Papel do psicólogo no trabalho com emoções secundárias em pacientes hospitalares

Na perspectiva da Terapia Comportamental Dialética (DBT), as emoções são entendidas como respostas complexas que envolvem diversos componentes, desempenhando funções importantes de adaptação.

As emoções primárias, segundo Linehan (2015), são as primeiras reações a eventos e têm como função principal a sobrevivência e a comunicação social. Por exemplo, o medo sinaliza que a pessoa está em perigo e o impulsiona a enfrentar ou fugir de um perigo.

Já as emoções secundárias surgem quando a pessoa reage não apenas ao evento, mas também à sua própria emoção primária ou à interpretação que faz dela. São influenciadas pela história pessoal (condicionamento operante e respondentes). Por exemplo, sentir vergonha por estar com medo ou raiva por estar triste.

Na DBT, essas emoções são consideradas problemáticas quando intensificam o sofrimento e dificultam comportamentos efetivos, afastando o paciente das emoções que se encaixam aos fatos. No hospital, isso é frequente. Um paciente pode sentir medo antes de uma cirurgia (emoção primária), mas logo depois sentir culpa ou vergonha por acreditar que “deveria ser forte” (emoções secundárias). Esse ciclo aumenta a angústia e pode afetar negativamente a recuperação.

Emoções secundárias no hospital: exemplos práticos

Imagine um paciente submetido a uma cirurgia cardíaca. Inicialmente, ele pode sentir medo de complicações (emoção primária). Porém, ao perceber esse medo, pode passar a se julgar como “fraco” ou “inseguro”, desenvolvendo vergonha ou irritação consigo mesmo (emoções secundárias), até mesmo “descontando” sua raiva na equipe de saúde. Esse processo torna a experiência ainda mais angustiante.

Outro exemplo ocorre em pacientes pediátricos: uma criança internada pode sentir tristeza por estar longe de casa (emoção primária) e, em seguida, demonstrar agressividade com a equipe como forma de lidar com a sensação de impotência (emoção secundária). Se a equipe compreender apenas o comportamento agressivo, sem considerar sua base emocional, corre-se o risco de reforçar o ciclo de sofrimento.

A contribuição da Terapia Comportamental Dialética (DBT) A DBT (Dialectical Behavior Therapy), criada por Marsha Linehan, oferece recursos valiosos para o trabalho com emoções secundárias em contextos hospitalares. Entre as principais estratégias destacam-se:

  • Treino de mindfulness: auxilia o paciente a reconhecer e nomear suas emoções sem julgamento, favorecendo a diferenciação entre o que sente no momento (primário) e o que surge como reação (secundário).
  • Validação emocional: quando o psicólogo reconhece o sofrimento legítimo do paciente, diminui-se a autocrítica que alimenta emoções secundárias como vergonha ou culpa, ele passa se aproximar da emoção primária e essa, por sua vez, pode ser mantida em momentos futuros.
  • Regulação emocional: ensinar o paciente a identificar vulnerabilidades (como dor física, privação de sono, fome) e aplicar habilidades de enfrentamento, como técnicas de relaxamento, respiração ou distração saudável.
  • Tolerância ao mal-estar: no hospital, muitas situações não podem ser alteradas. Ajudar o paciente a suportar esses momentos sem recorrer a comportamentos desadaptativos é um passo essencial para reduzir a sobreposição de emoções, ou seja, tolerar o mal-estar pode ajudar o paciente a não se aproximar das emoções secundárias.

Por exemplo, um paciente que sente raiva de si mesmo por estar com medo antes de um exame invasivo pode ser orientado a respirar profundamente, identificar que “o medo é natural e compreensível diante da situação” e usar uma estratégia de enfrentamento, como focar na
respiração até o término do procedimento.

Considerações finais

O manejo das emoções secundárias no ambiente hospitalar é um desafio que exige sensibilidade e técnica. O psicólogo, ao empregar intervenções inspiradas na DBT, pode oferecer não apenas alívio imediato do sofrimento, mas também recursos que ampliam a autonomia emocional do paciente durante a hospitalização. Assim, a atuação vai além da escuta: é também educativa, fortalecendo o paciente para lidar com a experiência de adoecimento e internação.

Referências

DUNKLEY, Christine. Regulando a Emoção à Maneira da TCD: Um Guia do Terapeuta para a Ação Oposta. 1ª ed. Nova York: Routledge, 2020.

LINEHAN, M. M. Manual de treinamento de habilidades em DBT. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.

ROSENSTEIN, DL; HOROWITZ, MJ Hospitalização e respostas emocionais: uma revisão integrativa. General Hospital Psychiatry, v. 35, n. 2, p. 115–121, 2013.

SWENSON, CR Princípios da TCD em Ação: Aceitação, Mudança e Dialética. Nova York: Guilford Press, 2018.

SHENK, CE; FRUZZETTI, AE. O impacto da validação e invalidação de respostas na reatividade emocional. Journal of Social and Clinical Psychology, v. 30, n. 2, p. 163–183,

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Escrito por Vanderson Garcia

Vanderson Garcia é psicólogo clínico, hospitalar e da saúde, mestre em Ciência do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e foi membro do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa, Tecnologia e Inovação em Saúde (UFF). É pós-graduado em Psicologia Hospitalar e em Terapia Comportamental Dialética. Possui experiência em docência em cursos de pós-graduação nas áreas de Terapia Cognitivo-Comportamental, Análise do Comportamento, Treinamento de Habilidades Psicológicas, Terapia do Esquema e Terapia Comportamental Dialética.Formado em Treinamento de Habilidades Psicológicas e com certificação Nível 1 em RO-DBT (Radically Open Dialectical Behavior Therapy), busca integrar evidências científicas e práticas clínicas em contextos de saúde mental e hospitalar.Áreas de interesse: Psicologia Hospitalar, Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia Comportamental Dialética, Treinamento de Pais, Psicopatologia, Psicofisiologia, Neurociências e Intervenções Baseadas em Evidências em pacientes com desregulação emocional intensa.

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