A., Methot, L. L., & LeSage, M. G. (1995). Fundamentals of behavior analytic research. New York: Springer.

Skinner, B. F. (1957). Verbal behavior. East Norwalk: Appleton-Century-Crofts. https://doi.org/10.1037/11256-000

Starling, R. R. (2010). Prática controlada: Medidas continuadas e produção de evidências empíricas em terapias analítico-comportamentais. (Tese de doutorado, Universidade de São Paulo). Biblioteca digital de teses e dissertações da USP. https://doi.org/10.11606/T.47.2010.tde-29032010-163308

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Escrito por Alan Souza Aranha

Psicólogo (CRP 06/100599), com especialização em Terapia Comportamental pelo Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR-Campinas), especialização em Dependências Químicas e Comportamentais pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), além de mestrado e doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (PSC-USP). Atualmente trabalha como psicólogo e supervisor clínico em consultório particular, e como docente convidado em cursos de pós-graduação em Psicologia e Terapia Comportamental. Possui experiência como docente em cursos de graduação em Psicologia, especialmente em disciplinas relacionadas à Análise do Comportamento. Contato: alansaranha@gmail.com | @alanaranhapsicologo

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