Por que Terapia Baseada em Processos (PBT) não é uma nova terapia (e porque isso importa)

No texto anterior “A Terapia Baseada em Processos será mesmo a maior revolução na história da psicologia?”, comentei sobre a proposta da Terapia Baseada em Processos (PBT) e sobre como ela tem despertado entusiasmo, curiosidade – e também resistência – entre pesquisadores e psicólogos clínicos. Mas também destaquei que, apesar de promissora, essa proposta ainda é incipiente e, até o momento, carece de evidências robustas que sustentem sua eficácia enquanto modelo terapêutico consolidado. O que não significa, de forma alguma, que o debate precise parar por aqui.

Diante desse cenário, parece relevante explorar um ponto que noto ser ainda pouco abordado: a PBT não é, estritamente falando, uma nova terapia – mas sim uma abordagem baseada em processos para a psicoterapia, ideia que tem permeado o livro mais recente sobre PBT, de Ong e Lee (2025). Fazer essa distinção pode ser importante para ampliar o debate e a compreensão sobre o que de fato torna uma terapia em um modelo baseado em processos. Essa distinção pode parecer sutil, mas tem implicações importantes para a forma como pensamos, estudamos e praticamos psicoterapia e, especialmente, para a forma como compreendemos a PBT em si. 

Quando falamos de terapia baseada em processos e a nomeamos como “terapia”, Ong & Lee (2025) têm considerado essa nomenclatura um “nome impróprio” (do inglês, misnomer) e levantado questionamentos importantes a respeito do que é PBT e do que ela pode ser, de fato. Se nomeamos PBT como “terapia”, facilmente colocaremos essa perspectiva na mesma caixinha de outros modelos terapêuticos, como a Terapia de Aceitação e Compromisso ou a Terapia Comportamental Dialética, por exemplo. Esses modelos são organizados dentro de uma perspectiva teórica e apresentam uma estrutura que compreende uma série de estratégias e intervenções específicas (para problemas específicos) – estrutura e compreensão que não se aplicam à perspectiva da PBT.

E é aqui que, quando a nomeamos como terapia, corremos o risco de cair em uma “armadilha das classificações” que a própria proposta da PBT tenta superar. Ao chamá-la de terapia, podemos acabar reproduzindo o mesmo movimento que a originou – o de entender a mudança psicológica a partir de um novo “modelo” ou “protocolo” a ser seguido – e assim nos afastarmos da almejada individualização da psicoterapia e de uma compreensão idiográfica do sofrimento humano. Equivaler a PBT a um novo modelo terapêutico, portanto, pode ser prejudicial não apenas por distorcer sua proposta, mas também por restringir seu potencial e torná-la “mais do mesmo”. A relação que temos com a palavra “terapia”, por si só, costuma significar a aplicação de um conjunto de técnicas e intervenções pautadas em uma teoria específica sobre o comportamento humano, ou seja, quando falamos de terapia estamos falando de modelos terapêuticos, e esse não é o caso da terapia baseada em processos. Por isso, talvez seja importante explorar essa perspectiva mudando a nomenclatura (ou pelo menos, a forma como temos falado sobre) de terapia baseada em processos para uma abordagem (ou perspectiva) baseada em processos.

Quando direcionamos nosso olhar para a PBT a partir da noção de que a proposta é a de uma abordagem ou perspectiva baseada em processos para a psicoterapia, e não de um modelo terapêutico novo e revolucionário, nos aproximamos de uma compreensão mais assertiva sobre essa proposta: a de que a PBT é uma abordagem para pensar os casos, com uma estrutura que possibilita construir um raciocínio clínico idiográfico e funcional, pautado nos processos subjacentes (e não em sintomas). Diante dessas questões, Ong e Lee (2025) tem afirmado que, nesse momento, PBT pode se caracterizar como uma estrutura para desenvolver um raciocínio clínico baseado em processos, suas inter-relações e funções, e não como um novo modelo terapêutico revolucionário, com técnicas próprias ou aplicações específicas. Nesse caso, estamos falando de um novo – porém, não necessariamente revolucionário – tipo de raciocínio clínico, uma forma de pensar os casos de maneira abrangente, individualizada e funcional (ainda que a análise funcional da proposta também pareça ainda incipiente – mas deixemos essa crítica para depois). Olhar para a PBT por esse prisma pode nos ajudar a compreender melhor a proposta sem que caiamos na possível armadilha de “aprender um novo protocolo que funciona para todas as síndromes”.

Mais do que o surgimento de uma nova terapia (o que já vimos que não é caso), talvez a proposta da PBT seja repensar o próprio raciocínio clínico para que possamos caminhar em direção a uma mudança sobre como pensamos e fazemos terapia, o que significa sair da lógica protocolar para nos aproximarmos de uma compreensão mais funcional, contextual e idiográfica do sofrimento humano. E é através da construção dessa compreensão e conhecimentos que poderemos entender se, no dia-a-dia de quem está na linha de frente da psicoterapia (psicólogos clínicos e pacientes), uma perspectiva baseada em processos pode ser de fato útil e eficaz. Enquanto isso, continuamos no que talvez seja o ponto mais fértil da ciência: o de observar, questionar e seguir construindo e ampliando o horizonte da nossa ilha do conhecimento.

Referências

Ong, C. W., & Lee, E. B. (2025). A process-based approach to psychotherapy. Oxford University Press.

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Classificação do artigo
Mariangela de Freitas Dias

Escrito por Mariangela de Freitas Dias

Possui graduação em Psicologia pelo Centro Universitário UniBrasil (2013). Possui Mestrado em Educação pela UFPR (2016). Especialista em Terapia Analítico-Comportamental pelo UniBrasil (2022). Atua como psicóloga clínica e supervisora, com base na perspectiva da prática baseada em evidências.

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