Escrito por Carol Rimoldi e Gabriela Lira – @vidaevalor.psicologia e @psi.gabrielalira
Autoras convidadas pelo SIG Mulheres
O gênero não é uma característica inerente ou essencial dos indivíduos, ao contrário, é uma construção da comunidade verbal que “organiza as pessoas em grupos categoricamente, e caracteriza as relações sociais” (Ruiz, 2003, p. 12). Embora os indivíduos se identifiquem dentro de um amplo espectro de gênero, a noção social vigente é binária, estabelecendo o masculino e o feminino não apenas como categorias distintas, mas opostas, que incluem, cada uma um conjunto de regras e repertórios aos quais espera-se que os indivíduos pertencentes a esses grupos correspondam – os estereótipos de gênero (Lauretis, 1994; Ruiz, 2003; Zanello, 2018; Ferraz, et al., 2019; Farrel, et al., 2023). Tal contexto favorece o estresse de gênero que ocorre quando a identidade de gênero de um indivíduo é externamente regulada, sendo pautada em parâmetros inflexíveis (Sickman et al., 2023). Sendo, então, o gênero um conceito construído pela comunidade verbal, cabe compreender como essa construção se dá. A Teoria das Molduras Relacionais (RFT) contribui para esta compreensão.
De acordo com a RFT, desde quando os bebês são iniciados no treino da linguagem, a comunidade verbal fornece um conjunto de dicas contextuais que favorece o desenvolvimento relações entre estímulos, resultando na aprendizagem de conceitos, desde os mais simples até os mais complexos, como o conceito de gênero. Esse processo de dá a partir do treino de múltiplos exemplares, em que diversas relações entre estímulos são diretamente treinadas, até que a relação em si seja abstraída e novas respostas relacionais sejam derivadas (Hayes, Barnes-Holmes, & Roche, 2001; Hayes, Fox, et al., 2001). Vamos tomar o treino inicial da linguagem de crianças como exemplo para ilustrar a definição anterior. Diante de objetos do cotidiano, a comunidade verbal começa a nomear e descrever tais objetos para a criança, como seus brinquedos, utensílios de alimentação, objetos do quarto, etc. e faz perguntas ou solicitações à criança, como: “o que é isso?”, “qual é a cor desse brinquedo?”, “qual é o verde?”, “pega o ursinho”, etc. À medida em que a criança responde adequadamente, se orientando para os estímulos referidos, apontando, pegando e, posteriormente, emitindo outras respostas mais complexas como os operantes verbais, ela vai sendo reforçada. Após muitos treinos da relação estabelecida entre múltiplos estímulos, a criança passa a ser capaz de estabelecer a mesma relação entre novos pares de estímulos, as quais não foram previamente treinadas. Assim, considerando os exemplos dados que envolvem relação de igualdade/semelhança (moldura de coordenação), a criança pode emitir respostas verbais (apontar, pegar, nomear, dentre outras) quando perguntada onde está a almofada, mesmo que a resposta a esta dica contextual diante deste estímulo nunca tenha sido reforçada anteriormente. Assim, uma vez que o repertório relacional é adquirido, ao interagir com o ambiente social ou dar sentido a ele, o indivíduo sempre realiza respostas de emoldurar relacional (Farrell et al., 2023).
O gênero, então, é um conceito aprendido por treino direto e derivação através do emoldurar relacional e pode ser incluído em diferentes tipos de molduras que incluem papéis sociais e expectativas culturais (Sttit, 2020; Sickman et al., 2023). Uma moldura relacional na qual o gênero é frequentemente incluído é a de coordenação, que estabelece relações de igualdade/semelhança entre o gênero feminino e outros estímulos, como mostra a figura 1.
Figura 1: Moldura de coordenação aplicada ao conceito de gênero

As setas contínuas demonstram relações treinadas e as setas pontilhadas demonstram relações derivadas.
A figura 1 mostra como a partir de duas relações diretamente treinadas (feminino 🡪 menina / feminino 🡪 frágil) outras podem derivadas a partir das propriedades de implicação mútua, implicação combinatória e transformação de função do Responder Relacional Arbitrariamente Aplicável (RRAA). Pela implicação mútua, assim como feminino se relaciona com menina e frágil, menina e frágil também estão em relação com feminino. Além disso, pela implicação combinatória, menina e frágil também passam a estabelecer relação entre si, mesmo sem treino direto dessas relações. A partir deste exemplo podemos ver como o conceito de gênero se caracteriza como um repertorio de responder relacional.
Contudo, as relações são bem mais amplas e complexas a depender da moldura relacional em que o gênero é enquadrado. Consideremos a moldura de oposição, que estabelece relações entre características quantitativas ou qualitativas dos estímulos posicionando-as em polos dicotômicos. É exatamente esta moldura que nossa cultura patriarcal e machista estabelece com as categorias de gênero feminino e masculino, ou seja, estas categorias não são apenas relacionadas como diferentes, mas como opostas. Nesse sentido, pela propriedade de transformação de função do RRAA, aqueles atributos considerados desejáveis e valorizados (função reforçadora) para o gênero feminino adquirem função indesejável e desvalorizada (função aversiva) para o gênero masculino e vice-versa (Sttit, 2020; Farrell et al. 2023). É aí que surgem os estereótipos e discriminações para as mulheres “masculinizadas” e para os homens “afeminados”, para citar apenas alguns exemplos.
