Dedicado aos fundadores da vila DBT, em especial, a Marsha M. Linehan e aos que vieram depois dela.

Bem-vindo, bem-vinda à Vila DBT. Pode ser que você tenha chegado e decida ficar, ou pode ser que você esteja de passagem. Seja qual for o seu caminho, se você está aqui, coloque sua bagagem na hospedaria (ou na casa de um amigo) e descanse um pouco.
Esse texto é para acolher a tristeza de alguns corações que sentem que nossos encontros são muito rápidos; aquelas pessoas que ficam tristes quando nos despedimos. Realmente, uma semana, ou 9 meses, podem passar muito rápido.
Eu costumava ter essa sensação quando um treinamento de DBT acabava, especialmente um treinamento intensivo ou em um retiro de mindfulness, em que nos relacionávamos como moradores da vila. Eu não tenho mais essa sensação ao fim desses eventos. E o motivo, eu sei: eu sei que não é o fim, é apenas o começo. Eu vou voltar, e voltar e voltar. Afinal, eu descobri que a vila é onde eu pertenço.
Na vila, nós nos guiamos por dados científicos, mas há muita poesia, arte, dança. Tem ao mesmo tempo “técnica” e “arte”. Tem muita técnica que tem que ser aprendida e treinada muitas e muitas vezes para que sejamos moradores efetivos e bons terapeutas; mas também reaprendemos a ser exatamente quem somos, tanto na vida, quanto no trabalho.
Vida e trabalho não são coisas diferentes, afinal, apesar de serem contextos que evocam diferentes comportamentos e estilos de ser, o trabalho está contido na vida e os moradores da vila são incentivados a validar o seu “eu essencial” – quem eles verdadeiramente são.
Na vila evitamos falar em “certo e errado,” mas isso não significa que pode tudo na vila. Os valores éticos e científicos norteiam nossa caminhada. Em algum lugar no meio desses dois pilares existe o valor da adesão ao que sabemos que funciona. Se a ciência mostrar que tem algo que funciona melhor e é mais barato, os moradores da vila terão que olhar para isso com cuidado e com carinho e modificar aspectos do seu trabalho, especialmente, enquanto provedores de saúde mental.
Na vila aceitamos que estamos fazendo o melhor que podemos, mas sabemos que temos que nos esforçar mais.
Aliás, essa história de “mas” não é mais tão comum na vila. Abraçamos os “es” das contradições, reconhecendo que aparentes opostos existem juntos em uma eterna dança de impermanência e mudança.
Se você é um(a) “paciente”, espere aí….. aqui, você é BEM-VINDO(A)!
A primeira moradora da vila, uma grande cientista e psicoterapeuta chamada Marsha Linehan, foi ao mesmo tempo paciente e terapeuta, como a maioria de nós. A vila só existe por conta dos pacientes (ou clientes), em primeiro lugar: pessoas que estão sofrendo intensamente.
Não tem chefe na vila (a menos que você trabalhe diretamente com alguém daqui), e (ao invés de “mas”) nós honramos profundamente os que vieram primeiro. A vila não é só um grande grupo, são inúmeros pequenos grupos formando um grande coletivo.
Há muitos desafios em viver na vila e praticar a Terapia Comportamental Dialética (a DBT). E muitas vezes os moradores acabam ficando isolados e preocupados, sentindo-se esgotados, cansados, inefetivos, falhos…. Quando isso acontece, é bom lembrar de respirar fundo e sair do seu lugar individual: vá para o bar mais próximo e tome um suco (ou uma cerveja) com um amigo morador da vila. Abra-se. Se conectar e receber o apoio de que precisa para aceitar (ou mudar!) o que precisa ser aceito (ou mudado) é o melhor meio de lidar com esses momentos.
E em último lugar, mas não menos importante: os moradores da vila não são seres humanos “especiais.” São apenas seres humanos que, na eterna e finita caminhada da vida, se identificaram com um conjunto específico de valores e ferramentas (as habilidades), notadamente desenvolvidas pela Terapia Comportamental Dialética, a nossa querida DBT.
Se você sentiu seu coração quente na vila, fique! Se o seu caminho te leva para longe, eu vou te dizer “até logo”, mas nunca “adeus.” Mesmo se nós nunca mais nos vermos, foi um grande prazer te ver passar pela Vila DBT.