Observa-se assim, que o conceito de gênero inclui um conjunto de atributos, características, repertórios, fenótipos, aspirações, interesses, etc. distintos para indivíduos incluídos no masculino ou no feminino. Temos aqui, então, mais uma moldura relacional possível em que o gênero é enquadrado, a de hierarquia, que estabelece relações de pertencimento e de estar contido entre os estímulos (Sttit, 2020). Obviamente que essa é uma moldura muito restrita, pois os atributos incluídos nela são genéricos, arbitrários e excludentes, de modo que muitos indivíduos não se enquadram ou não correspondem aos estereótipos de gênero estabelecidos.
Por fim, uma moldura relacional fundamental para a compreensão do gênero como um repertório verbal é a moldura dêitica. De acordo com a perspectiva da RFT, a moldura dêitica é um tipo de responder relacional desenvolvido por meio de interações sociais, as quais ensinam um indivíduo a distinguir e responder à própria perspectiva, em relação à perspectiva de outrem (McHugh, Stewart & Almada, 2019). Enquanto a maioria das molduras relacionais envolvem algum tipo de propriedade formal ou não arbitrária no ambiente (e.g. coordenação, oposição), o responder dêitico é abstrato e, nesse caso, precisa ser abstraído a partir de um extenso treino de múltiplos exemplares com padrões relacionais diferentes, com mínimo subsídio de propriedades formais (Stapleton & McHugh, 2021). Podemos pensar, por exemplo, em indagações da comunidade verbal como: “O que você fez na semana passada?” / “O que você quer ser quando crescer?” / “O que você está sentindo agora?”. A partir de treinos diretamente realizados pela comunidade, o indivíduo passa a ficar sob controle de dicas contextuais dêiticas (Eu-você, aqui-ali, agora-depois), que controlarão contextualmente seu comportamento no futuro, sem necessidade de treino adicional.
Assim, uma vez estabelecido em um repertório comportamental, o responder dêitico passa a ser inerente aos eventos verbais de quem está se comportando. Ou seja, não importa o que essa pessoa diga ou faça, essa ação está partindo de uma perspectiva, de um “eu” ou “self”. Nesse contexto, o gênero, como um conceito que abrange regras, expectativas e atribuições a grupos, passa a ser incorporado ao self de indivíduos. O “eu” é, então, coordenado a narrativas elaboradas e estendidas sobre o que é aprendido acerca do ser “mulher” ou ser “homem” na cultura correspondente, as quais influenciam o comportamento subsequente via a propriedade de transformação de função do RRAA.
O conjunto de redes relacionais associadas ao “eu” é chamado de self conceitualizado e se constitui como um dos processos psicológicos que podem resultar em rigidez comportamental e inflexibilidade psicológica (Hayes, Strosahl & Wilson, 1999). É importante denotar que, não só essas narrativas elaboradas adquirem coerência relacional (a coerência é um reforçador condicional para indivíduos verbalmente competentes), como também são diretamente reforçadas pela cultura, que estimula comportamentos estereotipados de gênero.
Ilustramos aqui apenas alguns exemplos de molduras relacionais possíveis nas quais o gênero é enquadrado, mas as relações possíveis são bem mais amplas. Para uma melhor compreensão do tema, recomendamos a leitura da bibliografia referenciada.
Referências
Farrell, L., Mizael, T. M., & Gould, E. R. (2023). Gender Is the Name of the Frame: Understanding Gender through the Lens of Relational Frame Theory. Social Sciences, 12(10), 532. https://doi.org/10.3390/socsci12100532
Ferraz, J. C., Peixinho, H. L. S., Vichi, C., & Sampaio, A. A. S. (2019). Uma análise de metacontingências e macrocontingências envolvidas em práticas de gênero. In R. Pinheiro & M. Táhcita (Orgs.), Debates sobre feminismo e Análise do Comportamento (pp. 174–195). Imagine Publicações.
Hayes, S. C., Barnes-Holmes, D., & Roche, B. (2001). Relational Frame Theory: A précis. In S. C. Hayes, D. Barnes-Holmes, & B. Roche, Relational Frame Theory: A post-skinnerian account of human language and cognition (pp. 141–154). Kluwer Academic Publishers.
Hayes, S. C., Fox, E., Gifford, E. V., Wilson, K. G., Barnes-Holmes, D., & Healy, O. (2001). Derived relational responding as learned behavior. In S. C. Hayes, D. Barnes-Holmes, & B. Roche, Relational Frame Theory: A post-Skinnerian Account of Human Language and Cognition (pp. 21–49). Kluwer Academic Publishers.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (1999). Acceptance and commitment therapy: An experiential approach to behavior change. Guilford Press.
Lauretis, T. (1994). A tecnologia de gênero. In Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura (pp. 206–242). Rocco.
McHugh, L., Stewart, I., & Almada, P. (2019). A contextual behavioral guide to the self: Theory and practice. New Harbinger Publications.
Ruiz, M. R. (2003). Inconspicuous sources of behavioral control: The case of gendered practices. The Behavior Analyst Today, 4(1), 12–16. https://doi.org/10.1037/h0100005
Sickman, E., Belisle, J., Payne, A., Hutchison, L., & Travis, E. (2023). An exploratory analysis of gender stereotyping using the theoretical framework of relational density theory. Journal of Contextual Behavioral Science, 28, 256–265. https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2023.04.007
Stapleton, A., & McHugh, L. (2021). Healthy selfing: Theoretically optimal environments for the development of tacting and deictic relational responding. Perspectivas em Análise do Comportamento, 12(1), 125-137. https://doi.org/10.18761/PAC.2021.v12.RFT.10
Stitt, A. (2020). ACT for gender identity: the compreensive guide. London: Jessica Kingsley Publishers. eISBN: 978.1.78450.812-8
Zanello, V. (2018). Saúde mental, gênero e dispositivos: Cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris. ISBN: 978-85-473-1028-8

